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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Processos mais burocráticos e dispendiosos e necessidade de adaptação foram algumas das dificuldades sentidas pelas exportadoras portuguesas face à saída do Reino Unido da Europa.

Um mês depois da saída do Reino Unido da Europa, as exportadoras portuguesas enfrentam algumas dificuldades e ainda estão a adaptar-se ao Brexit. Do calçado, ao têxtil, sem esquecer a indústria alimentar, o tecido industrial português considera que o Brexit trouxe processos mais burocráticos e dispendiosos, embora o impacto não seja tão negativo como se antecipava.

 

“Com o Brexit o processo está mais burocrático e tem custos mais elevados”, diz o presidente da Lavoro. “

O Brexit tornou o processo mais complicado e foi necessário adaptar as propostas para o mercado inglês”, conta a nova acionista da Mariano Shoes. Para o administrador da Primor “exportar para o Reino Unido tornou-se mais exigente”.

 

O Reino Unido é o quarto maior cliente de produtos made in Portugal, atrás de Espanha, França e Alemanha. Os sapatos de luxo da Mariano Shoes são um deles. Face à importância deste mercado, a empresa foi obrigada a adaptar-se a uma nova realidade. “Alguns produtos deixaram de ser disponibilizados para o Reino Unido e foi necessário rever a forma como os nossos preços estavam a ser apresentados. Tentamos que o consumidor final não fosse penalizado com incremento de custos”, diz a nova acionista desta marca que conta já com 75 anos de história, Fátima Oliveira.

 

Para a Primor, “exportar para o Reino Unido tornou-se mais exigente” e o administrador explica o porquê: “Somos uma empresa que exporta produtos frescos, com validades muito curtas, o tempo de trânsito tem de ser bem cumprido. O risco de constrangimento do transporte podem pôr em causa o cumprimento dos requisitos do cliente ao chegar ao destino”, conta Amândio Santos.

 

Muitas empresas britânicas se queixam da forma como as suas cadeias de distribuição foram afetadas, com o maior aumento de sempre nos tempos de entrega das encomendas, de acordo com o indicador Purchasing Managers Index (PMI) da IHS Markit.

 

Mas nem todos estão a ser afetados da mesma forma. A Bi-Silque, fabricante de comunicação visual que exporta cerca de 20% da produção para o Reino Unido — o seu segundo maior mercado, a seguir aos EUA — garante ao ECO que “o Brexit não alterou de forma substancial a estrutura da empresa” e que as encomendas têm sido entregues com normalidade. “Passado quase um mês, mantivemos o volume de encomendas dos anos anteriores e estas têm sido entregues sem grandes constrangimentos”, destaca o business development manager da Bi-Silque no UK, Ireland & MiddleEast, Amit Manilal. A multinacional conta com uma empresa filial no Reino Unido, um escritório e um centro distribuição há mais de 20 anos.

 

Para a fabricante, o acordo embora tenha sido alcançado no último minuto “veio facilitar a operação e a viabilizar a manutenção da competitividade neste que é um dos principais mercados para muitas empresas nacionais”. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE) são 2.848 empresas portuguesas que exportam para o Reino Unido, embora os dados sejam de 2019.

 

Brexit tornou os processos mais burocráticos e dispendiosos

Todas as empresas ouvidas pelo ECO destacam que com a saída do Reino Unido da União Europeia, os processos tornaram-se mais burocráticos e dispendiosos. “Fomos todos confrontados com o aumento da carga burocrática”, diz Amândio Santos. O administrador da Primor queixa-se que o aumento da burocracia faz encarecer todo o processo. “É mais caro exportar para o Reino Unido logo a começar pelos processos internos. Hoje temos uma maior carga administrativa e é preciso alocar recursos para a cumprir”, refere Amândio Santos.

 

Já em outubro a Direção Geral das Atividades Económicas (DGAE) alertava as empresas nacionais que, a partir de 1 de janeiro, o aumento dos controlos aduaneiros ia “acarretar custos mais elevados para as empresas (por exemplo, relativos ao desalfandegamento, à armazenagem, à preparação de documentação, ao cumprimento de conformidades) e a prazos de entrega mais longos nas cadeias de abastecimento (o que poderá implicar alterações significativas na organização dessas cadeias)”.

