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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Para Nuno Garcia, diretor-geral da GesConsult, "Portugal está entre os melhores destinos do mundo para se investir em imobiliário".

A pandemia chegou e deixou o mundo e a economia em pânico. Mas há um setor que em Portugal escapou à crise causada pelo novo coronavírus. O imobiliário. De mãos dadas com o ramo da construção, adaptou-se e arranjou forma de fintar a pandemia. E no segmento residencial o segmento de luxo foi dos que melhor resposta deu à Covid-19. A procura manteve-se alta e a compra, venda e arrendamento de casas não esmoreceu. E neste “campo”, o destaque vai para segmento residencial premium, que se consolidou, conforme revela ao idealista/news Nuno Garcia, diretor-geral da GesConsult. Uma tendência que não está a passar ao lado dos portugueses, pelo contrário. 

 

“O segmento de luxo, embora não acessível a todos, consolidou-se junto de quem já investia, antes da pandemia, no luxo e não prevejo que a tendência venha a inverter-se tão cedo”, comenta o responsável, que fundou a GesConsult – empresa especialista na gestão e fiscalização de obras – em março de 2014. 

 

Quando questionado sobre se os portugueses também estão a investir ou têm em vista fazê-lo no segmento de luxo, Nuno Garcia responde de forma clara: “Os portugueses começam agora a investir neste mercado. Tal como os investidores estrangeiros, os nacionais procuram locais sossegados, espaçosos e seguros, perto do mar e do campo, sem precisarem de fazer grandes distâncias para usufruírem das vantagens dos centros urbanos”. 

 

Estes são apenas alguns dos assuntos abordados na entrevista realizada – por escrito – a Nuno Garcia, que também é membro sénior da Ordem dos Engenheiro, acompanhando o setor há 12 anos. O fim dos vistos gold, o interesse dos investidores estrangeiros no imobiliário nacional e a reabilitação e a construção nova, por exemplo, também estiveram em análise.

 

O segmento residencial de luxo parece ter passado ao lado da pandemia da Covid-19 em Portugal. A que se deve esta resiliência? 

 

O luxo é, por natureza, um mercado pouco volátil, menos afetado por crises e mais dinâmico precisamente quando surgem oportunidades para bons investimentos. Se aliarmos estas características ao imobiliário, que é relativamente estável também, percebemos o porquê de se tratar de um segmento com potencial para continuar a ser um bom aliado do crescimento do setor. 

 

Durante a pandemia, o segmento residencial de luxo consolidou-se, porque há oferta tanto para quem procura apartamentos no centro, como para quem prefere vivendas na periferia. De forma geral, cumprem-se vários tipos de exigências, especialmente se tivermos em conta que os preços do premium estabilizaram, ao contrário do que se esperava. Adicionando fatores distintivos do nosso país, como a tranquilidade e a segurança, Portugal torna-se bastante atrativo para os investidores.

 

É um cenário (de resiliência à crise pandémica) que também se está a viver noutros países?

 

Trata-se de uma tendência que também tem tido eco noutros países. França, Itália e Espanha são outros exemplos de localizações que têm tido uma grande procura por imobiliário de luxo, sendo que a pandemia não veio travar isso – antes acelerar. 

 

Fatores como a segurança, a privacidade, o clima e a facilidade de chegar rapidamente a outros pontos da Europa tornam estes destinos apetecíveis para um público com bastante poder de compra, que valoriza a qualidade superior. 

 

É por isso que, na verdade, Portugal se destaca. Durante a última década, os investidores estrangeiros têm percebido aquilo que para os portugueses sempre foi claro: o país oferece tudo aquilo que as pessoas procuram. O mar, o campo, a gastronomia, o clima e a segurança. 

 

O mercado imobiliário nacional de luxo continua a ser muito apetecível para os investidores estrangeiros?

 

Sim, sem dúvida. Como referi, Portugal é um país que oferece um “pacote” inigualável, que o torna muito apetecível aos olhos dos investidores estrangeiros, que procuram terrenos e casas para viver ou mesmo para rentabilizar. A abrangência de respostas às necessidades dos compradores, bem como o acompanhamento de tendências por parte do próprio setor, não deixa margem para dúvidas – Portugal está entre os melhores destinos do mundo para se investir em imobiliário. 

