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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

O maior produtor de cortiça do mundo está em Portugal, é a Corticeira Amorim, da qual António Rios Amorim é presidente do conselho de administração.

Num país responsável por 50% da produção global, aponta: "No PRR faltam medidas para promover exportações." Defende que para "tratar o fim da pandemia é preciso um plano agressivo de promoção do país", teme pelo desemprego "muito dependente do turismo" e não acredita numa crise política no Orçamento do Estado.

 

É presidente de uma das mais importantes empresas portuguesas, desde 2001. A Corticeira Amorim tem 150 anos, está presente em mais de uma centena de países e é líder mundial na transformação de produtos de cortiça.

 

Apesar da pandemia, a Corticeira Amorim nunca interrompeu a produção. Qual o segredo do plano de contingência?
O segredo foi assumir a responsabilidade de um ponto de vista global. Ou seja, a Corticeira Amorim tem atividades das quais depende uma cadeia de valor global, como é o caso da indústria vitivinícola e, portanto, não existe capacidade industrial suficiente fora da Corticeira Amorim para abastecer todo este mercado. Portanto, o primeiro compromisso foi estabelecido com os nossos clientes, a nossa primeira determinação foi continuar a servir os nossos clientes.

 

Foi preciso investir dinheiro?
Foi preciso, sobretudo, criar as condições internas para fazer que os nossos colaboradores deixassem, na altura, o conforto e a segurança dos seus lares para virem para o local de trabalho que os poderia eventualmente infetar e criar problemas de saúde. Há um ano a ansiedade era muito grande e tivemos de criar esse conforto e ter a certeza de que as nossas filiais - 50 filiais fora de Portugal - se mantinham também a trabalhar, a assegurar a cadeia de abastecimento a um mercado que é global.

 

Vivemos em sucessivos estados de emergência, que terminam hoje. Foi uma medida que penalizou muito as empresas?
Penalizou, com certeza. Em Portugal temos setores bastante penalizados. Na Corticeira Amorim temos três mercados, um deles é o do vinho que foi penalizado, já que o consumo deve ter reduzido mais de 10% (em quantidade) e em valor foi mais, porque o canal Horeca (hotéis, restaurantes e cafés) é o que consome vinhos de qualidade e de preço médio mais alto e foi o mais afetado durante esse período da pandemia. E, portanto, Portugal ressentiu-se. O estado de emergência seguramente que agravou mais as condições.

 

E poderia ter terminado mais cedo?
Acho que tomámos as medidas que tivemos de tomar. Tivemos cerca de dois meses trágicos (desde janeiro) e as consequências da gravidade da situação obrigaram a que fôssemos prudentes. Era importante também preparar o país para fazer uma época de primavera-verão capaz de poder, eventualmente, acolher turistas a nível interno e, sobretudo, a nível externo e, portanto, eu percebo que as autoridades tenham tido um bocadinho mais de prudência nesta fase. Mas, felizmente, os números estão a provar que as decisões não foram tão erradas assim.

 

Como medida de combate à pandemia o governo decidiu prolongar o teletrabalho até ao final do ano. Concorda ou entende que é chegada a hora de acabar com esta obrigatoriedade?
As medidas do teletrabalho deixaram de fazer sentido. Quer dizer, quando as pessoas, hoje em dia, têm a possibilidade de ir ao centro comercial e de ir à esplanada, ou de ir ao restaurante durante a semana, eu penso que essas medidas não estão adequadas, deveriam ser revistas. É importante percebermos que as empresas tiveram muito tempo para se adaptar e para criar as condições internas para poder acolher os seus colaboradores e acho que faz falta ter a equipa toda reunida, faz falta que as pessoas interajam umas com as outras, faz falta a informalidade que existe durante o horário de trabalho, os laços que se criam, os assuntos que se discutem no corredor. Portanto acho que alguma flexibilidade de trabalho, se calhar, vai continuar. O regime do teletrabalho, no meu ponto de vista, deveria ser revertido com o fim do estado de emergência. Até porque nem toda a gente quer estar, forçadamente, no regime de teletrabalho, porque isso também depende das condições que terão nas suas casas. Numa empresa de base industrial nós seríamos, claramente, favoráveis a que o teletrabalho terminasse com o fim do estado de emergência.

