Menos obrigações, a mesma exigência: o que valorizam hoje os mercados internacionais
A simplificação das regras europeias de reporte reduz encargos para as PME, mas os clientes, investidores e parceiros internacionais continuam a valorizar empresas capazes de demonstrar transparência, organização e compromisso com práticas ESG.
A recente revisão das regras europeias de sustentabilidade representa uma mudança importante para muitas empresas. Com a aprovação do Pacote Omnibus I e a publicação da Diretiva (UE) n.º 2026/470, a União Europeia procurou simplificar o quadro de reporte de sustentabilidade, reduzindo encargos administrativos, restringindo o universo de empresas abrangidas e limitando o impacto indireto das obrigações de reporte sobre as pequenas e médias empresas (PME), espelhado nas alterações à Diretiva CSRD.
Para muitas PME portuguesas, esta evolução significa uma menor pressão regulatória. Contudo, esta simplificação não altera uma realidade que continua a marcar os mercados internacionais: clientes, investidores, financiadores e parceiros mantêm uma atenção crescente aos temas ambientais, sociais e de governação (Environmental, Social and Governance - ESG na sigla inglesa).
A questão que muitas empresas exportadoras enfrentam hoje não é apenas saber se têm uma obrigação legal de reportar informação de sustentabilidade, mas sim perceber até que ponto essa informação pode contribuir para reforçar a sua posição competitiva nos mercados onde atuam, bem como transformar as suas operações em modelos de negócio mais sustentáveis.
O ESG não desapareceu das decisões de compra
Embora as regras tenham mudado, muitas das dinâmicas de mercado que impulsionaram a agenda ESG permanecem. Os investidores continuam a utilizar informação relacionada com sustentabilidade para melhor compreender riscos e oportunidades. As instituições financeiras valorizam cada vez mais informação que lhes permita avaliar a capacidade de adaptação das empresas a desafios ambientais e sociais. Ao mesmo tempo, muitas empresas internacionais continuam a integrar critérios ESG nos processos de seleção e acompanhamento de fornecedores.
Por esta razão, mesmo as empresas que deixaram de estar abrangidas por obrigações formais de reporte podem continuar a receber pedidos de informação relacionados com estas matérias. Também as pequenas e médias empresas que nunca estiveram abrangidas pela obrigatoriedade de reporte, por força da sua integração em cadeias de valor internacionais, vão continuar a receber pedidos de informação envolvendo métricas de sustentabilidade e ESG. A diferença é que passam agora a poder responder de forma mais proporcional à sua dimensão e realidade operacional.
O que os clientes internacionais procuram?
A crescente relevância do ESG não significa necessariamente a exigência de relatórios extensos ou sistemas complexos de reporte. Em muitos casos, o que os mercados valorizam é a capacidade de uma empresa demonstrar que conhece os seus principais impactos, acompanha indicadores essenciais e possui processos internos que lhe permitem responder de forma credível às solicitações dos seus parceiros.
Para uma PME exportadora, esta capacidade pode constituir um fator diferenciador, particularmente em setores fortemente integrados em cadeias de valor internacionais.
Cinco áreas que as PME exportadoras devem começar/continuar a acompanhar
Independentemente de estarem ou não sujeitas a obrigações formais de reporte, existem alguns temas que tendem a assumir uma relevância crescente nas relações comerciais internacionais e que justificam uma monitorização progressiva e sistemática por parte das empresas.
1. Consumos energéticosAcompanhar os consumos de eletricidade, combustíveis ou outras fontes de energia permite identificar oportunidades de eficiência e responder a pedidos de informação frequentemente associados ao desempenho ambiental das empresas.
Além de contribuírem para a redução de custos operacionais, estes dados são cada vez mais valorizados por clientes que procuram compreender o impacto ambiental da sua cadeia de abastecimento.
2. Gestão de resíduos e utilização de recursosGestão de resíduos, reciclagem, redução de desperdícios e utilização eficiente de matérias-primas constituem temas frequentemente associados às estratégias de sustentabilidade das empresas.