 

É um interesse que existe há já alguns anos. Acredita que se vai manter nos próximos tempos?

 

Sim, basta olhar para todos os projetos que estão a surgir graças à procura que nos chega de fora, em locais como a Comporta, Cascais, Sintra, Algarve e em muitos outros pontos do país.

 

A casa já não é, hoje, um local para dormir. Devido aos tempos mais conturbados que vivemos recentemente, a perceção mudou e a casa tornou-se um local de lazer, de trabalho, bem como de descanso, onde a família pode juntar-se e fruir. Por isso, as pessoas procuram, mais do que nunca, habitações que as façam sentir confortáveis. O segmento de luxo, embora não acessível a todos, consolidou-se junto de quem já investia, antes da pandemia, no luxo e não prevejo que a tendência venha a inverter-se tão cedo. 

 

É expectável que haja ainda mais interesse até final do ano, tendo em conta, por exemplo, que haverá alterações ao regime dos vistos gold a partir de janeiro de 2022? 

 

Embora os incentivos existam e possam exercer alguma pressão positiva para que os negócios avancem, não vejo que quem procura imobiliário premium veja as alterações ao regime dos vistos gold como um “prazo” para as suas decisões. São investidores que não acumularam riqueza a fazer más escolhas e que não precipitam investimentos apenas porque podem. Penso que não serão muitos os casos em que esse seja o argumento base para pressionar um negócio no imobiliário. Além disso, a alteração do regime dos vistos gold pode trazer para o mapa algumas localizações que geralmente ficavam fora do radar de certos investidores.

 

Fala-se que há novas nacionalidades a investir no mercado imobiliário de luxo. Concorda? De onde são os “novos” estrangeiros que têm no radar o segmento residencial de luxo nacional? 

 

É verdade. Se há uma década ou duas os ingleses e os americanos prevaleciam na compra de imobiliário de luxo no nosso país, graças à força das moedas, hoje em dia o mercado está mais aberto e diversificado. Neste momento, as nacionalidades que mais estão a investir no segmento imobiliário de luxo são os franceses, os chineses e os brasileiros. 

 

Já se pensarmos de uma forma mais geral, são os casais compostos por pessoas de diferentes nacionalidades, ou seja, multiculturais, que mais apostam neste mercado. 

 

Os portugueses estão também muitos atentos e a investir neste segmento, certo? O porquê deste interesse?

 

Sim, os portugueses começam agora a investir neste mercado. Tal como os investidores estrangeiros, os nacionais procuram locais sossegados, espaçosos e seguros, perto do mar e do campo, sem precisarem de fazer grandes distâncias para usufruírem das vantagens dos centros urbanos. Além disso, com as taxas de juros em baixa a níveis históricos, o investimento em imobiliário é um porto seguro para quem procura investimentos de longa duração. 

 

O que esperar deste negócio (segmento residencial de luxo) até final do ano e, depois, no ano de 2022, já num período pós-pandemia (esperemos)?

 

A minha previsão é a de que o imobiliário de luxo continue a aumentar a sua receita, com uma procura progressiva e uma oferta equilibrada. 

 

A pandemia fez com que alguns investidores deixassem as suas decisões ‘on-hold’, por causa do fecho das fronteiras. Até ao final do ano vamos assistir à retoma desses processos e a um crescimento das movimentações, uma vez que os investidores já podem voltar a viajar. 

 

Em 2022, a expetativa dos ‘players’ é que a tendência se mantenha. Como referi, quem investia em luxo antes da pandemia continuará a fazê-lo após o fim das restrições. 

 

Que importância/relevância está a ter o imobiliário de luxo para impulsionar o setor da construção, que foi também ele um dos que melhor “lidou” com a pandemia?

 

Este segmento representa um nicho, mas os investimentos são volumosos e, a longo-prazo, seguros. Isto aliado aos atuais incentivos ao crédito e às baixas taxas de juro permite que represente um impulso à construção. 

 

Estão a ser construídas muitas casas novas de luxo? Que zonas do país são agora mais atrativas? Comporta e toda a zona em seu redor, por exemplo? E os centros das grandes cidades como Lisboa e Porto?

