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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Baixa intensidade energética da economia e relações comerciais com a Rússia pouco significativas fazem com que, à partida, Portugal esteja menos exposto ao impacto.

Com fluxos comerciais reduzidos com a Rússia e um peso relativamente mais baixo da energia nos orçamentos das famílias e das empresas, Portugal é um dos países da União Europeia (UE) que, à partida, poderá estar menos exposto aos impactos económicos negativos da guerra na Ucrânia, um cenário que é precisamente o oposto do que aconteceu com a pandemia.

A conclusão é do economista Nils Redeker, que, num estudo publicado pelo Jacques Delors Centre esta semana, analisa, para cada um dos países da UE, as circunstâncias com que se deparam no início deste conflito, nomeadamente no que diz respeito à importância das relações comerciais com a Rússia, à dependência do fornecimento de petróleo e gás russos e ao peso que o consumo de energia tem em cada uma das economias. Em todos estes indicadores, Portugal encontra-se entre os países da UE com situações, à partida, menos desfavoráveis para as suas economias.


O autor começa por analisar a importância que a Rússia tem nas exportações e nas importações realizadas por cada país da UE. Portugal é, entre os 27 países, o terceiro com um peso mais pequeno da Rússia no total das suas exportações, apenas atrás de Malta e Grécia, e o sétimo no que diz respeito às importações. Nos dois casos, o peso da Rússia como parceiro comercial de Portugal não superava, antes da guerra, os 0,2%.


No pólo oposto, estão países vizinhos do território russo, como a Letónia, Estónia, Lituânia e Finlândia, que têm na Rússia um dos seus principais parceiros comerciais, tendo por isso bastante mais a perder com a deterioração das relações económicas entre a Rússia e o Ocidente desde que começou a guerra na Ucrânia. Como afirma o autor, "os custos económicos directos do comércio com a Rússia são em termos globais limitados, mas estão fortemente concentrados nos países bálticos e em alguns Estados- membros do Leste".


Depois, há o problema da dependência face ao petróleo e gás russos. Até agora, a UE tem optado por não incluir nas sanções à Rússia um bloqueio às suas vendas de energia e isto acontece exactamente porque vários países europeus teriam bastante a perder com uma opção desse tipo.


Diversos países do Leste da Europa importam mais de 60% do seu petróleo e do seu gás natural da Rússia. E mesmo grandes potências europeias, como o Alemanha e a Itália, assinala o estudo, "destacam-se como Esta- dos-membros que dependem muito do gás no seu consumo nacional de energia e, ao mesmo tempo, importam percentagens elevadas do seu gás da Rússia".


Também aqui, Portugal está entre os menos expostos a este tipo de dependência. É o terceiro país da UE com um peso menor da Rússia nas suas importações de petróleo e combustíveis e é o oitavo no que diz respeito ao gás natural.


Por fim, o terceiro factor de exposição à crise analisado no estudo não tem a ver com as relações directas de cada país com a Rússia (que no caso de Portugal são pequenas devido à sua situação geográfica), mas sim com o impacto que cada economia pode sofrer pelo simples facto de o preço dos bens energéticos estar a disparar nos mercados internacionais.


Para isso, o autor verifica, tanto para as famílias, como para a economia como um todo, qual o peso que a energia tem nas suas actividades. E, também aqui, por questões como o clima ou o peso relativamente reduzido da indústria, Portugal fica na parte de baixo da tabela europeia.


Portugal é, de acordo com os cálculos do autor, o sétimo país da UE com uma intensidade energética (quanta energia é necessária gastar por unidade de PIB) mais baixa. E, no que diz respeito às despesas das famílias, os gastos dos portugueses com energia (electricidade, aquecimento e transportes) representam menos de 10% do total, sendo o segundo país da UE com o valor mais baixo.


Mais uma vez, entre os países à partida mais expostos a uma escalada dos preços energéticos estão os países do Leste da Europa.

Partilha de custos


Para o autor do estudo, o facto de "a vulnerabilidade económica à invasão da Rússia à Ucrânia estar distribuída tão desigualmente" e a importância que tem "manter os 27 unidos" faz como "seja provavelmente necessária uma partilha de custos que leve em conta estas diferenças para evitar impactos económicos desiguais".


Em discussão na UE está já a possibilidade de, à semelhança do que aconteceu com a pandemia, ser lançado um fundo financiado conjuntamente para que os países possam responder a esta crise. Mas se, durante a pandemia, Portugal estava entre os países mais ajudados, agora pode estar no campo oposto. E é preciso ter em conta que a exposição relativamente pequena de Portugal aos efeitos económicos da guerra que é identificada neste estudo não significa que não se venham a registar impactos significativos, seja ao nível do crescimento, seja da inflação.


Esta segunda-feira, no Conselho de Estado, ficou a saber-se que o primeiro-ministro António Costa revelou que o Governo se prepara para rever em baixa a sua previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) este ano de 5,8% para 5%.


Um número que começa a revelar os receios do executivo em relação aos impactos negativos, mas que, neste momento, tendo em conta o enorme grau de incerteza em relação às reacções dos agentes económicos e a grande complexidade das relações económicas e financeiras à escala mundial, se arrisca ainda a sair bastante ao lado da realidade.


Na Alemanha, o indicador de confiança dos investidores ZEW registou em Março a maior queda desde que começou a ser calculado, indo muito além do que era previsto pelos analistas.


E, hoje, existe a forte possibilidade de a Rússia, ao optar por fazer o pagamento de duas emissões de dívida pública em rublos, entrar em incumprimento com os seus credores internacionais, algo cujos impactos no sistema financeiro internacional são ainda difíceis de avaliar.

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