"Nos EUA quem tem a vacina pode ir visitar um cliente; não tem vacina, não tem cliente que o receba. A abertura tem que ver com o avanço da vacinação. É aí que devemos concentrar todo o nosso esforço."

 

Estamos a poucos dias da última fase do plano de desconfinamento, na próxima segunda-feira. Subscreve o calendário do governo, tendo como comparação o que está a acontecer pela Europa?
Sim. Acho que o fim do estado de emergência tem de pressupor uma responsabilidade adicional para todos nós. Todos nós sabemos que se os comportamentos não forem os adequados vamos ter medidas sancionatórias de novo e não é nada disso que nenhum de nós quer. À medida que os riscos vão estando controlados não há mais nenhuma razão para ter economia confinada e não há mais nenhuma razão para revisitar estados de emergência. Seguramente vai crescer o número de infetados. O que é importante é que não cresça o número de óbitos. E isso vai-nos ser dado, seguramente, pelo aumento da vacinação e é aí que deve estar a prioridade do país. Num mercado como os Estados Unidos, hoje em dia, quem tem a vacina tomada pode ir visitar um cliente; não tem vacina tomada, não tem cliente que o receba. Portanto o grau de definição da abertura local tem a ver com o avanço que o plano de vacinação tem. Acho que é aí que devemos concentrar todo o nosso esforço. À medida que o plano de vacinação avance - e agora temos aqui dois meses cruciais em que vamos dar um salto significativo -, não há mais nenhuma razão para se voltar atrás em planos de emergência ou confinamentos excessivos.

"Uma retoma terá forçosamente de acontecer no segundo trimestre 2021. E essa é expectativa que temos. Sentimos que os mercados internacionais dão sinais de antecipação do fim desta crise."

 

O desconfinamento influencia o desempenho da empresa que lidera ou é cedo para o avaliar?
A Corticeira Amorim é uma empresa que não depende do mercado português. Portugal representa 4% a 5% do nosso volume de negócios. Nós dependemos muito mais do que se passa nos Estados Unidos, em França, Itália, Espanha, Alemanha, Rússia, Chile. Os Estados Unidos foram, claramente, um mercado que se comportou lindamente - mesmo durante 2020. Nós crescemos nos Estados Unidos em 2020, o que compensou perdas mais significativas que tivemos nalguns países europeus.

Agora todos os países estão a pôr a tónica no avanço da vacinação para não voltarem a ter de confinar, e isso significa abertura de mercados, retoma de consumo e retoma de alguns dos produtos que se dirigem aos nossos clientes. Tivemos um primeiro trimestre ainda afetado por esta pandemia, mas deveremos ter, a partir do mês de abril, uma retoma dos principais mercados. Uma retoma terá forçosamente de acontecer no segundo trimestre 2021. E essa é expectativa que temos. Sentimos que os mercados internacionais estão a dar sinais de uma antecipação do fim desta crise. Houve um cenário, realmente bastante traumático, que esta crise provocou a muitos, uns setores mais do que a outros. Mas, neste momento, existe essa perspetiva - se quiser, numa linguagem financeira, já há o desconto daquilo que será um plano de retoma. Vai ter sempre aqui uma visão positiva da minha parte relativamente a isso porque é nisso que nós acreditamos. Acreditamos que o primeiro trimestre do ano foi o pior trimestre e que os trimestres que se seguirão serão de retoma. Com mais ou menos euforia dependente dos mercados, mas serão, seguramente, trimestres de retoma.

 

Partilha da opinião de que as moratórias bancárias podem fazer detonar uma espécie de bomba-relógio no sistema financeiro?
É uma variável crítica no nosso sistema.

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