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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Com a pandemia, o consumo de combustíveis baixou mas não parou. E tornou mais desafiante a logística de importação e distribuição. Visitámos o parque da Repsol em Sines e falámos com quem lá trabalha.

Aos 40 anos, João Santos é um dos mais recentes membros da pequena equipa de cinco trabalhadores responsáveis pelo parque de combustível da Repsol em Sines. Aqui trabalha desde novembro de 2019. Antes era funcionário da refinaria da Galp, do outro lado da A26, pouco mais de um quilómetro a sul. A paisagem é industrial. Assim é há décadas, embora este município alentejano esteja a viver uma transição ditada pela agenda da descarbonização.


O encerramento da central a carvão da EDP em Sines mexeu com a vida de centenas de famílias. "A grande questão foi o fecho da central termoelétrica, mas ao mesmo tempo está a haver novas perspetivas com a REN e com os biocombustíveis.

 

Acredito que aquele estaleiro que está lá montado poderá ter outro tipo de investimento. A empregabilidade aqui em Sines não é um problema", conta João Santos. Foi pai há umas semanas. É lisboeta, mas a sua vida agora é em Sines. "Qualquer um de nós se adapta com certa facilidade ao Alentejo. Já cá casei", aponta. O seu colega Hugo Queirós, 43 anos, também se sente bem por aqui. Sempre trabalhou na indústria petrolífera. Começou em 2000 na Shell, depois integrou a Repsol em Matosinhos, em 2016 veio para Sines, quando a empresa espanhola aqui lançou este parque com capacidade para 100 milhões de litros de gasóleo. "Rapidamente percebi que era uma boa região para se viver. Passado um ano e meio veio a minha família. A vida é muito mais calma. A única coisa que nos preocupa aqui em Sines é o acesso à saúde", refere Hugo.

Hoje têm a visita de António Albuquerque, o diretor de operações e logística da Repsol Portuguesa, que trabalha em Lisboa e vem uma vez por mês a Sines. Em rigor, nem precisaria de o fazer, porque a empresa tratou de digitalizar o mais possível os processos de troca de informação, resumindo ao estritamente essencial o que ainda tem de acontecer fisicamente no parque de combustível, como as cargas dos camiões-cisterna que todos os dias aqui vêm abastecer, para distribuir gasóleo nos postos Repsol e parceiros da região sul.


A Repsol Portuguesa tem em Sines uma pequena equipa (especialmente se comparada com a vizinha Repsol Polímeros, com 450 trabalhadores), mas a empresa fez questão de permitir que os funcionários pudessem estar em teletrabalho com acesso em tempo real, por computador e telemóvel, a tudo o que se passa nas instalações: as cargas e descargas, os volumes de combustível nos tanques, pressão, temperatura, alertas. No parque de combustível permanecem fisicamente dois trabalhadores, em turnos alternados, e o vigilante.


Nestas instalações, com três tanques de 33 mil metros cúbicos, a Repsol recebe gasóleo que chega a Portugal por navio (usando a infraestrutura que liga o Porto de Sines à Repsol Polímeros), mas também recebe através da refinaria da Galp. Um outro tanque permite incorporar localmente biocombustível no gasóleo que é carregado nos camiões-cisterna para venda na região sul do país. Este fluxo rodoviário representa 25% do movimento de gasóleo da Repsol Portuguesa em Sines, sendo os restantes 75% canalizados para Aveiras por oleoduto. Duas vezes por mês, estas instalações da Repsol fazem uma transferência de gasóleo para o tubo que liga Sines ao parque da CLC em Aveiras, onde é recolhido por camiões-cisterna para distribuição em várias regiões. Isso significa que afinal todo o gasóleo é igual? Não. Em Aveiras, cada petrolífera faz a sua própria aditivação no combustível que é carregado nos camiões para ser transportado até às "bombas". "Uma operação de transferência para a CLC pode levar oito a 20 horas", descreve António Albuquerque.


Gasóleo até quando?


