NewDetail

AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

"O País oferece muita estabilidade, mesmo quando confrontado com outras economias europeias", explica a advogada Mariana Norton dos Reis, justificando assim o bom momento que vive o setor das fusões e aquisições.

Os números do ano passado podem não ser batidos, mas segundo Mariana Norton dos Reis, sócia da Cuatrecasas, o setor de fusões e aquisições ou M&A (do inglês ‘mergers and acquisitions’)  tem estado em altano segundo semestre de 2019. A advogada e o seu sócio Francisco Santos Costa, que na próxima semana serão moderadores da conferência anual do escritório sobre esta temática, explicam ao Negócios que muito deste sucesso resulta da estabilidade política e social do País. Segundo dizem, atualmente "os invesidores institucionais veem Portugal com bons olhos".

 

No ano passado foi batido em Portugal o recorde de operações de M&A, com valores na ordem dos 27,4 mil milhões de euros. Qual tem sido o comportamento do setor em 2019?

 

Mariana Norton dos Reis (MNR) - O ano passado foi emblemático para o setor de M&A e para os serviços jurídicos em geral, mas no final de 2018 já havia um certo clima de ansiedade sobre 2019. E, na realidade, o primeiro semestre deste ano caracterizou-se por alguma incerteza, o que se refletiu nas operações de M&A. 

 

O que levou a essa incerteza?

 

MNR -Sobretudo a conjuntura internacional, mas porque estávamos num período pré-eleitoral. Curiosamente, esse abrandamento que sentimos nos primeiros seis meses, no segundo semestre de 2019 inverteu-se.

 

De que forma está essa nova realidade espelhada no trabalho jurídico que a Cuatrecasas tem em ‘pipeline’?

 

MNR -Neste momento, o nosso pipeline, tanto com operações em curso como operações fechadas, é muitíssimo melhor face  ao que tínhamos há um ano. Logicamente que continuamos a estar num ambiente de alguma incerteza económica, especialmente a nível europeu, mas é verdade que sentimos que foi reforçada a confiança no mercado português. Temos uma particular estabilidade política e social e isso, sem dúvida, tem atraído muito investimento estrangeiro.


Quais são os setores económicos mais ativos?

 

Francisco Santos Costa (FSC) -Há dois critérios para avaliar o M&A, que são o volume e o valor. Em ambos, o imobiliário destaca-se.

MNR -As tecnologias e o setor financeiro também oferecem oportunidades, mas a ‘ponta de lança’ é a área do imobiliário como um todo. Embora, hoje em dia, haja sobretudo o imobiliário que chamamos mais turístico ou de ‘hospitality’, que tem muito que ver com residências de estudantes, com residências de terceira idade. Este é um setor com muita procura.

 

Tendo em conta algumas transações já anunciadas, existe a perceção de que o setor da energia também está muito ativo. É de facto assim?

 

FSC - É um setor onde Portugal tem contabilizado muitas operações de M&A, sobretudo devido ao foco colocado na transição energética. Há muita liquidez no mercado para alocar aos ativos nas renováveis, onde Portugal apostou desde muito cedo. Sobretudo nas energias eólica e hídrica e, mais recentemente, na solar.

 

Solar que tem em marcha um programa para a construção de centrais fotovoltaicas.

 

FSC -O primeiro leilão [para atribuir licenças] teve lugar em julho deste ano. Foi um sucesso a nível mundial no que diz respeito aos preços que se conseguiram e isso também catapultou muito investimento estrangeiro para Portugal. A esmagadora maioria dos ‘playeres’ que ganharam esses projetos são investidores estrangeiros. O setor da energia continuárá a possibilitar muitas operações de M&A.

 

Na área das renováveis?

 

FSC -Há projetos que já são públicos e a EDP tem vindo a implementar, ao longo dos últimos anos, um programa de desalavancagem do seu balanço, através da venda de ativos de energias renováveis que consideram não estratégicos quer em  Portugal quer em Espanha. Dentro desse ativos temos um portefólio de projetos eólicos e, mais recentemente, um conjunto de barragens. Em valor, talvez esta última seja a maior operação de M&A do ano.

