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CABEÇALHO

Os empresários cabo-verdianos acreditam que o próximo ano será de viragem económica, mas o crescimento de 7,5% previsto para 2021 e de 6% para 2022 ainda será insuficiente para anular a recessão de 14,8% provocada pela pandemia.

"Não é só uma questão de esperança, e efetivamente há muita esperança, e não é só uma questão de confiança. Há indicações claras nesse sentido, tanto do ponto de vista do investimento externo, da construção de infraestruturas, da retoma do turismo. Porque sem a retoma do turismo não conseguimos sair disto", afirmou à Lusa Jorge Maurício, presidente da Câmara de Comércio de Barlavento, que abrange as ilhas a norte.

 

Depois de as restrições da pandemia de covid-19 terem provocado uma quebra de cerca de 70% na procura turística por Cabo Verde em 2020, setor que garante 25% do Produto Interno Bruto (PIB) e do emprego, levando a uma recessão histórica nesse ano equivalente a 14,8% do PIB, a retoma do turismo acontece, ainda timidamente e bastante condicionada pela evolução da pandemia, no quarto trimestre em 2021.

 

Ainda assim, as altas taxas de vacinação já conseguidas - mais de 65% da população totalmente vacinada - têm sido apontadas como fundamentais para a procura turística prevista para o inverno europeu, época alta em Cabo Verde. Em 2022 a procura ainda não voltará aos níveis de 2019, então um recorde de 819 mil turistas no arquipélago, mas os empresários acreditam que o sinal da retoma está dado.

 

"Só podemos ter uma recuperação forte se efetivamente o setor chave da economia cabo-verdiana, que neste momento é o turismo, avançar. São perspetivas enormes, já temos um inverno turístico garantido, nos hotéis em Cabo Verde, de uma forma geral, não é só Sal e Boa Vista, há uma grande procura neste momento", admitiu Jorge Maurício, reconhecendo que esta dinâmica está a "alavancar" outros setores.

 

"Como o projeto de aquacultura [de atum, de investidores noruegueses] em São Vicente, enorme, que envolve muitas outras coisas, que traz o desenvolvimento económica, depois as energias renováveis, da educação, dos transportes e até da fixação de segunda residência por parte dos noruegueses, isso é tudo muito bom para a nossa economia", reconheceu ainda.

 

Perspetivas positivas que Jorge Maurício diz dependerem do controlo da pandemia de covid-19 em Cabo Verde, que com um número reduzido de restrições, permanece em registos mínimos de casos desde o seu início.

 

Nas ilhas a sul, Jorge Spencer Lima que até este mês liderou a Câmara de Comércio, Indústria e Serviços do Sotavento (CCISS), a maior família empresarial de Cabo Verde, sublinhou o impacto da crise nas empresas, para perspetivar 2022: "É preciso ter em conta o setor privado nacional, que 'per si' já é bastante frágil, composto basicamente por micro e pequenas empresas, que representam quase 90% do tecido empresarial cabo-verdiano e a pandemia afetou-os bastante. Foram os primeiros sacrificados".

 

Daí que a retoma económica em 2022 dependa da implementação de "medidas" concretas para as empresas, evoluindo a partir do que foi feito em 2020 e 2021, para garantir os rendimentos no pico da pandemia.

 

"O Governo tomou várias medidas positivas para manter os salários, para manter os empregos, para manter os rendimentos das famílias, mas agora é preciso algo mais. Já não é o caso de estar a manter os salários, é manter as empresas. Se as empresas morrerem, os salários vão junto com elas", alertou Jorge Spencer Lima, que também já ouviu o primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, anunciar a revisão do Código Laboral, para aumentar a produtividade do país.

 

Ainda assim, o representante dos empresários das ilhas a sul modera o otimismo com a retoma económica ao admitir a preocupação com o impacto do fim das moratórias ao crédito bancário, previsto para 31 de março de 2022, medida de mitigação das consequências da pandemia, para empresas e particulares.

 

"Vai trazer um problema real grave às empresas. As moratórias não significaram que as dívidas desapareceram, pelo contrário, aumentaram, porque os juros foram capitalizados. E muitas empresas não estão em condições de pagar", admitiu.

 

Spencer Lima vai mais longe e admite a possibilidade de um perdão, para efetivamente haver retoma económica: "Estamos expectantes, mas pensamos que se devia pensar seriamente na questão do perdão. Não digo do capital, mas um perdão dos juros penso que devia estar sobre a mesa neste momento".

 

Para 2022, o primeiro-ministro cabo-verdiano, Ulisses Correia e Silva, já anunciou o lançamento de linhas de crédito de mais de 80 milhões de euros de apoio à retoma económica: "Medidas de apoio às empresas e ao investimento vão ser reforçadas. Nove milhões de contos [9.000 milhões de escudos, 81,4 milhões de euros] de linhas de crédito para retoma económica vão ser lançados já no próximo ano. A criação do fundo de impacto para micro, pequenas e médias empresas também será uma realidade".

 

"O país está a viver momentos difíceis, mas é transitório. A economia mundial irá recuperar e a economia cabo-verdiana também", insistiu Ulisses Correia e Silva.

 

Ainda assim, o chefe do Governo admitiu que esta retoma económica "faz-se num clima de incertezas, de fortes restrições nas finanças públicas" e recordou que apesar da previsão de crescimento de 6,5% a 7,5% este ano e 6% em 2022, isso ainda "fica aquém" do necessário, para recuperar da recessão económica de quase 15% em 2020.

 

"Significa que em 2022, o país estará ainda com menos riqueza do que tinha em 2019", afirmou Ulisses Correia e Silva.

 

"A crise atual é real, é impactante. Mas é transitória", apelou o chefe do Governo e presidente do Movimento para a Democracia (MpD, maioria), que terá de 'coabitar', politicamente, com o novo Presidente da República, José Maria Neves, antigo primeiro-ministro e ex-presidente do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV, oposição desde 2016).

 

Num cenário de crise económica, a criação de emprego em Cabo Verde em 2022, somando com a previsão para 2021, ainda não será suficiente para compensar a perda de praticamente 20 mil postos de trabalho em 2020 devido à covid-19. Para 2021, o Governo estimava a criação de 6.021 postos de trabalho líquidos, pelo que em dois anos serão criados, cumprindo-se as previsões, 15.770 empregos.

 

Só em 2020, devido às consequências económicas da pandemia de covid-19, nomeadamente a total ausência de turismo desde março, Cabo Verde perdeu 19.718 empregos líquidos.

 

Cabo Verde fechou assim com uma taxa de desemprego de 14,5% em 2020 -- 11,3% em 2019 -, contra a expectativa governamental de quase 20%, um resultado menos negativo explicado com os sucessivos períodos de 'lay-off', sobretudo abrangendo as empresas ligadas ao turismo, em que o trabalhador recebe 70% do salário, suportado em parte pela segurança social cabo-verdiana, medida que já não se prolonga para 2022.

 

O Governo estima chegar ao final de 2021 com uma taxa de desemprego idêntica, de 14,5%, que deverá baixar para 14,2% em 2022.

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