Dispor de informação básica sobre estas práticas pode facilitar o diálogo com clientes e parceiros internacionais, sobretudo em setores industriais e de transformação. Para além disso, constituem áreas que poderão servir de base para novos modelos de negócio.
3. Pessoas e condições de trabalho
Os aspetos sociais assumem uma importância crescente nas avaliações ESG.
Indicadores relacionados com segurança e saúde no trabalho, formação profissional, retenção de talento ou desenvolvimento de competências contribuem para demonstrar a capacidade de uma empresa gerir e valorizar os seus recursos humanos.
4. Ética e Governação
A existência de práticas de integridade, mecanismos de controlo interno e princípios de atuação ética constitui um elemento importante de confiança para os próprios trabalhadores, bem como para clientes, investidores e financiadores.
Mesmo em estruturas empresariais de menor dimensão, a adoção de procedimentos e práticas simplificadas garante um ambiente mais justo e transparente e contribui para reforçar a credibilidade da organização.
5. Gestão de riscos e oportunidades
A capacidade de identificar riscos associados à evolução do mercado, a alterações regulamentares, à disponibilidade de recursos ou às expetativas dos clientes está cada vez mais ligada à resiliência empresarial.
A monitorização destes fatores permite antecipar desafios e preparar respostas mais eficazes num contexto internacional em rápida transformação. Acresce ainda a necessidade de evolução para modelos de negócios mais sustentáveis, integrando a sustentabilidade no próprio ADN da empresa, procurando um desenvolvimento equilibrado, que valoriza a sustentabilidade ambiental, a justiça social e o bem-estar das futuras gerações[1]. Empresas que ponham em prática um modelo que crie valor a longo prazo para todas as partes envolvidas (stakeholders) ficam habilitadas a dar resposta a desafios futuros (e.g. desafios ambientais, pressão regulatória, expetativas dos consumidores, riscos financeiros).
Uma oportunidade para as PME exportadoras
A simplificação do enquadramento europeu cria uma oportunidade para que as PME adotem uma abordagem mais pragmática ao ESG.
Em vez de procurarem reproduzir modelos de reporte desenvolvidos para grandes grupos empresariais, podem concentrar-se na recolha da informação mais relevante para os seus clientes e parceiros comerciais.
Neste contexto, a Comissão Europeia adotou uma recomendação sobre a apresentação voluntária de relatórios de sustentabilidade pelas PME, onde identifica no respetivo Anexo I a norma voluntária para PME (VSME), desenvolvida pelo EFRAG, como uma referência útil para estruturar informação ESG de forma simplificada e proporcional à dimensão da empresa. Além disso, a própria revisão da CSRD prevê que esta norma funcione como referência para limitar pedidos excessivos de informação dirigidos às pequenas empresas nas cadeias de valor.
Da conformidade à competitividade
Durante vários anos, o debate em torno do ESG foi dominado pelas obrigações regulamentares. Hoje, para muitas PME exportadoras, a questão é diferente. Mais do que cumprir uma obrigação legal, importa perceber como a sustentabilidade pode apoiar objetivos de negócio, reforçar relações comerciais e criar vantagens competitivas.
As empresas capazes de demonstrar transparência, capacidade de resposta e preparação para responder às expetativas dos mercados poderão encontrar mais oportunidades para integrar cadeias de valor internacionais, consolidar relações com clientes e reforçar a sua posição competitiva.
Ao simplificar as regras de reporte de sustentabilidade, a União Europeia procurou tornar o sistema mais proporcional e compatível com a realidade empresarial. Contudo, as tendências que impulsionaram esta agenda continuam presentes.
A transparência, a gestão responsável e a capacidade de demonstrar informação relevante sobre o negócio permanecem fatores cada vez mais valorizados pelos mercados internacionais.
Para as PME exportadoras portuguesas, o desafio passa agora por encontrar o equilíbrio certo: evitar complexidade desnecessária, mas desenvolver gradualmente informação e práticas que reforcem a confiança dos clientes, parceiros e financiadores, e que permitam uma evolução para modelos de negócio cada vez mais sustentáveis.
Fontes