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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

A necessidade de nivelar as exigências regulatórias e de supervisão entre os vários intervenientes no sistema financeiro torna-se uma urgência. É preciso garantir confiança no sistema.

Uma ideia inovadora, suportada em tecnologia diferenciadora e em pessoas com uma visão de negócio global são os requisitos essenciais para qualquer startup atrair a atenção dos investidores. Há muito que os fundos de venture capital, especializados em tecnológicas, ou de private equity, olham para as startups como excelentes negócios, ainda que apenas uma pequena percentagem destas venham a ser viáveis.

 

No entanto, as que se tornam viáveis, ultrapassando as várias fases de maturidade, compensam largamente os investimentos não produtivos, garantindo um retorno significativo aos seus investidores. Em Portugal temos vários casos de sucesso, cujo valor de mercado ultrapassou as centenas de milhões de euros e até se tornaram unicórnios.

 

Ainda assim, o sucesso não é garantido e o caminho a percorrer por muitas destas startups é tortuoso, muitas vezes porque a tecnologia falha ao escalar para uma dimensão superior, porque não conseguem captar financiamento necessário nas sucessivas rondas de investimento, pela pressão dos investidores num retorno rápido ou, simplesmente, porque uma boa ideia foi ultrapassada por outra ainda melhor.

 

Vem isto a propósito da queda da Wirecard, fintech alemã na área dos pagamentos, constituída ainda na primeira vaga das startups, as dotcom, às portas do século XXI, e que constitui mais um episódio na longa história de escândalos financeiros da humanidade.

 

Curiosamente, e permitindo-me a comparação, a Wirecard partilha com o falido e extinto Barings Bank o epicentro do escândalo: a Ásia, em particular Singapura, onde um trader efetuou transações fraudulentas e não autorizadas no mercado de futuros, as quais, em conjugação com uma serie de fatores internos e externos ao banco, desde falhas de controlo interno até um terramoto no Japão, ditaram a queda do banco e a sua posterior venda, em 1995, por uma libra ao holandês ING.

 

O caso da Wirecard tem semelhanças tremendas com o Barings, pressão dos investidores para resultados, gestores ávidos de mostrar competência e diferenciação em relação à concorrência, falhas de controlo interno e de reporting, de supervisão e um contexto global de catástrofe, neste caso o “terramoto” da pandemia.

 

A Wirecard, que estava cotada na bolsa de Frankfurt, após ter ocupado o lugar de um falido grupo de call centre, processo discutível que lhe permitiu evitar uma OPV (Oferta Pública de Venda) e todo o escrutínio associado, era, na verdade, um banco.  Analisando o caso à luz do contexto atual de regulação, de supervisão e tecnológico, conclui-se que é bem mais grave do que o Barings.

 

Na realidade, 25 anos depois, num contexto regulatório bem mais exigente do que o de 1995, questiona-se o papel e as ações de todos os intervenientes.

 

Do supervisor em todo este processo (se bem que temos exemplos recentes da incapacidade dos supervisores em cumprir o seu papel quando os supervisionados utilizam práticas contabilísticas e financeiras obscuras para ocultar a verdadeira situação da empresa); dos auditores e da sua independência (também aqui um auditor substituiu outro imediatamente após ter efetuado uma auditoria especial às contas); dos investidores, que continuaram a investir na empresa mesmo perante a evidência de um conjunto de indicadores de risco e dos gestores que pela suas ações e motivações tomaram decisões pouco éticas, mais preocupados em mostrarem resultados e crescimento do negócio, do que em garantir uma gestão responsável e alinhada com as boas práticas de governance.

 

A necessidade de nivelar as exigências regulatórias e de supervisão entre os vários intervenientes no sistema financeiro torna-se assim uma urgência, garantindo confiança no sistema e induzindo garantias de equidade de tratamento entre bancos e fintech. Ao mesmo tempo, urge uma maior inovação metodológica e tecnológica na supervisão, tendo em conta que a inovação financeira sempre esteve um passo à frente da regulação.

 

Mais do que reagir perante factos consumados, é necessária uma maior proatividade nos processos de supervisão, utilizando a tecnologia como alavanca.

 

Num mundo em que qualquer transação financeira ou operação contabilística tem uma tradução imediata num sistema de informação, gerando processos rastreáveis e enormes volumes de dados auditáveis, a implementação de processos inteligentes de supervisão, que gerem alertas e despoletem ações imediatas de supervisão, investigação e intervenção, são essenciais para garantir a vigência do sistema financeiro, agora que começam a existir fintech que, pela sua dimensão e importância no sistema, são, provavelmente, demasiado grandes para cair.

 

Ainda bem que a maior fintech do mundo não era portuguesa.

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