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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Em 2020, o setor agroalimentar "não cresceu em relação a 2019, mas não perdeu o patamar em que se encontrava", fruto da "resiliência" das empresas, o que permitiu manter as exportações "na casa dos 6,3 mil milhões de euros".

Eis o diagnóstico do presidente do Portuguese Agrofood Cluster, que organizou a primeira edição da "Digital Agrifood Summit Portugal". Em tempos de pandemia e com o "Brexit" a dificultar as relações comerciais com o Reino Unido, Amândio Santos não tem dúvidas: "Cada vez mais identificamos a cooperação como uma chave fundamental para ultrapassar tantas dificuldades. Mais do que nunca, a cooperação é fundamental".



Vida Económica - O "Digital Agri- food Summit Portugal" foi um evento pioneiro e com uma duração alargada - três dias. Que balanço é possível fazer?


Amândio Santos - Este foi, de facto, um enorme desafio que as entidades que constituem o Portuguese AgroFood Clus- ter abraçaram [consórcio constituído pela Portugal Foods, InovCluster, AgroCluster e PortugalFresh, reconhecido publicamente pelo Governo a 23 de fevereiro de 2017 e a cujo Conselho Estratégico preside a FIPA - Federação das Indústrias Portuguesas Agro-Alimentares]. E o Portuguese AgroFood Cluster conseguiu também mobilizar a ViniPortugal e a [marca] Wines of Portugal.

VE - Essa foi uma novidade, porque a ViniPortugal não integra o Portuguese AgroFood Cluster.


AS - Sim, foi muito importante, porque Portugal nunca comunicou, num só momento, todo o setor. A transversalidade de todo o setor agrícola, com as frutas, os legumes e as flores, através da Portugal Fresh, o vinho, o azeite, produtos claramente da terra, com os produtos transformados. Foi a primeira vez que conseguimos mobilizar todo o setor, com 74 empresas, num evento digital. É a demonstração de que o setor quer investir na transformação digital. Sabemos que o futuro obriga a que as empresas estejam preparadas para este nível de contacto com os mercados, porque as viagens e a presença física vão ser cada vez mais seletivas. Com Covid ou sem Covid, todos estamos a aprender uma nova forma de estar nos negócios. E esta cimeira veio permitir este processo de aprendizagem. A primeira grande prova do sucesso deste evento foi a oportunidade que todos tivemos de ver o que é estar num ambiente digital, virtual, em que os compradores aparecem e temos de os ir buscar. Temos de estar muito atentos a esta dinâmica digital. Nas feiras físicas, o comprador ou entra no nosso stand ou espaço ou nós não o chegamos a conhecer. Muitos compradores passam e nem falamos, apenas levam o contacto. Neste evento digital, temos de ter a capacidade de captar a atenção do comprador.

VE - Até porque os compradores tinham de se inscrever para poderem participar no evento.


AS - Sim, tinham de se inscrever, agendavam reuniões, mas, muitas vezes, as empresas poderiam encontrar um comprador, apresentar-se e procurá-lo. Há essa dinâmica, de conseguir saber, no momento, quem é que está presente e à procura de quê. Muitos compradores aparecem e dizem 'procuro pera rocha' ou 'procuro conservas'. E a empresa que não estiver ativa nas plataformas de 'ne- tworking' perde uma oportunidade. Por isso é que muitas empresas conseguiram ter muito mais atratividade do que outras. Agora, eu diria que, pela recetivida- de das empresas, o objetivo foi atingido. Não digo isto por ser uma pessoa otimista por natureza. Digo, dos 'inputs' que recebemos das empresas, que nos pedem que isto não pare. A mensagem que fica é que este é um bom início. Tem de se iniciar por algum lado. Estamos conscientes de que há muita coisa a melhorar, mas o balanço é extraordinariamente positivo.

VE - Quantos compradores foi possível reunir e de quantos países?