 

No caso da GesConsult, grande parte do negócio residencial particular pertence ao segmento de luxo. Temos em curso vários projetos de casas de luxo, especialmente em zonas com áreas maiores, fora da cidade e junto de locais sossegados e envolvidos pela natureza. Sintra, Cascais e Comporta, que foi recentemente eleita enquanto destino predileto a investimentos no imobiliário de luxo, destacam-se bastante neste segmento, por serem locais que oferecem privacidade e, principalmente, exclusividade. 

 

Os investimentos em Lisboa e no Porto também existem, mas com menos força e dentro de uma linha de habitações diferente. Os centros das cidades são, neste momento, procurados por famílias que preferem apartamentos com todos os extras que o luxo pode oferecer, junto de locais que oferecem serviços característicos de centros urbanos, como aeroportos, restauração e mesmo sedes de organizações.

 

É de esperar que haja mais celebridades a escolher Portugal para viver e/ou para investir em imobiliário? 

 

Claro que sim. O George Clooney, que comprou um lote de terreno na Comporta, é um dos exemplos noticiados mais recentes. As qualidades ímpares de Portugal permitem que uma grande percentagem de pessoas se identifique com o país e com aquilo que temos para oferecer. Monica Belluci, Madonna, Michael Fassbender… a lista continua, e com certeza atrairá outros.

 

O que ganha o setor da construção com o atual momento que se vive na área, nomeadamente no que diz respeito à mediação imobiliária de luxo?

 

Não é por acaso que falamos da fileira do imobiliário e da construção – são setores que funcionam em conjunto e que se alavancam conjuntamente. Quando a construção está em crise, a mediação imobiliária ressente-se disso. Por outro lado, quando a mediação não trabalha convenientemente o que o mercado tem para oferecer, a construção sofre com a falta de procura.

 

Neste sentido, quanto mais profissional e especializada for a mediação nos segmentos em que temos procura, melhor será também para quem constrói.

O que o preocupa mais atualmente no setor da construção? O que sente que é crucial mudar/corrigir?

 

O problema da falta de mão de obra qualificada continua a estar muito presente no setor. Lá fora, os salários são consideravelmente mais altos, ou seja, a retenção dos profissionais com experiência é um desafio. 

 

Também a escassez de materiais continua a trazer-nos dificuldades, com os atrasos na disponibilidade dos materiais e a subida abrupta dos preços. São, ambas, situações que começam a tornar-se insustentáveis.  

 

Adicionalmente, existe um hiato entre aquilo que a digitalização nos podia trazer e aquilo que, efetivamente, nos está a trazer. Ainda que o setor já tenha passado por mudanças vantajosas, burocracias como a associada aos licenciamentos, ou até mesmo às escrituras, têm rapidamente de passar para o digital.

 

Que tipo de casas são agora consideradas de luxo? O que mais se valoriza e que perfil de imóvel se procura?

 

O conceito de luxo é subjetivo e tem evoluído ao longo do tempo. Antes, era comum associar habitações de luxo aos centros das cidades, como na Avenida da Liberdade, em Lisboa. 

 

No entanto, deu-se uma mudança gradual nas necessidades dos compradores, que passaram a procurar casas na periferia. Esta é uma tendência que foi muito acelerada pela pandemia e, hoje, para quem tem poder de compra, aquilo que mais se valoriza são moradias com áreas grandes e privativas, em zonas sossegadas e envolvidas pela natureza.

 

As casas de luxo serão, no futuro próximo, tendencialmente resultado de reabilitação ou construção nova?

 

Um misto das duas, embora em localizações diferentes. Nas cidades, é graças à reabilitação que muitos espaços têm ganho segunda vida e, pela localização privilegiada que apresentam, acabam por integrar um segmento que não está acessível a uma família média. Colocam-se também questões de preservação histórica e patrimonial, que fazem com que, em muitos casos, se mantenha a traça original das casas ou prédios, ao invés de demolir para construir novo. Em termos de construção nova, as casas de luxo estão a surgir descentralizadas, em zonas periféricas e com condições de envolvência exterior que não são possíveis nas cidades.

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