NewDetail

AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

O país deve continuar a acreditar na sua produção tecnológica, apostando em inovação, tal como fez para responder à crise anterior.

A 10 de maio de 1994, a RTP emitiu uma reportagem dedicada ao estudo de Michael Porter sobre a competitividade da economia portuguesa. Estávamos, nessa altura, segundo o INE, com um crescimento do PIB de 1,49%, ligeiramente abaixo dos 2,2% registados em 2019, e uma taxa de desemprego acima dos 6%, sensivelmente o mesmo registado em fevereiro deste ano, antes do estado de emergência.

 

Os clusters de aposta sugeridos por Porter em 94, como calçado ou vinho, não previam que, 26 anos depois, o país fosse referenciado como um viveiro de talentos para as tecnologias e desenvolvimento de software. Com efeito, nos últimos anos, várias multinacionais instalaram pólos tecnológicos no nosso país e vários pólos deste género foram criados em zonas do interior, permitindo o seu desenvolvimento.

 

Mas será que a tecnologia portuguesa é de facto diferenciadora e este aparente mediatismo, potenciado por eventos como a Web Summit, tem reflexos práticos na competitividade nacional, preparando-nos para crises económicas e financeiras?

Exemplos como a Mercedes-Benz, Google ou Amazon, a analisar pelos projetos divulgados, procuram Portugal essencialmente pelo capital humano. Provavelmente pelo balanço ideal entre custo e qualidade dos serviços.  O relatório “State of European Tech”, publicado pela Atomico em 2019, reporta que nos últimos cinco anos, Portugal registou um total de 720 milhões de dólares de investimento em tecnologia, posicionando-se no 19º lugar de países europeus, à frente da Estónia, mas sendo ultrapassado por países como Espanha, Irlanda, Polónia ou Roménia.

 

Numa perspetiva mais detalhada, verificamos que, apenas em 2018, Portugal registou um investimento de 418 milhões de dólares, mais 394 milhões que no ano anterior e mais 277 que em 2019, verificando-se neste ano um decréscimo de 66% em relação a 2018.

 

No campo das comunidades, segundo o mesmo relatório, Lisboa situa-se no lugar 17 ao nível de meet-ups relacionados com tecnologias, posicionando-se atrás de cidades como Budapest, Dublin, Barcelona ou Istambul.

 

No entanto, num outro indicador do estudo, Portugal verificou em 2019 um aumento muito significativo em ofertas de emprego para engenheiros de software, uma percentagem apenas ultrapassada pela Áustria, o que denota, aparentemente, uma maior aceleração na procura do mercado em comparação com o ritmo de formação e produção de talentos em Portugal.

 

Que pistas temos então para o caminho a seguir? Voltando ao “State of European Tech” e ao atípico ano de 2018, em que o investimento em tecnologia aumentou 394 milhões de dólares, colocando-nos no top 20 da Europa, podemos confirmar que uma grande fatia desse valor, 360 milhões, dizem respeito apenas a uma empresa: a OutSystems.

 

A tecnológica portuguesa desenvolveu uma plataforma de low-code para desenvolvimento de software, melhorando o “time-to-market”, a agilidade e inovação às empresa em matéria de software. Esta tecnologia permitiu já a criação de uma comunidade de 250.000 membros em 60 países, na qual Portugal é líder absoluto, tanto em adoção tecnológica nas empresas portuguesas como em produção de talento.

 

Muitas das referências portuguesas desta tecnologia, nas áreas da banca, seguros e telecomunicações, iniciaram a sua adoção e utilização em plena crise financeira, no período de 2009 a 2015, tirando partido daquilo que hoje, consultoras como a Mckinsey, apontam como principal resposta a uma futura crise: a agilidade, “time-to-market” e a inovação.

 

O cluster tecnológico português tem, sem dúvida, muito potencial, bastando para isso que as empresas apostem em tecnologias nacionais, desde que estas sejam competitivas e de qualidade, e as políticas públicas desempenhem uma ação promotora ao nível da educação, estruturas e apoios para o desenvolvimento.

 

Na sequência do estudo de Michael Porter em 1994, alguns clusters de sucesso foram criados, mas a estratégia terá de se adaptar à evolução dos mercados. A Outsystems, tal como uma banda de garagem que se transformou em fenómeno, hoje é líder mundial reconhecida pela Gartner, e torna-se o exemplo para outros seguirem.

 

O país, esperamos nós, deve continuar a acreditar na sua produção tecnológica, apostando em inovação, tal como fez para responder à crise anterior.

Partilhar