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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Os governos e os reguladores lançaram ofensivas para reduzir o tamanho e a influência das grandes tecnológicas. Mas as big tech, que engordaram ainda mais durante a crise pandémica, poderão ser alvos difíceis de cercar.

As grandes tecnológicas nunca foram tão poderosas, fortes e valiosas.

 

Mas, ao mesmo tempo que aumentam a influência que têm no nosso dia a dia e pulverizam recordes em bolsa, enfrentam ameaças à estratégia que lhes permitiu crescer a um ritmo quase sem paralelo na História. O cerco começa a apertar-se. Nos EUA, a Google e o Facebook foram processados por reguladores e pela Justiça devido a alegações de práticas anticoncorrenciais e monopolistas, e correm o risco de serem desmantelados através da separação forçada de diferentes unidades de negócio. As autoridades norte-americanas estão ainda a passar a pente fino a forma como a Apple, a Amazon e a Microsoft conseguiram crescer nos últimos anos, para perceber se o fizeram sem violar as leis da concorrência. Na Europa, Bruxelas apresentou, no final de 2020, um novo pacote de medidas para conseguir regular as big tech e tornar o mercado mais concorrencial. Será o princípio do fim da era dourada das grandes tecnológicas

 

“É realista pensar que as empresas big tech serão mais pequenas por causa destes processos [nos EUA]”, acredita Paul Gallant. O diretor do Washington Research Group, que já desempenhou funções no regulador norte-americano das telecomunicações, diz à VISÃO que “estas empresas têm bastante poder, o que significa que têm também alguns inimigos que estão a pressionar o Governo para as desmantelar”.

 

Em Washington, restringir o poder das grandes tecnológicas é um dos poucos objetivos que aparentam unir republicanos e democratas, se bem que com diferenças nos meios a utilizar para atingir esse fim. Ainda assim, durante a administração Trump, os reguladores começaram a morder os calcanhares dos gigantes tecnológicos. E espera-se que esse escrutínio possa intensificar-se na era Biden.

 

O Presidente referiu, em algumas entrevistas, que será necessária mais regulação no setor, e costuma apontar baterias à concentração de poder do Facebook e à forma como a empresa de Mark Zuckerberg permite anúncios e a propagação de informação falsa. Além disso, em outubro, os democratas divulgaram no Congresso um relatório de 449 páginas a indicar que Apple, Amazon, Facebook e Google têm poderes monopolistas e que devem ser reguladas. Apesar de os republicanos também quererem regras mais duras para as big tech, criticaram o documento por considerarem que é uma forma velada de obrigar a desmantelar essas empresas, algo que não apoiam. Esta diferença de posições mostra a dificuldade que poderá existir na aprovação de regras mais duras para estas empresas.

 

Na Europa, também se tenta restringir a sua atuação. A Comissão Europeia apresentou, em meados de dezembro, um pacote legislativo com regras mais duras para as grandes tecnológicas. O objetivo é garantir uma maior capacidade de supervisão, com poderes para aceder aos dados essenciais destas plataformas, impedir que continuem a levantar barreiras à entrada de novos concorrentes e travar a informação falsa e a venda de produtos contrafeitos. “É uma proposta muito importante e pode tornar os serviços destas empresas mais seguros e penalizar empresas norte-americanas como a Google e a Apple”, refere Paul Gallant. Mas o analista tem dúvidas de que a Comissão Europeia consiga ter uma atuação efetiva nesse sentido, já que, considera, “não fez um bom trabalho a fazer cumprir o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados e demorou muitos anos a investigar as violações de concorrência da Google, sem que nada de significativo acontecesse”.

 

O pacote legislativo para os serviços e mercados digitais ainda terá de obter a luz verde dos eurodeputados e do Conselho Europeu. A sua aprovação e implementação estarão entre as prioridades da presidência portuguesa da União Europeia, no primeiro semestre de 2021.