 

“O tratamento administrativo das importações sendo mais burocrático tem custos mais elevados”, atesta o presidente do conselho de administração da Lavoro, Teófilo Leite. E exemplifica que, no caso da Lavoro, todo o processo de importação e exportação pode variar entre os 30 a 50 euros por fatura.

 

Fátima Oliveira conta que com Brexit as empresas passaram a preencher o documento relativo às exportações extracomunitárias e que “alguns operadores passaram a aplicar uma sobretaxa nos envios para o Reino Unido”. Na ótica da empresária, a burocracia aumentou, mas é “administrativamente comportável”.

 

Mas, mesmo não existindo tarifas adicionais — algo que ficou salvaguardado com o acordo –, tornou-se mais caro exportar para o Reino Unido. “Se assumirmos o aumento da papelada (custos administrativos) como um custo acrescido relevante, nesse caso, teremos que admitir que ficou, de facto, mais caro exportar para o Reino Unido”, conta Amit Manilal, da Bi-Silque. Exportar para o Reino Unido não se tornou mais difícil, mas sim “diferente“, explica. “Há de facto mais papelada / burocracia, mas temos uma supply chain bem oleada e estabelecemos parcerias locais que nos facilitam o processo aduaneiro”, conta o business development manager da Bi-Silque no UK, Ireland & Middle East. Ainda que tenha sido o departamento de logística que enfrentou o maior desafio ao ter de se adaptar a uma nova realidade, após um ano que já foi atípico por si só, devido à pandemia.

 

As empresas britânicas já tinham alertado para subida de preços devida a controlos fronteiriços., o que pode pôr em causa a competitividade da economia britânica. De acordo com a última sondagem da Confederação da Indústria Britânica, a confiança dos industriais britânicos em conseguirem competir no mercado europeu caiu para o nível mais baixo de desde que há registos, que começaram há 20 anos.

 

O líder da Lavoro, empresa especializada em calçado de segurança que exporta cerca de 15% da produção para o Reino Unido, confirma que “é mais caro exportar para o Reino Unido” e que isso vai repercutir-se essencialmente “nos preços do importador que sabe a priori que tem que pagar isso tudo”, destaca Teófilo Leite.

 

Apesar de estar mais caro exportar para o Reino Unido, empresas como a Mariano Shoes e a Bi-Silque decidiram não aumentar os preços. “Optámos por internalizar esse ónus e não aumentar os preços, para que possamos continuar competitivos a todos os níveis, pois concorremos no mesmo mercado com empresas que produzem no Reino Unido, Europa, mas também no extremo Oriente”, explica Amit Manilal.

 

A importância de ser REX

As empresas nacionais foram ainda confrontadas com uma quebra das encomendas. A Primor, fabricante de produtos de carne, conta que sentiram“uma menor disponibilidade dos operadores para se abastecerem no final / início do ano. Houve claramente uma contração das encomendas no mês de dezembro e janeiro. Registou-se uma pressão enorme ao nível logístico, nomeadamente no custo dos transportes”, constata o administrador da Primor, Amândio Santos.

“Os operadores continuam cautelosos, com menor disponibilidade de transporte e mais dispendioso”, destaca a diretora executiva da PortugalFoods.

 

Com o Brexit, as empresas precisam do estatuto REX para agilizar as exportações, mas são poucas as que o têm. A diretora executiva da PortugalFoods, Deolinda Silva, lamenta que as empresas tenham sido apanhadas desprevenidas. “A nível burocrático existem empresas que foram apanhadas desprevenidas, visto passar a ser obrigatório terem o registo de exportador autorizado (REX)” para a certificação da origem das mercadorias para este mercado”, frisa. Um registo que é obrigatório para remessas superiores a seis mil euros, lembra Teófilo Leite.

 

“É natural que os novos procedimentos levem a entraves e atrasos, afetando as exportações”, admite Deolinda Silva.

“Neste momento, há milhares de empresas portuguesas com pedidos formulados junto da Autoridade Tributária a Aduaneira e que desesperam pela atribuição de um número de registo sem o qual não podem exportar para o Reino Unido”, denuncia o líder da Lavoro. “Esperamos que a Autoridade Tributária e Aduaneira perceba o que está em causa para a economia nacional e haja com a maior diligência para que não se agravem as dificuldades que as empresas já sentem nesta conjuntura pandémica”, apela o responsável pela empresa conhecida por calçar os “guerreiros da pandemia”.