 

MNR -Temos neste momento esta operação emblemática no setor hídrico e também uma transação que visa alienar uma participação por parte de um fundo investidor minoritário na Brisa. Chegamos ao fim do ano com duas operações emblemáticas.

 

O Brexit ou a desaceleração das maiores economias europeias podem prejudicar eventuais projetos?

 

MNR - É verdade que o contexto económico afeta sempre a atividade de M&A, mas também é verdade que o mercado português tem oferecido muita confiança. Os investidores institucionais veem Portugal com bons olhos. Aquela frase "Portugal está na moda" ainda é verdade e devemos aproveitar o momento. O País oferece muita estabilidade, mesmo quando confrontado com outras economias europeias.

 

Oportunidades nas fusões e aquisições

 

A Cuatrecasas e a Mergermarket organizam dia 30 de outubro, em Lisboa, a terceira edição da sua conferência anual sobre fusões e aquisições e ‘private equity’. O ‘M&A Outlook: Portugal Breakfast Briefing 2019’, que junta os ‘players’ do setor para discutir experiências, tendências e oportunidades de investimento, contará com a presença de Margarida Matos Rosa, presidente da Autoridade da Concorrência. O evento será dividido em dois painéis, um sobre fusões e aquisições, outro sobre ‘pivate equity’. O primeiro terá como moderador o sócio da Cuatrecasas Francisco Santos Costa, e contará com intervenções de representantes da Sonae Capital, Galp e Millennium Investment. O segundo será conduzido pela também sócia Mariana Norton dos Reis e contará com participações da Marsh, da Atena Equity Partners, da ECS Capital e da Sherpa Capital.

 

HÁ OPORTUNIDADES NO INVESTIMENTO DE DIMENSÃO MÉDIA

 

Num mercado pequeno como é o português, as oportunidades para o setor das fusões e aquisições não começam a escassear?

 

MNR -Não acho que existam poucas oportunidades. O ‘middle market’ português - empresas de dimensão média ou operações de investimento de dimensão média - esteve muito tempo fechado e neste momento ainda nem sequer é muito conhecido. Contudo, os operadores de ‘private equity’ [fundos e investidores que aplicam os seus capitais diretamente em empresas] começam a ter acesso a esse mercado, onde existem bastantes oportunidades.

Há interesse por parte desses investidores nos ativos  portugueses?

 

MNR - Durante um período de tempo [este tipo de investidor] esteve um bocadinho afastado, mas nos últimos anos, sobretudo a partir de 2018, vimos aparecer novos fundos de ‘private equity’ portugueses, ao mesmo tempo que os fundos internacionais mostraram o seu interesse pelo mercado português.

 

Qual é a situação neste momento?

 

Temos assistido a dois fenómenos muito interessantes. Por um lado, há os ‘private equity’ internacionais ou ibéricos que vêm procurar operações e que estão muito interessados sobretudo no setor industrial e no setor tecnológico, sem particular ao nível do chamado ‘meadle market’. Mas também há algo que não víamos há muito tempo, que são os grandes ‘private equity’ internacionais, sobretudo norte-americanos ou ingleses, que vêm a Portugal procurar grandes operações de investimento. 

 

Como é que se explica esse fenómeno? A escassez do financiamento tradicional, nomeadamente por parte dos bancos, pode ser uma explicação?

 

MNR - O ‘private equity ‘ oferece ao empresário não só financiamento, mas também lhe pode trazer ‘know-how’ e dar-lhe apoio no seu processo de internacionalização.

 

As empresas procuram mais do que só financiamento?

 

MNR - As empresas portuguesas que recebem apoio de ‘private equity’ procuram mais do que só financiamento. Procuram um parceiro estratégico, procuram conhecimentos específicos para o desenvolvimento do seu plano de negócio e procuram até apoio para chegar a outros mercados.

Partilhar