AS - Nós tínhamos uma previsão de trazer largas centenas de compradores de 30 países. Tivemos presentes compradores de 64 países e centenas de visitantes. Mas compradores, que permitiram negócio às empresas e que estas identificam como profissionais do setor, tivemos 320, que estão registados e ficam numa base de dados do setor. E esta é uma novidade importante: este evento permite-nos criar uma base de dados global. Enquanto que, numa feira tradicional, cada empresa fica com os seus contactos, neste evento, nós, organização, passamos a ter a ligação com os compradores. Imagine um segundo evento ou imagine um evento de outra natureza, como missões inversas ou um 'showroom' digital ou presenças em feiras no destino dos compradores, nós, organização, começamos a identificar este 'networking'. É um património muito importante. Amanhã, se uma empresa de um setor nos pedir ajuda para um determinado mercado, nós fortalecemos a nossa rede de relações no exterior. Ficamos muito satisfeitos, porque foi evidente o trabalho feito por nós, membros do
PAC [Portuguese AgroFood Cluster], pela consultora que trabalhou connosco, mas, acima de tudo, pela rede externa da AlCEP, que teve um papel muito, muito importante, porque conseguiu mobilizar de uma forma muito interessante a fileira externa. Tivemos pena pela China, porque não conseguimos que a nossa plataforma fosse acessível na China. E tínhamos muita expectativa. O delegado da AICEP na China, o doutor João Falardo, teve um trabalho importantíssimo.

VE - Porque é que não foi possível chegar à China?


AS - Por razões técnicas, de suporte. A China tem todo um conjunto de imposições, há plataformas que lá não funcionam, como o Facebook ou o WhatsApp, por exemplo. E não foi possível, pelos constrangimentos que eles registaram, que a nossa plataforma fosse de acesso livre na China. E toda a rede de compradores que estava estruturada vamos ter de a passar para uma ação específica, no final do mês de fevereiro.

VE - Traçou, até ao momento, "um balanço extraordinariamente positivo". Mas uma coisa foi o 'networking' durante aqueles três dias e outra é como é que isso se vai traduzir em negócios. Tem uma expectativa igualmente positiva?


AS - Essa é sempre a pergunta muito importante quando investimos num evento de promoção, seja uma feira física, no exterior, seja, neste caso, uma feira virtual. A informação que fomos tendo é que houve negócios fechados durante a feira. Sabemos, por exemplo, que a [cadeia de supermercados norte-americana] Walmart fechou uma importante operação de pera rocha. Aquilo em que acreditamos é que as empresas têm de saber fazer cada vez melhor o traba- o de preparação para as feiras antes e após o evento. Não temos forma de medir, neste momento, o que é vai resultar em negócio. Por isso é que lhe dizia que há dois grandes objetivos com este evento. Primeiro: somos ou não capazes de mobilizar todo o setor agroalimentar? Somos capazes. Segundo: somos ou não capazes de trazer compradores profissionais a um evento digital organizado por um país? Fomos capazes. E tivemos 250 reuniões bilaterais, das 300 que estavam agendadas, com os compradores direcionados aos produtos que tínhamos expostos. Tivemos presentes 64 países. Agora, o importante é que as empresas nos apresentem no futuro próximo as oportunidades que se concretizaram em negócio. E acreditamos que elas vão aparecer. Há empresas que vão seguramente desenvolver esta rede de contactos que tiveram.

VE - Estamos no meio de uma pandemia, diagnosticada em março do ano passado, com fortes implicações para todos os setores de atividade. Que balanço faz das vendas e exportações durante 2020?


AS - O ano foi desafiante e ao mesmo tempo assustador, quando olhamos para aquele período de março/abril, em que parece que a nossa atividade implodiu, com confinamentos em toda a Europa e dificuldades em exportar para o mundo. Naquele momento, toda a economia e as empresas ficaram assustadas e a perguntar 'como é que vamos dar a volta a isto?'. As nossas empresas vivem muito da dinâmica do mercado interno.

VE - Sim, sobretudo as mais pequenas.


AS - Exatamente. E a quebra no consumo foi o primeiro impacto para as empresas, nomeadamente para as que estavam muito vocacionadas para o canal horeca, que ficaram privadas dos seus mercados. E isto teve consequências importantes. Os dois primeiros meses, março e abril, até maio, foram muito duros. Depois, no verão, recuperou, no final do ano continuou a recuperar e chegámos ao final do ano com um volume que estará em linha com 2019. O que podemos dizer é que o setor não cresceu em relação a 2019, mas não perdeu o patamar em que se encontrava. A resiliência do setor, no final do ano, é muito interessante, porque mantivemos as exportações na casa dos 6,3 mil milhões de euros. Somos um setor que não sofreu um impacto tão profundo como outros, mas estamos a viver momentos muito exigentes.

