Desde o início de 2026, o comércio retalhista em França tem vindo a registar uma deterioração acentuada, com um nível recorde de insolvências empresariais, encerramentos de lojas e planos de despedimento que afetam vários milhares de empregos.
Adicionalmente, várias análises de mercado indicam que as vendas a retalho evoluíram muito lentamente, com o retalho físico a ter dificuldades em recuperar negócio, enquanto o comércio eletrónico continua a captar uma quota crescente do consumo. Esta situação afeta particularmente os retalhistas dos centros das cidades, as lojas especializadas e os formatos intermédios, que sofrem da redução do cabaz médio de compras assim como a diminuição da frequência.
No primeiro trimestre de 2026, a França registou quase 19.000 processos de insolvência abertos ao longo de três meses e cerca de 71.000 insolvências num período de 12 meses, com mais de 75.000 empregos em risco, segundo o estudo de Altares. Também o Banque de France confirma um ligeiro aumento das insolvências no final de abril de 2026, para 70.228 em 12 meses, com o aumento a afetar a maioria dos setores, incluindo o comércio a retalho. Para agravar a situação o INSEE observa uma diminuição do consumo familiar no primeiro trimestre de 2026 e uma deterioração do poder de compra, fatores que pesam diretamente nas vendas em lojas.
Desde janeiro de 2026, são de registar falências, encerramentos e despedimentos, tendo várias marcas nacionais anunciado encerramentos de lojas e planos de despedimento: Okaïdi (confeção criança) - 60 encerramentos de lojas e um corte de cerca de 290 empregos -, Printemps (department store) - eliminação de cerca de 228 empregos e encerramentos seletivos -, C&A - encerramento de 24 lojas e “corners”, 324 empregos ameaçados.
Também no âmbito de uma política de redução de custos a marca H&M, anunciou este ano encerramentos das lojas da marca “Other Stories” (baseada em Paris). A nível mundial a marca que fechou 200 lojas em 2025, avisou que iria fechar mais 160 lojas em 2026.
Não passa uma semana sem que uma conhecida cadeia de retalho francesa anuncie o encerramento de uma ou mais lojas. Materiais de construção, decoração, jardinagem, moda, supermercados… nenhum setor escapa. E a tendência, longe de abrandar, acelerou desde o início de 2026.
A Leroy Merlin, há muito considerada um pilar inabalável do comércio francês, acaba de confirmar o encerramento definitivo de algumas lojas consideradas não lucrativas. A Alinéa (cadeia de mobiliário e decoração) também do grupo Mulliez/Auchan, lançou uma liquidação total em várias das suas lojas, com a supressão de 1.200 empregos.
O retalhista de mobiliário Maisons du Monde, que enfrenta sérias dificuldades, anunciou um prejuízo líquido de 406 milhões de euros este mês. A empresa anunciou igualmente um plano de transformação que inclui o encerramento ou a transferência de 40 a 50 lojas até 2026.
A retalhista francesa 4Murs (papel mural, tintas, revestimentos) anunciou em março o encerramento gradual de quase 80 lojas e a eliminação de 350 postos de trabalho até junho de 2026 (desde fevereiro que o encerramento de lojas tem ocorrido a um ritmo de aproximadamente quatro por semana).
A Gamm Vert (rede de lojas de jardinagem) anunciou o encerramento de várias lojas nas grandes cidades. Os centros de jardinagem tradicionais estão sob dupla pressão do comércio eletrónico e das secções de jardinagem cada vez maiores dos hipermercados e supermercados.
No âmbito da reestruturação do grupo Casino, A Monoprix (Grupo Casino) anunciou a venda de lojas ao Lidl e anunciou encerramentos numa cadeia com mais de 600 pontos de venda.
A Zeeman, retalhista holandesa de tecidos, vai fechar lojas na Europa. De acordo com informações divulgadas na terça-feira, 26 de maio, na Holanda, 150 lojas deverão encerrar até 2028, incluindo 51 já em 2026, em França, Alemanha e Espanha. A empresa não especificou quais das 341 lojas francesas serão afetadas.
Estes anúncios mais mediáticos sucedem-se aos não menos mediáticos de 2025 (Camaïeu, Kookaï, Jennyfer, Casa, …) e inserem-se numa tendência mais ampla onde as PME do setor do comércio retalhista continuam particularmente expostas às insolvências e liquidações. Em 10 anos, a França perdeu mais de 10.000 lojas de vestuário. Um número impressionante que está a remodelar a paisagem dos centros urbanos.
Vários fatores explicam esta situação: uma queda do poder de compra e um declínio do consumo, a pressão dos custos fixos (rendas, energia, logística), aumento da concorrência do comércio eletrónico e da moda “fast fashion”, e os efeitos residuais das dívidas contraídas durante a crise do CIVID (empréstimos garantidos pelo Estado entre outros). Para justificar encerramentos as próprias marcas também citam causas setoriais como a queda na taxa de natalidade que afeta a venda de roupa infantil, ou ainda o aumento do consumo de roupa em segunda mão. A combinação destes elementos conduz a riscos sociais (planos sociais e desemprego setorial), tensão no mercado do imobiliário comercial (locais vazios) e risco de contágio pelos fornecedores e prestadores de serviços.
O panorama geral, neste primeiro semestre, mostra que o comércio a retalho em França não está apenas a passar por uma situação económica difícil, mas está também numa fase de reestruturação. As marcas menos capitalizadas ou as mais expostas à queda do número de clientes encontram-se forçadas a reduzir a sua rede, fechar lojas e, por vezes, cortar empregos para preservar o seu fluxo de caixa (cash flow). Os centros urbanos continuam particularmente vulneráveis, com o aumento do teletrabalho, o fluxo de passagem nas ruas comerciais caiu 20 a 30% em algumas cidades de média dimensão. Menos passagens, menos clientes a entrar nas lojas, menos receitas, o que alimenta um círculo vicioso de menor atratividade para as lojas restantes.
As zonas comerciais estão a transformar-se muito rapidamente. Lojas vazias estão a acumular-se na nos “retail parks”. Algumas estão a ser convertidas em ginásios, clínicas veterinárias ou espaços de coworking. Com este ritmo de mudança prevê-se que a paisagem do retalho francês em 2030 não terá qualquer semelhança com a de 2020.