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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Volume de negócios consolidado é de 16,7 mil milhões de euros, mas sobe para mais de 21,3 milhões com o efeito de arrasto. Valor recorde de 2019 foi batido em 2022 e só não o será novamente em 2023 por efeito da paragem que a Autoeuropa teve de fazer em setembro.

Veículos da Volkswagen, modelo T-Roc, provenientes da fábrica da Autoeuropa, em Palmela, aguardam no Terminal de Carga Geral e de Granéis de Leixões (TCGL) do porto Leixões, pela chegada de um navio para serem exportados , Matosinhos, 17 de fevereiro de 2023. É ao ritmo de 115 carros recebidos por dia que o porto de Leixões aguarda a chegada de um navio que exporte os veículos vindos da Autoeuropa, em Palmela, escoados pelo Norte devido à crise dos semicondutores.

 

Oautomóvel é uma fileira "estratégica" para a economia portuguesa, com um impacto direto de 16,7 mil milhões de euros mas que sobe para mais de 21,3 mil milhões com o efeito de arrasto sobre outros setores. Assegura 11% do emprego, 19% do investimento e 15% do valor acrescentado bruto (VAB) da indústria transformadora nacional. Assegura ainda 23% das exportações de bens transacionáveis nacionais e 2,4% do produto interno bruto do país.

 

Os dados são do estudo 'Caracterização do Cluster da Indústria Automóvel em Portugal', realizado pela Deloitte para a associação da indústria automóvel Mobinov, e que hoje foi apresentado no 11º Encontro da Indústria Automóvel, uma iniciativa promovida pela AFIA (Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel) a decorrer em Vila Nova de Gaia. Números que representam uma atualização do trabalho realizado em 2020 e que pretendem avaliar o efeito da pandemia sobre a fileira.

 

"As conclusões confirmam a nossa perceção, não há aqui uma grande surpresa. A indústria passou, naturalmente, um período difícil com a pandemia, mas souberam encontrar o seu caminho e os números recorde que tínhamos em 2019 foram ultrapassados no final de 2022, o que comprova o que esperávamos. A economia e os fornecedores foram capazes de se readaptar e encontrar o seu caminho novamente", diz Jorge Rosa, presidente da Mobinov.

 

Para 2023, não fosse a paragem da Autoeuropa, em setembro, motivada pela falta de um componente, Portugal bateria um novo recorde relativamente à produção de veículos, no entanto, garante Jorge Rosa, o número final "será muito semelhante ao ano anterior", em que foram produzidas 322.404 unidades. Um número que coloca Portugal no 10º lugar do ranking europeu de construtores, com 2,5% de quota. 97% da produção é exportada.

 

Ao nível dos componentes, diz este responsável que "há uma ligeira tendência de crescimento". Refira-se que, dos 16,7 mil milhões de euros de faturação consolidada da fileira, a indústria de componentes é responsável por 66% deste valor, com especial destaque para os setores elétrico e eletrónica e metalurgia e metalomecânica com quotas de 22% e 21%, respetivamente. Os construtores automóveis - Portugal tem cinco, sendo que a VW Autoeuropa é responsável por 72% dos veículos produzidos e a Stellantis (ex-PSA) assegura 24% - contribuem com 29% do volume de negócios consolidado. Globalmente, assegura o presidente da Mobinov, os números "mantêm-se positivos".

 

Com mais de 1100 empresas, esta é uma fileira que conta com mais de 84 mil empregados, número que sobe para mais de 170 mil tendo em conta o emprego indireto que gera. O valor acrescentado bruto do setor foi, em 2022, de 3.870 milhões de euros, mas sobe para 5.720 milhões quando analisado o seu efeito de arrasto na restante economia. São os tais 2,4% da riqueza nacional.

 

Com uma remuneração total por trabalhador da ordem dos 21 mil euros, 15% acima da média da indústria transformadora e 7% acima da média nacional, a fileira tem vindo a registar um crescimento médio anual das remunerações de 3,6% entre 2019 e 2022. Tem uma produtividade aparente (medida pelo VAB por trabalhador) de 45.770 euros, e que é 26% acima da média nacional e 19% acima da média da indústria transformadora.

 

Mas não faltam desafios pela frente e Jorge Rosa aponta alguns exemplos como os veículos autónomos, o mobility as a service, a conetividade, a indústria 4.0, a economia circular ou a descarbonização. "A próxima década ditará uma alteração muito profunda em toda a nossa atividade. Mas, como em tudo, a mudança tem riscos e oportunidades e é preciso sabermo-nos preparar para elas", afirma, sublinhando que este trabalho "está a ser feito, com a injeção de dinheiro na economia", seja por via do PT2020, do PRR ou do novo quadro comunitário de apoio. "Tem havido muita atenção do governo relativamente a este setor", reconhece.

 

Sendo este um setor composto, na sua grande maioria, por pequenas e médias empresas que dependem, em última instância, das OEM, os fabricantes de automóveis, e dos fornecedores de primeira linha dos mesmos, os chamados Tier1, o grande desafio é perceber até que ponto Portugal está a ser capaz de penetrar nas cadeias de abastecimento das OEM. Para a Mobinov, aqui há um "trabalho muito grande" a fazer ao nível da diplomacia económica e o governo, embora tenha feito "alguns esforços, não chega, é preciso fazer mais".

 

"A aproximação aos fabricantes é fundamental e cada vez mais importante para nós", sublinha Jorge Rosa, lembrando que é verdade que não há em Portugal muitas OEM, mas que "estamos colados a Espanha, o segundo maior produtor europeu de automóveis, que produz seis milhões de veículos ao ano". Para este responsável é preciso saber aproveitar esta proximidade territorial.

 

"O ideal seria atrairmos mais OEM para Portugal, o que não nos parece uma tarefa fácil. Mas não podemos ver isso de forma tão negativa. Eu gostaria de colocar a tónica no facto de estarmos inseridos na Península Ibérica, junto do segundo maior produtor europeu de automóveis", sustenta. Pede ainda maior intervenção da diplomacia económica para que Portugal seja capaz de entrar nas cadeias de abastecimento das grandes marcas automóveis internacionais.

 

Em Dinheiro Vivo

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