 

A Bi-Silque já conta com este estatuto. “Na nossa fábrica, temos todas as certificações nacionais e internacionais. Algumas delas são mesmo obrigatórias no processo de exportação e outras foram obtidas como uma decisão estratégica, para garantir uma maior fluidez nos processos”, conta o business development manager da Bi-Silque no UK, Ireland & MiddleEast desta empresa de Esmoriz, que exporta 98,7% da produção para mais de 90 países.

 

Perante as dificuldades, a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), confirma ao ECO que existem empresas que têm procurado ajuda com questões no âmbito do Brexit. “A Agência tem procurado dar apoio, sobretudo respondendo às suas dúvidas e identificando oportunidades de negócio neste contexto ou encaminhando para outras entidades competentes, como a Autoridade Tributária e Aduaneira, no caso de questões de natureza fiscal e aduaneira”.

 

Mas as empresa vão poder contar ainda com outro apoio. A União Europeia criou uma nova reserva de ajustamento para apoiar os setores económicos mais afetados pela saída do Reino Unido do mercado único Na primeira tranche, a ser distribuída este ano, Portugal deverá receber pelo menos 58,3 milhões de euros, sendo que a repartição ainda tem de ser aprovada pelos Estados-membros e pelo Parlamento Europeu. Ao todo, esta reserva está orçada em cerca de cinco mil milhões de euros para o total dos 27 Estados-membros para apoiar países, regiões e setores mais afetados pelo Brexit.

 

Indústria têxtil “imune” ao Brexit e não só

Se alguns setores como o calçado e indústria alimentar encontram algumas dificuldades com o Brexit, entre elas o processo mais caro e burocrático, o vestuário está a conseguir dar a volta por cima e por agora não está a enfrentar grandes dificuldades. Luís Guimarães, presidente da Polopiqué, empresa líder na indústria têxtil de vestuário, admite “não estar a sentir dificuldades adjacentes ao Brexit”, até pelo contrário — já faturou meio milhão só no mês de janeiro oriundo desse mercado. O ano passado, a Polopiqué exportou 5% da produção para o Reino Unido, mas o presidente do grupo está confiante que este ano a percentagem seja de 10%.

 

“Até ao momento não estamos a sentir dificuldades em exportar para esse mercado. O Reino Unido, a partir de 2018, tornou-se um mercado importante para a Polopiqué e, atualmente, representa mais de três milhões faturados. Em 2018 faturámos mais de 300 mil euros, em 2019 pouco mais de um milhão, em 2020 cerca de três milhões e em 2021 já vamos com meio milhão de euros e o mês de janeiro ainda não acabou. Perante o cenário, para nós o Brexit não está a ter um efeito negativo”, destaca o presidente da têxtil que empresa mil colaboradores e uma faturação em torno dos 110 milhões de euros.

 

De acordo com os dados que a Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP) forneceu ao ECO, em 2019, o peso das exportações têxteis e vestuário para o Reino Unido foi de 7,5%, apesar de ter vindo a cair ao longo dos anos. Em 2015, por exemplo era de 9%. Em 2020, o peso do Reino Unido ronda os 8%, isto até novembro, mesmo num ano completamente atípico devido à quebra abrupta das exportações. Na opinião de Luís Guimarães, as exportadoras estão a ser mais afetadas pela pandemia que propriamente pelo Brexit.

 

À semelhança da Polopiqué, a Bosch “não está a sentir impactos significativos para Portugal relacionados com o Brexit”. O representante da Bosch em Portugal, Carlos Ribas, já tinha adiantado ao ECO que o problema que a empresa enfrenta neste momento “é a falta de componentes elétricos no mercado. Isso é que nos está a prejudicar, a nós e aos nossos clientes”.

 

A juntar-se a esta lista, a Vista Alegre adiantou ao ECO que não está a sentir dificuldades inerentes ao Brexit, apenas uma maior carga burocrática. “Até ao presente tudo dentro da normalidade” e “as vendas processam-se de forma regular”. “Apenas registamos uma maior carga burocrática”, refere o administrador da Vista Alegre, Paulo Soares.

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