 

O encurtar de rédeas aos gigantes deste setor não é um exclusivo dos EUA ou da Europa. Tal como os seus pares norte-americanos, as grandes tecnológicas chinesas aumentaram a influência e o seu tamanho nos últimos anos. Mas o regime de Pequim dá sinais de nervosismo sobre o poder que ganharam e, em novembro, impôs regras duras para impedir a formação de monopólios e barreiras à atuação de concorrentes mais pequenos. Essas medidas apanharam a Alibaba de surpresa e fizeram cair por terra a entrada em bolsa da Ant Financial, a fintech do grupo. A operação estava avaliada em 37 mil milhões de dólares e seria a maior oferta pública de venda do mundo. Mas, à última hora, os reguladores chineses travaram a operação por considerarem que as novas regras para o setor comprometiam o modelo de negócio da empresa. No final do ano, Pequim intensificou a pressão e abriu uma investigação às alegadas práticas monopolistas da empresa de Jack Ma.

 

O poder de fogo das big tech, apesar de estarem no radar das autoridades, nunca foi tão grande, especialmente no caso dos titãs norte-americanos. Paul Gallant realça que “têm grandes recursos para se defender – dinheiro para batalhas em tribunal e muitos lobistas em Washington e Bruxelas”. E o facto é que continuam em ascensão. Em 2020, as cinco big tech norte-americanas engordaram 2,5 biliões de dólares em bolsa (valor semelhante à economia do Reino Unido) e foram um dos setores que mais ganharam durante a pandemia. Valem agora 7,45 biliões, quase o dobro do PIB da Alemanha. Representam 25% do índice que reúne as 500 maiores empresas dos EUA e têm uma importância sistémica, não só no nosso dia a dia mas também para os mercados financeiros. Tudo indica que, em 2021, o cerco das autoridades continuará a apertar-se. Mas os números mostram que estes gigantes podem ter-se tornado demasiado grandes para serem derrotados.

 

Gigantes (também) na bolsa

Apple
A fabricante do iPhone tem pulverizado recordes e é a empresa mais valiosa do mundo. A capitalização bolsista é superior a 2,2 biliões (milhões de milhões) de dólares, um valor superior ao PIB de Itália. Só em 2020, a Apple engorda quase 950 mil milhões de dólares e, desde final de 2012, quase sextuplicou de valor.

 

Microsoft
A empresa já foi alvo, em 1998, de um grande processo judicial nos EUA. Na primeira instância, houve uma decisão de separar a empresa em duas, mas um recurso bem-sucedido conseguiu evitar esse desfecho. Isso não impediu que a empresa continuasse a crescer: vale quase 1,7 biliões de dólares em bolsa, ganhando 478 mil milhões entre o início do ano e 24 de dezembro.

 

Amazon
O gigante do comércio eletrónico também prosperou em 2020. O seu valor de mercado aumentou em 680 mil milhões de dólares, para quase 1,6 biliões de dólares. A empresa liderada por Jeff Bezos vale 13 vezes mais do que em 2012, o que faz do seu fundador a pessoa com a maior fortuna do planeta.
Google

A Alphabet, dona da Google, tem sido alvo de sucessivos processos das autoridades norte-americanas, nos últimos meses, por alegadas práticas anticoncorrenciais. Na Europa, já foi alvo de pesadas multas pelos mesmos motivos. Mas nada que preocupe muito os seus investidores. Quase a fechar 2020, o valor de mercado da empresa aumentava 240 mil milhões de dólares em relação ao início do ano. Vale 1,18 biliões de dólares, 50 vezes mais do que o preço com que entrou em bolsa, em 2004.

 

Facebook
A empresa enfrenta um processo colocado, há algumas semanas, pela Comissão Federal do Comércio dos EUA, a exigir o seu desmantelamento, através da venda do Instagram e do WhatsApp. A alegação é a de que o Facebook apenas comprou essas empresas para eliminar a concorrência e manter o seu monopólio. A rede social tem sido também alvo de duras críticas por parte de Joe Biden. Mas, ainda assim, valoriza 175 mil milhões de dólares em 2020. A capitalização bolsista é de 761 mil milhões de dólares, 11 vezes mais do que o preço com que entrou em bolsa, em 2012.

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