VE - Quais foram os mercados com mais quebras? É que, associadas à pandemia, há ainda as questões associadas ao "Brexit". Que constrangimentos houve com as vendas para o Reino Unido?


AS - Vimos alguns movimentos interessantes. Vimos os Estados Unidos e o Canadá a crescerem; vimos o Brasil, que, apesar de extremamente pressionado, seja com a pandemia, seja com as questões do real, manteve um comportamento muito interessante; vimos Angola a descambar de forma assustadora; muita pressão dos nossos parceiros europeus...

VE - O descambar de Angola é devido à pandemia ou tem outras causas?


AS - Angola é devido claramente às dificuldades que o país atravessa e que foram aceleradas pela pandemia. Apesar de não ser dos países com as estatísticas mais negativas quanto à Covid, Angola e o confinamento de Angola e o 'food ser- vice' em Angola, parou tudo. A distribuição moderna está toda parada em Angola. Hoje em dia o mercado de Angola está fortemente alavancado no informal. Angola é um destino para algumas empresas. E temos empresas que têm como único destino exportador Angola.

VE - Angola marcou pela negativa. E pela positiva?


AS - Eu diria Canadá e Estados Unidos. E o Brasil. São interessantes pela positiva. E depois temos os nossos parceiros tradicionais: Itália, França, Alemanha, que foram extremamente pressionados e sofrem todos. O Reino Unido tem essa agravante do " Brexit", mas que não foi o que pressionou em 2020. Foi, claramente, a pandemia. Em 2021, sim, o "Brexit" está a colocar uma série de desafios às empresas, porque há toda uma complexidade logística e burocrática que torna tudo mais difícil.

VE - Receia que possa haver quebras nas exportações para o Reino Unido em 2021?


AS - Creio que vai ser um mercado muito pressionado, que vai criar dificuldades e muita exigência, mas acreditamos que, com a normalização de todos os processos, sejam logísticos, sejam administrativos, o agroalimentar vai ter uma posição interessante no Reino Unido. Mas o primeiro trimestre vai ser muito exigente e complexo.

VE - A tomada de posse do novo presidente americano Joe Biden pode abrir uma nova janela nas relações comerciais com os Estados Unidos?


AS - Os Estados Unidos são uma economia que Portugal tem de ver sempre como uma enorme oportunidade. E que exige uma estratégia muito bem definida e direcionada. A eleição do presidente Biden, trazendo estabilidade, reforça este cenário positivo e normal de relações. Vemos os Estados Unidos como um mercado de fortíssima aposta.

VE - A pandemia gerou em algum momento problemas logísticos ou de funcionamento das alfândegas que tivessem dificultado as exportações?


AS - Há problemas. Por exemplo, toda a disponibilidade de contentores marítimos. E o preço dos transportes marítimos tem sido penalizado, fruto da pandemia. O fluxo de flutuação de contentores é muito mais lento, as próprias companhias vão flexionando as rotas de maneira muito mais eficiente. Dou-lhe um exemplo: o stress que existe nos portos na China provoca falta de contentores a nível internacional. Hoje, desalfandegar um contentor na China, fruto das proteções Covid que eles aplicam, é muito mais moroso. Pode estar na alfândega 15 dias para inspeção, desinfeção e afins. Isto provoca muita pressão sobre o fluxo internacional de contentores, o que leva logo a aumentos dos preços e a uma escassez da oferta. E, depois, há as operações logísticas. Hoje, o transporte para qualquer país tem constrangimentos e prazos muito mais dilatados. A cadeia logística está sob pressão.

VE - E isso traz agravamento dos custos para as empresas?


AS - Agravamento nos custos, na normalidade dos circuitos, na normalidade da disponibilidade dos transportes, é preciso planificar com muito mais segurança e antecedência, etc, etc. Há uma pressão sobre toda a cadeia de 'supply chain'.

VE - Temos todos estes constrangimentos e a pandemia ainda está sem fim à vista. Como espera que corra o ano 2021 para o setor agroalimentar?


