Portugal é um destino muito atrativo para o investimento, um país com uma centralidade atlântica, com talento e com muitas outras vantagens competitivas que podem ajudar a atrair empresas. Esta foi uma das ideias destacadas por Madalena Oliveira e Silva, presidente da AICEP, na sua intervenção no painel “Navegar na Incerteza: o impacto da nova realidade económica e política nas empresas nacionais”, no âmbito do The Branding & Business Summit que decorreu a 23 de abril no MEO Arena, em Lisboa.
A iniciativa, promovida pelo Imagens de Marca em parceria com a Brands Community, contou com mais de 700 inscritos e procurou promover as marcas portuguesas que estão a construir o futuro do país e a reforçar a ligação entre estratégia, comunicação e criação de valor na promoção de Portugal além-fronteiras.
Madalena Oliveira e Silva destacou, a propósito, que a AICEP tem como objetivo apoiar a internacionalização das empresas e a captação de investimento. “É preciso dar às empresas um conhecimento mais rigoroso dos desafios que se colocam e dos mercados”, adiantou, dando como exemplo os estudos que a Agência tem realizado sobre o impacto dos acordos comerciais UE-Mercosul ou UE-Índia, bem como o apoio local que é disponibilizado pelas mais de 40 delegações da AICEP em todo o mundo. “Temos instrumentos financeiros e de formação, e conhecimento de mercado que é dado localmente pelas nossas delegações que servem de ligação com a realidade dos vários mercados”.
Perante representantes de algumas das principais marcas portuguesas, a presidente da AICEP lembrou que são as empresas que exportam e que a Agência “não pode forçar decisões, mas tem de mostrar as possibilidades que se abrem num mundo onde o multilateralismo já não é o que era”.
Neste momento, os acordos regionais estabelecidos pela União Europeia estão a merecer uma atenção redobrada por parte da AICEP. “Exportamos 65 por cento para a Europa, e para diversificar mercados é preciso ter em conta os acordos regionais. É isso que estamos a fazer”.
Já na vertente da captação de investimento, Madalena Oliveira e Silva salientou a necessidade de agilizar processos, que muitas vezes se prolongam devido à complexidade da legislação ou do enquadramento europeu. “Precisamos de ter as condições para que os projetos se instalem em tempo recorde. Isso é a chave”, concluiu.
Neste novo contexto, marcado por instabilidade geopolítica e económica, a presidente da AICEP considerou tratar-se, uma vez mais, de um momento que exige acompanhamento. A agência continuará, segundo afirmou, a acompanhar de forma contínua a evolução da situação internacional, monitorizando potenciais impactos nas exportações e nas decisões de investimento, enquanto assegura informação atualizada e apoio próximo às empresas e investidores.
No mesmo painel, Ana Carvalho, administradora da Caixa Geral de Depósitos, destacou a importância de “dar a mão às empresas para que se concentrem no seu negócio”, e para isso lembrou que a CGD tem equipas em diversos países, conhecimento, coberturas de riscos, financiamento e diversos produtos que podem ajudar as empresas a crescer.
A questão dos riscos e dos seguros foi também abordada por Rogério Campos Henriques, CEO da seguradora Fidelidade, que lembrou o facto de, num contexto de incerteza, os seguros terem um papel determinante. “Em Portugal, isso ficou particularmente demonstrado com as tempestades recentes”.
Apesar do contexto de incerteza, todos os dias as empresas nacionais continuam a manifestar interesse em investir no estrangeiro, lembrou Vítor Ribeirinho, CEO da KPMG Portugal. “Há bons exemplos de processos de internacionalização que seguem um fio condutor e têm um posicionamento estratégico, que passa por escolher bem os mercados”.
De um mundo bipolar para uma zona de multipolaridade
“O Novo Tabuleiro Global” foi o tema da intervenção do especialista em geopolítica e comentador da SIC Nuno Rogeiro, que destacou os vários estrangulamentos de trânsito marítimo, nomeadamente o do estreito de Ormuz, que hoje causa grande parte das preocupações relacionadas com a segurança e o comércio internacional.
“De um domínio bipolar passámos para uma zona de multipolaridade”, sublinhou, para depois destacar o papel de Portugal e das empresas portuguesas nos últimos anos, num contexto que iniciou com a guerra na Ucrânia e agora se prolonga com o conflito no Médio Oriente. “Portugal está voltado para as grandes linhas de comunicação marítima e será afetado por qualquer abalo nessas comunicações”, lembrou, para depois sublinhar a importância de as empresas poderem atravessar fronteiras e contactar parceiros.
O valor do “Made in Portugal”
O “Made in Portugal” e a melhor forma de promover o que se faz no país em áreas como a indústria ou o turismo foram também abordados no palco da The Branding & Business Summit. Lídia Monteiro, do Conselho Diretivo do Turismo de Portugal, destacou o que considera ser um dos principais caminhos para o sucesso. “Não podemos ter medo de arriscar, temos de estar onde os outros estão, usar as ferramentas de uma economia digital e investir na inovação e na presença nos mercados”.
Portugal é um dos melhores destinos de praia, um dos melhores destinos turísticos e é importante ter marcas com capacidade de internacionalizar que acrescentem valor ao país, lembrou a responsável do Turismo de Portugal. “É muito interessante que os empresários olhem para a marca como algo que está no centro do seu negócio”.
Paulo Pereira da Silva, presidente do Conselho de Administração da Renova, salientou que Portugal tem “um saber fazer que muitos países já não têm”, mas deixou um alerta: “Temos de conseguir vender valor, temos de mostrar o valor do que se faz em Portugal… e temos coisas extraordinárias”.
Formado em Física, o presidente da Renova adiantou que sempre se interessou por misturar a técnica e a ciência com o mundo sensorial e a transformação. “A marca não é uma coisa morta nem congelada, implica estar em constante evolução”.
Também o empresário e chef Henrique Sá Pessoa salientou a importância de as marcas se renovarem e deu como exemplo o setor da restauração. “É necessário que haja consistência e proximidade. Somos muito conhecidos por ter uma ótima cozinha, mas quando falamos da nossa representação gastronómica fora de Portugal ainda há um caminho a fazer”.
No último painel desta cimeira dedicada às marcas, sobre Empresas Inteligentes, Bernardo Mendonça, CEO da Granted, explicou como criou uma empresa para simplificar as candidaturas a fundos europeus depois de se ter confrontado com a complexidade desse processo. Já o CEO do Grupo Impresa, Francisco Pedro Balsemão, explicou as transformações que estão a ocorrer no grupo com a utilização da inteligência artificial e Sofia Tenreiro, CEO da Siemens Portugal, relatou como a inteligência artificial está a contribuir para a produtividade industrial das equipas e das empresas. “Temos, enquanto empresas, uma responsabilidade muito grande de adaptação, de capacitação e de adoção em relação à inteligência artificial”, considerou a responsável da Siemens.
Ao encerrar o evento, o ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Saraiva Matias, afirmou que o Estado não pode, nem quer, substituir-se à inovação e criatividade das empresas. No entanto, sublinhou, “cabe-lhe criar as condições para que esse desenvolvimento possa acontecer”.
Ao abordar a importância da digitalização, o ministro lembrou que as empresas têm hoje à disposição meios e tecnologias que antes não existiam, e que podem agilizar processos, licenciamentos e outras ações que podem ter impacto na evolução das empresas. “Estamos num momento de viragem em que, ou agarramos esta oportunidade que nos é trazida pela tecnologia e pela inteligência artificial para prestar melhor serviços aos nossos cidadãos e aos nossos clientes, ou depois já será tarde para aproveitar”.