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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

A maioria das regiões do território nacional são deficitárias em termos de comércio inter-regional. A exceção são Lisboa e o Alentejo, que exportam mais do que importam para as restantes regiões.

Nos últimos anos, a economia nacional tem sido particularmente impulsionada pela evolução das exportações, muito por conta do crescimento do Turismo. Porém, Portugal é tradicionalmente uma economia sustentada pela força da procura interna.

 

No ano passado, por exemplo, 70% do crescimento de 6,7% do PIB adveio justamente da procura interna (que agrega o consumo privado, o consumo público e o investimento). E apesar de este ano o Conselho das Finanças Pública antecipar que esse peso baixe para 50%, a entidade liderada por Nazaré da Costa Cabral prevê que entre 2024 e 2027 o crescimento da procura interna seja superior ao próprio crescimento do PIB — que será negativamente impactado por uma contração das exportações líquidas.

Uma parte da procura interna é alimentada por importações (petróleo, minérios, maquinaria e alguns bens alimentares, por exemplo) dada a escassez ou inexistência destes produtos para responder à procura dos portugueses. Mas uma parte considerável do consumo das famílias, empresas e Estado é satisfeita pela produção nacional, que é garantida por um comércio inter-regional — trocas comerciais entre as sete principais regiões do país (Norte, Centro, Lisboa, Alentejo, Algarve, Madeira e Açores).

 

“Embora as exportações internacionais tenham vindo a aumentar de forma consistente, o comércio inter-regional é fundamental para a economia nacional, apresentando valores da mesma ordem de grandeza do comércio internacional”, lê-se no estudo “Comércio inter-regional em Portugal”, desenvolvido pela Faculdade de Economia de Coimbra para o Centro de Competências de Planeamento, de Políticas e de Prospetiva da Administração Pública (PlanAPP), que foi publicado esta segunda-feira.

 

Tendo por base o ano de 2017 e uma amostra de 431 produtos produzidos por 125 ramos de atividade, só na região da área metropolina de Lisboa e na região Norte, as trocas comerciais inter-regionais (importações e exportações) representavam, em média, 81% da riqueza criada anualmente nessas regiões. No entanto, nem todas as regiões se comportam da mesma maneira. A maioria, apresenta saldos comerciais deficitários, mas há duas regiões que se destacam, ao apresentarem um excedente comercial inter-regional.

 

Segundo o estudo da PlanAPP, a área metropolitana de Lisboa (AM de Lisboa) e o Alentejo são as regiões que se mostram mais fortes no comércio regional. São as únicas a apresentarem um saldo comercial inter-regional positivo, ou seja, que conseguem exportar mais bens mais do que aqueles que importam das restantes regiões.

 

No caso da AM de Lisboa, por cada 100 euros de bens enviados para uma das outras seis regiões, Lisboa importa apenas 83 euros. “A região apresenta-se, assim, como uma região exportadora em contexto inter-regional, com um superávit de 4.285,7 milhões de euros”, referem investigadores, que equivale a um excedente comercial equivalente a 7% do valor acrescentado bruto (VAB) da região.

 

No topo da estrutura das exportações inter-regionais da AM de Lisboa marcam destaque os produtos da rubrica “Eletricidade, gás, vapor e ar frio”, com um valor de quase 4 mil milhões de euros, do qual cerca de 75% advêm da exportação de “Eletricidade distribuída”.

 

Este fenómeno deve-se essencialmente ao efeito de sede que a região concentra. “Sendo a sede da E-Redes e de outras empresas do setor na região da AM de Lisboa, e sendo uma parte dos salários e lucros aí distribuídos, isso significa que uma parte da atividade que se localiza na Região serve para responder à procura que existe noutras regiões. Isso é o que motiva as exportações inter-regionais líquidas”, lê-se no relatório.

 

Do lado das importações regionais, os produtos com um maior destaque da AM Lisboa advêm da rubrica “Eletricidade, gás, vapor e ar frio”. “Este valor é particularmente impulsionado pela “Eletricidade produzida” (cerca de 55%) e pela “Eletricidade distribuída” (cerca de 40%)”, explicam os investigadores, notando que “mesmo que a eletricidade seja um bem exportado ele é igualmente importado nomeadamente na sua forma de produção, pois a produção de eletricidade na Região da AM de Lisboa é praticamente inexistente.

 

O Alentejo é a única região do país que regista um excedente da sua balança comercial (que agrega o comércio intra-regional e o comércio internacional) por ser, maioritariamente, exportadora para o território nacional.

 

Também com uma vantagem competitiva no comércio inter-regional está a região do Alentejo: além de ser uma das duas únicas regiões a apresentar um excedente comercial inter-regional, contabilizando 75 euros de importações por cada 100 euros de bens exportados, era também a região que em 2017 menos dependia das restantes seis regiões, ao apresentar um excedente do comércio intra-regional equivalente a 19% do VAB região.