AS - Sem dúvida que ainda temos pela frente meses muito exigentes, muitos meses, até termos a normalidade e a confiança de que tudo está tranquilo e seguro. O ano vai ser muito desafiante, muito exigente, vamos ter de trabalhar muito mais para conseguir atingir os ob- jetivos. O arranque do ano está difícil, muito complexo. Esperamos que os fluxos turísticos se possam reatar com alguma confiança, nomeadamente através do processo de vacinação, mas vamos ter um ano muito complicado. Acho que 2021 vai ser muito, muito exigente. Vemos muitas dificuldades. Vamos ter de continuar a ser muito criativos.

VE - Que conselhos deixa às empresas para enfrentarem estes desafios?


AS - Cada vez mais identificamos a cooperação como uma chave fundamental para ultrapassar tantas dificuldades. É indiscutível que os mercados são mais exigentes e nós temos de demonstrar capacidade produtiva e confiança aos mercados de que Portugal é capaz de produzir e é capaz de cumprir. E as empresas têm de se unir cada vez mais, serem capazes de trabalhar em rede e abordar os mercados com massa crítica. Mais do que nunca, a cooperação é fundamental. Mais do que nunca, este é o ano da cooperação.

"Digital Agrifood Summit Portugal" juntou centenas de compradores internacionais


A 1 .a edição da " Digital Agrifood Summit Portugal", que decorreu entre 20 e 23 de janeiro, juntou 'online' centenas de compradores internacionais de 61 países, que realizaram reuniões de negócios com as 74 empresas portuguesas que participaram nesta cimeira internacional "pioneira" do agroalimentar.


Organizada pelo Portuguese Agro- food Cluster - um consórcio composto pela PortugalFoods, pela Inovcluster, pela Agrocluster do Ribatejo e pela Portugal Fresh e a ViniPortugal - e pela Wines of Portugal, esta parceria promocional conjunta serviu para mostrar "o grande interesse que os produtos agroalimentares e os vinhos portugueses suscitam a nível internacional".


Vinhos, carne e peixe, queijos e charcutaria, azeites e azeitonas, frutas e legumes, pastelaria fina, cervejas, congelados, temperos, molhos, conservas e um vasto conjunto de produtos de qualidade encontraram neste evento a sua melhor montra digital.
A organização da feira faz um balanço "muito positivo" da iniciativa. "Acima das expetativas", até, revelando que este formato será para continuar no futuro, mesmo pós-pandemia, sendo "a prova de que as empresas agroalimentares nacionais estão preparadas para o desígnio da digitalização". O modelo 'online' assume-se, aliás, como "ferramenta vital para a promoção externa, proporcionando o contacto direto com potenciais clientes, de forma ágil e dinâmica".


Cerca de 300 empresas estrangeiras visitaram, ao longo dos quatro dias, a primeira edição da "Digital Agrifood Summit Portugal", que, em tempos de pandemia, serviu de montra ao setor agroalimentar português.

Estes compradores internacionais foram provenientes de 61 países, com destaque para Espanha (72), México (34), Canadá (29), Alemanha (28), Estados Unidos (27), Reino Unido (26) e Japão (25). Durante os quatro dias, a plataforma 'online' registou quase 700 registos, dos quais cerca de dois terços pertencentes a visitantes internacionais.


Os expositores foram ativamente contactados pelos visitantes para agendamentos de reuniões de trabalho, sendo que algumas empresas registaram "uma ocupação quase total da agenda durante os quatro dias da feira", revela a organização.

Por outro lado, o trabalho de angariação de compradores internacionais, feito em conjunto pelos canais diplomáticos nacionais e por uma empresa de consultoria internacional, "foi muito apreciado, havendo uma clara sintonia entre a procura e a oferta. Não podíamos estar mais satisfeitos com os resultados", afirma, por sua vez, Amândio Santos.


O responsável do Portuguese Agrofood Cluster é taxativo: "Se é certo que a presença física nos mercados internacionais é crucial para um setor que necessita de ser degustado, a verdade é que este evento demonstrou a capacidade do digital para identificar potenciais clientes, de forma muito ágil e prática. Fator que, associado aos menores custos de participação e de logística, à ausência de deslocações e à flexibilidade de horários, tornam estas feiras virtuais em importantes instrumentos de promoção externa".


A plataforma vai continuar 'online' até 20 de fevereiro para os utilizadores registados no evento. Pode ser utilizada para agendamento de reuniões de follow-up e visita aos stands virtuais, tendo os compradores acesso à informação das empresas e dos seus produtos.

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