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Segundo o Financial Times, os produtores de frango do Reino Unido afirmam que as restrições à imigração pós-Brexit são responsáveis pela falta de mão-de-obra que os forçou a reduzir a oferta, fazendo com que cadeias de restaurantes como KFC e Nando's retirassem certos produtos dos seus menus e, inclusive, fechassem algumas das suas lojas.

Um dos maiores produtores de frango do Reino Unido, o 2 Sisters Food Group, indicou recentemente que estava a sofrer com a “falta crónica de pessoal para processar aves”, deixando clientes como a cadeia Nando's com falta de matéria-prima. A força de trabalho foi afetada pelo coronavírus, contudo, as restrições à imigração pós-Brexit tiveram um efeito mais severo, de acordo com o produtor.

 

Ainda em agosto, o British Poultry Council alertou o Governo, através de uma carta à Ministra do Interior Priti Patel, que a falta de pessoal havia forçado os produtores de frango a reduzir a oferta semanal em quase 10%. A associação estima que o fornecimento de perus para este Natal possa ser reduzido em cerca de um quinto.

 

“Estamos a enfrentar uma séria escassez de operativos de produção e pessoal de processamento que são classificados como trabalhadores de baixa qualificação nos termos do Home Office, mas desempenham um papel extremamente importante em manter o fornecimento de alimentos em movimento e alimentar a nação”, pode-se ler na carta enviada ao executivo. A mesma adverte também para “um risco real de escassez irrecuperável de alimentos e inflação nos preços dos alimentos no futuro”.

 

A associação pediu alterações relativamente às regras quanto à imigração, nomeadamente para tornar os avicultores elegíveis para vistos de “trabalhadores qualificados” e incluí-los num esquema de trabalho sazonal, atualmente voltado principalmente para a horticultura.

 

O alerta sobre o abastecimento de alimentos ocorre num momento em que o Reino Unido sofre com a escassez de operadores de transporte de mercadorias, o que levou a interrupções no processamento e distribuição de uma variedade de produtos, incluindo leite e embalagens. As taxas de infeção da Covid-19 e a necessidade de isolamento/quarentena exponenciam a gravidade da situação.

 

A grande procura por frango, combinada com a dependência de trabalhadores do Leste Europeu, tornou a indústria aviária particularmente vulnerável. Cerca de 60% dos 40.000 trabalhadores do setor são originários da UE, deixando o mesmo exposto às alterações das regras relativas à imigração pós-Brexit. O novo sistema baseado em pontos favorece trabalhadores altamente qualificados e aqueles com ofertas de emprego, para cargos de  remuneração superior.

A fornecedora 2 Sisters, que também abastece cadeias de supermercados como a Tesco, afirma que a oferta de mão-de-obra é uma “questão crítica”, que “dificilmente mudaria” sob o atual regime de imigração. Sobre o tema, a Avara Foods, outra fornecedora líder de frango, referiu que “parece, cada vez mais, que esta é uma alteração estrutural no mercado de trabalho do Reino Unido, que não mostra sinais óbvios de vir a ser resolvida rapidamente”.

 

A carne proveniente das aves representa metade do total da que é consumida no Reino Unido e a indústria opera numa cadeia de distribuição restrita e com pequenas margens. O aumento repentino na procura de frango por parte dos restaurantes, finalmente a operar sem restrições desde 19 de julho, veio agravar a escassez do produto.

Esta semana, a cadeia Nando's fechou 45 de seus 450 restaurantes devido a esta rutura. Para tentar ajudar a ultrapassar esta situação, a empresa chegou mesmo a alocar 70 dos seus funcionários para, em turnos contínuos, ajudarem os seus fornecedores a embalar frangos.

 

O KFC, que através de um tweet alertou para estes problemas de abastecimento, reporta que alguns dos seus restaurantes estão a enfrentar a mesma escassez e que “podem precisar de fazer alterações temporárias ao menu”.

Em resposta, um porta-voz do governo argumentou que o executivo se encontra a procurar maneiras de ajudar o setor a recrutar mais mão-de-obra doméstica e a investir em automação, a fim de reduzir a dependência de trabalhadores migrantes que vêm para o Reino Unido.

 

Também recentemente, outras empresas do setor agroalimentar, bem como alguns donos de restaurantes, alertaram para a oferta limitada de materiais de embalagem, papel vegetal e alguns cortes de carne, que tem causado uma subida nos respetivos preços, num momento em que os operadores económicos lutam para acompanhar a inflação salarial resultante da falta de trabalhadores.

 

Disrupções nas cadeias de fornecimento fazem soar alarmes para o Natal

Os empregadores do Reino Unido intensificaram os apelos para que o governo atente à escassez de trabalhadores que tem se tem verificado, que por sua vez tem feito com que algumas prateleiras dos supermercados estejam vazias. Anteveem que este fenómeno poderá causar perturbações ao período que antecede o Natal.

Iceland, Tesco, Suntory, Britvic e Greggs estão entre as muitas empresas (do setor agroalimentar, mas não só) que enfrentam grandes interrupções.

 

Tony Danker, diretor-geral da Confederation of British Industry (CBI), o maior grupo de empregadores do Reino Unido, destacou que a questão de falta de pessoal não envolve apenas motoristas de veículos pesados, mas também talhantes, trabalhadores de construção, engenheiros e especialistas em TI.

Até agora, o Governo tem descartado a hipótese de conceder vistos temporários a camionistas (estrangeiros), contrapondo que algumas empresas estão a responder à escassez de trabalhadores oferecendo salários mais altos, de forma a atrair britânicos para empregos não preenchidos.

 

Recuperação do Reino Unido desacelera devido à falta de pessoal e problemas nas cadeias de abastecimento

A recuperação económica do Reino Unido desacelerou em agosto, à medida que a falta de pessoal e os bloqueios nas cadeias de abastecimento deixaram as empresas em dificuldades para fazer face à procura, revelou um inquérito desta semana e que foi seguido de perto pelo FT.

 

Para a produção industrial, os principais problemas são a falta de pessoal devido ao isolamento e às vagas não preenchidas, combinados com custos de envio crescentes e escassez de matérias-primas, que conjugados provocam pressões nos preços. Restrições de fornecimento foram a principal razão pela qual setores como a produção automóvel e de produtos elétricos caíram em declínio, segundo a consultora IHS Markit.

 

O economista-chefe da IHS Markit, Chris Williamson, afirmou que “os atrasos dos fornecedores aumentaram para um nível apenas ultrapassado uma vez, nos primeiros meses da pandemia, e que o número de empresas que relataram quebras na produção devido à escassez de pessoal ou materiais aumentou muito acima de qualquer patamar registado em mais de 20 anos de histórico de pesquisa”.

 

Salomon Fiedler, economista do banco Berenberg, observou que a desaceleração do crescimento foi muito mais pronunciada no Reino Unido do que em qualquer outro país da Europa, sendo que a grave escassez destes produtos foi mais prejudicial ao desempenho do setor de serviços do que as preocupações com a Covid-19.

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