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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Os alertas sobre riscos de falências cruzam-se com anúncios de investimentos. António Saraiva, João Duque e Mira Amaral explicam estes sinais contraditórios.

Há empresas a fechar, outras a investir. A economia está bipolar?


Por um lado, não faltam alertas sobre riscos de falências e incumprimento. Por outro, são frequentes os anúncios de investimentos. O patrão dos patrões, um ex-ministro e um economista explicam sinais aparentemente contraditórios.

Está a chegar "a hora da verdade para muitas empresas, que vão cair". A afirmação é de Luís Mira Amaral, e serve de resposta ao desafio colocado pelo Negócios: como explicar a sucessão de sinais contraditórios que o país empresarial tem vivido nas últimas semanas?


O Conselho das Finanças Públicas (CFP), admitiu um aumento do crédito malparado das empresas, que pode atingir mil milhões de euros; antes, as agências de rating Fitch e DBRS manifestaram receios de uma subida, embora de dimensão por definir, dos empréstimos em risco; e há dias o 'think tank' Bruegel considerou Portugal um dos países da UE com maior probabilidade de enfrentar uma vaga de falências no pós -pandemia


Poucos dias antes, no entanto, o Governo anunciou a pré-seleção de 64 propostas de investimento no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) de entre mais de 140. Esses projetos representam um investimento de mais de 9 mil milhões de euros, dos quais 8 mil milhões assegurados por empresas.


Quase todas as semanas há anúncios de investimento. E muitos são estrangeiros: nos primeiros dez meses do ano, a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) contratou 1,2 mil milhões de euros, um valor sem precedentes.


O que explica a coexistência destes fenómenos, de sinais aparentemente opostos? 'As alturas de crise são más para as más empresas e são boas para as empresas mais sólidas", diz Luís Mira Amaral ao Negócios. O antigo ministro da lndústria e Energia acredita que o país está a assistir a uma filtragem: 'As empresas em maior dificuldade aguentaram-se transitoriamente com as moratórias e os apoios do Estado. Mas essas moratórias terminaram e está a chegar a hora da verdade para essas empresas, que vão começar a cair", avisa Será uma limpeza do ecossistema empresarial forçada pela pandemia "Como sempre acontece nas crises, o desaparecimento dos mais fracos limpa o terreno e gera oportunidades para os que estão em condições de avançar." E essas, as mais fortes, "aproveitam a boleia da recuperação económica para investir e criar emprego", sustenta, acrescentando que nas crises é um fenómeno repetido.


"O facto novo nesta crise é que houve uma dimensão de apoios do Estado que não existiu noutras. Algumas empresas ter-se-ão aguentado graças a estas ajudas", salienta É o conceito da destruição criativa, expressão que o presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP) hesita em usar. Mas António Saraiva admite ao Negócios que as "estruturas que não se adaptaram já estavam a ficar para trás" e elogia "as que se reinventaram, apostaram na inovação e na procura de novos mercados. Nestas, essa destruição não tem grande margem para acontecer".


Um problema de imagem


O patrão dos patrões olha para o pessimismo de instituições estrangeiras sobre Portugal como um problema de imagem: "A política e a vida são feitas de perceções", diz.


E reconhece que "há uma perceção dessas entidades sobre a fragilidade do tecido empresarial", mas salienta que esse tecido já deu provas de resiliência


O economista João Duque também admite um problema de imagem: "Não sei se as agências internacionais estão conscientes do que é a economia portuguesa verdadeiramente. Se calhar não conhecem bem a nossa capilaridade. O volume de moratórias pode ter criado a impressão de que isto iria ser dramático. E recorda outro faton "Na crise anterior, Portugal pagou prémios de risco brutais na dívida da República. E pagámos sempre", enfatiza "As agências classificaram-nos de uma forma muito pior do que se justificaria pelo nosso comportamento prático. Tivemos o apoio da troika, mas pagámos sempre. A Grécia também teve e não pagou", afirma, concluindo que "é capaz de haver alguma negatividade sobre o país".


António Saraiva não rejeita, no entanto, a possibilidade de acontecerem problemas como os que são apontados por aquelas entidades: 'As empresas têm capitais próprios que comparam mal com as congéneres europeias e existem muitas dificuldades nalguns setores", admite, garantindo que "essa transformação está a ser feita". O patrão dos patrões diz que "os piores efeitos da pandemia já aconteceram".


Mira Amaral vê "com naturalidade" aqueles avisos: "Não conseguimos prever a dimensão do que vai acontecer, mas calculava que, com uma estrutura empresarial débil, há algumas empresas que se aguentaram graças a ajudas que não duram para sempre"


"Se estão a dar, aproveito"


João Duque acrescenta outro dado: Portugal foi "dos países com maior peso das moratórias face ao crédito", mas "a retoma dos pagamentos está a ser ordeira e sem grandes problemas". "O cataclismo que se podia prever não está a acontecer", enfatiza, concluindo que "os portugueses se aproveitaram" das circunstâncias. "Isto é muito típico da nossa cultura "Eles estão a dar, deixa aproveitar.'"


António Saraiva também sublinha a ausência de problemas: "As moratórias não chegaram a constituir um problema de dimensão enorme, como chegámos a recear."


Em simultâneo com a crise pandémica, as empresas enfrentam a crise energética, dos preços dos transportes e das matérias-primas. É esse o fator que mais preocupa Mira Amaral: "Para quem não consegue aproveitar a boleia da recuperação, esses fatores são uma tempestade quase perfeita"

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