A agenda da descarbonização tem levado os decisores políticos a apostar na eletrificação do consumo de energia e, mais recentemente, no hidrogénio verde (e Sines poderá vir a receber centenas de milhões de euros de investimento nesta fileira). O ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, já vaticinou o fim do "diesel". "Na próxima década, não vai fazer sentido comprar um carro a gasóleo", declarou em janeiro de 2019 numa entrevista ao "Jornal de Negócios" e Antena 1. As próprias petrolíferas reconhecem que a transição energética está em curso e vão instalando postos para carros elétricos nas suas estações de serviço, incluindo a Repsol.


A verdade é que o parque de combustível criado em Sines em 2016 tem ainda longos anos de vida pela frente. "A nossa concessão com a AICEP vai até 2035 e o contrato estabelece períodos de renovação", lembra António Albuquerque, notando que a vida útil destas infraestruturas é longa. A bandeira da descarbonização veio introduzir uma pressão acrescida sobre o consumo de combustíveis fósseis, mas é para já difícil prever o ritmo de adesão dos portugueses aos carros elétricos.

 

Quando deixaremos de consumir gasóleo? Uma incógnita. Mas não uma impossibilidade: no sistema elétrico nacional durante longas décadas o carvão foi uma fonte de referência e já no final deste ano Portugal deixará de queimar carvão para produzir eletricidade (depois do fecho de Sines, em novembro também encerrará a central da Tejo Energia no Pego).
A pandemia e os períodos de confinamento que lhe estiveram associados tiveram impactos também relevantes no negócio das petrolíferas, com reduções de dois dígitos no consumo de combustíveis. "A pandemia obrigou a uma gestão de stock que antes não existia", admite António Albuquerque. "Havia compras planeadas que tiveram que ser reduzidas ou até anuladas", acrescenta.


O certo é que o investimento feito em Sines permitiu à Repsol ter flexibilidade nas opções de aprovisionamento, conseguindo otimizar as condições a que compra gasóleo para revenda ao cliente final em Portugal. "Sem esta instalação podíamos comprar à Galp, mas perdíamos opções e a oportunidade de sermos nós a comprar e incorporar os biocombustíveis", explica António Albuquerque.


A primeira manutenção geral no parque de Sines acontecerá entre 2023 e 2024. Os três grandes tanques serão esvaziados para serem inspecionados, mas um de cada vez. Antes disso, entre o final deste ano e o início de 2022, a Repsol instalará uma pequena central fotovoltaica que abastecerá boa parte do consumo de eletricidade deste parque de combustível. As instalações foram desenhadas desde o início com um sistema de segurança que garante o seu funcionamento 24 horas por dia. Em caso de falha de energia, há um gerador (a gasóleo, claro, que não falta no parque) e ainda um sistema de baterias de chumbo ácido (como as que temos nos carros). Afinal, há mais na logística dos combustíveis do que apenas ligar a mangueira da bomba ao nosso automóvel. E Sines ainda será, por alguns ou muitos anos, uma peça dessa engrenagem.


SINES: ENERGIA E COMPANHIA

Repsol
A espanhola Repsol tem em Sines um parque de combustível e ainda a Repsol Polímeros, com 450 empregos diretos (e outros 500 por via de prestadores de serviços), que produz diversos produtos químicos.

Galp
A refinaria de Sines será, após o fecho da refinaria de Matosinhos, a única instalação do país a processar petróleo e produzir gasolina e gasóleo. Ocupa mais de 300 hectares e processa 220 mil barris por dia. Em SinesaGalptem aindaafábrica de biocombustível Enerfuel.

REN
A REN tem em Sines um terminal de armazenamento e regaseificação de gás natural liquefeito (GNL), sendo esta a ú nica via de entrada de gás por navio em Portugal (o país também recebe gás natural por via terrestre a partir de Espanha).

EDP
A EDP fechou em janeiro a histórica termoelétrica a carvão de Sines, que era a maior central do país. Mas mantém direito de superfície que lhe permitirá reabilitar o espaço.

Hidrogénio verde

O consórcio H2Sines (que junta EDP,Galp, REN, Martifer, Vestas e Engie) está a estudar um projeto industrial de larga escala de produção de hidrogénio verde. Também a empresa Fusion Fuel tem um projeto de hidrogénio para Sines.

Indústria química


Várias outras em presas da área química têm fábricas em Sines, como a Indorama (ex-Artenius), Air Liquide e Euroresinas.

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