 

Segundo dados do estudo “Comércio inter-regional em Portugal”, em termos do valor das exportações inter-regionais na região do Alentejo, destacavam-se quatro produtos : bens alimentares, bebidas e tabaco; produtos de coque e refinados petrolíferos, produtos agrícolas, floresta e pesca, e eletricidade, gás, vapor e ar frio. Em conjunto, estes produtos “representam cerca de dois terços das exportações inter-regionais (8.474 milhões de euros) e um quinto da produção total da região (25.066 milhões de euros)”, referem os investigadores.

 

Além disso, o Alentejo é também a única região do país que regista um excedente da sua balança comercial (que agrega o comércio intra-regional e o comércio internacional). “Ainda assim, o contributo das balanças aqui analisadas é distinto, já que tanto a balança internacional de bens e serviços como a balança de bens e serviços relacionados com turismo registam um saldo deficitário, sendo o excedente da balança inter-regional que anula os défices das restantes visto que a região Alentejo é, maioritariamente, exportadora para o território nacional”, referem os autores do estudo da PlanAPP.

Algarve e Madeira com maior défice comercial inter-regional

As trocas comerciais entre as sete grandes regiões do território nacional são bastante heterogéneas: se as regiões do Norte e do Centro exportam sobretudo bens produzidos pela indústria transformadora, a Área Metropolitana de Lisboa exporta principalmente serviços para as outras regiões.

 

“Destaca-se, igualmente, a importância da Refinaria de Sines e da agricultura e floresta para a região do Alentejo, assim como do turismo para as regiões Autónomas, mas, fundamentalmente, para a região do Algarve, onde representa mais de 20% do VAB [Valor acrescentado bruto] e do emprego regional”, mostram os dados do estudo “Comércio inter-regional em Portugal”.

O Algarve e a Madeira partilham a particularidade de serem as duas únicas regiões do território a apresentarem um saldo internacional comercial de bens e serviços (incluindo o turismo) positivo, mas que não é suficiente para equilibrar as contas da balança comercial.

 

No entanto, nem todas as regiões do país se comportam da mesma maneira. Há regiões mais dependentes do resto do país do que outras. É o caso do Algarve e da Madeira, que apresentam um défice do comércio inter-regional de 29% e 31% do VAB, respetivamente, ao importarem quase duas vezes mais bens face aos que exportam para o resto do país, de acordo com dados do estudo da PlanAPP.

 

Em 2017, por cada 100 euros de bens exportados, o Algarve importou 183 euros, correspondendo assim a um défice do comércio inter-regional de 29% da riqueza gerada na região. “De um ponto de vista global, verificamos que a região do Algarve é uma região tendencialmente importadora”, referem os técnicos da PlanAPP, revelando ainda que o Algarve exporta para as restantes regiões portuguesas cerca de 22,4% da sua produção total.

 

Na Madeira, os números mostram que a região autónoma depende fortemente das restantes regiões do país, ao importar 171 euros por cada 100 euros de bens exportados. Essa dinâmica resultou assim num défice comercial inter-regional equivalente a 31% do VAB da Madeira, que é explicado, “em grande parte, pela natureza insular da região do Arquipélago da Madeira, fortemente dependente das importações de bens e serviços, inter-regionais e internacionais, que são apenas compensadas em parte pelas exportações inter-regionais e internacionais de bens e serviços.”

 

Apesar desta forte dependência da economia nacional, o Algarve e a Madeira partilham a particularidade de serem as duas únicas regiões do território a apresentarem um saldo internacional comercial de bens e serviços (incluindo o turismo) positivo: 850 milhões e 235 milhões, respetivamente.

 

No entanto, as contas do turismo não se mostram suficientes para equilibrar as contas da balança comercial de ambas as regiões que, no caso do Algarve, era de quase 1.500 milhões de euros negativos em 2017, e da Madeira superava um défice de 1.000 milhões de euros em 2017.

 

A completar o pódio das regiões com maior dependência regional da sua economia está o Norte. Segundo o estudo da PlanAPP, o Norte registou a importação de 113 euros de bens por cada 100 euros de bens exportados em 2017, a que correspondeu um défice comercial inter-regional de 11% da riqueza gerada na região.

 

Entre as sete principais regiões do país, o Norte era a que apresentava o maior volume do défice comercial, com o saldo das trocas comerciais entre regiões a situar-se em quase 2,6 mil milhões de euros negativos.

 

No entanto, o Norte é a região do país com mais exportações internacionais. Segundo os dados de 2017, quase 60% das exportações foi gerado desta região. Porém, este volume de vendas para o estrangeiro não se mostrou capaz de evitar um défice da balança comercial internacional, que há seis anos situou-se nos 4,4%, nem suficiente para equilibrar as contas da balança comercial global da região.

 

Em Eco

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