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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Responsável da promotora acredita que será sempre difícil convencer os investidores internacionais a apostarem nas regiões do interior de Portugal. "Se isto for para a frente desta maneira, provavelmente irão para outros destinos, sobretudo Espanha", diz.

A limitação do regime dos vistos gold nas regiões de Lisboa e Porto, de forma a incentivar a canalização destas verbas para investimentos no interior do país, aprovada em dezembro último pelo Governo, tem gerado mal-estar entre os promotores imobiliários. Apesar desta medida entrar em vigor apenas a 1 de julho deste ano, a alteração é vista como um passo atrás na captação de investimento estrangeiro para Portugal. "As pessoas não vão para o interior por decreto", afirma em entrevista ao Jornal Económico, o CEO da Vanguard Proper- ties, José Cardoso Botelho.


O responsável acredita que caso este cenário não se altere, os beneficiados serão outros países concorrentes. "Se isto for para a frente desta maneira, provavelmente as pessoas irão para outros destinos, sobretudo para Espanha, que está aqui ao lado". Comportamento semelhante terão também os investidores de outros mercados, como o Brasil, México, Africa do Sul ou Turquia. "Não vejo estas pessoas a irem viver para o interior", salienta, frisando a necessidade de se criarem condições no interior para cativar os investidores internacionais.


"Um problema muito referido por estes clientes é que Portugal tem poucos serviços para oferecer, e se formos para o interior ainda menos. Isto não é só dizer para investir em Freixo de Espada à Cinta, é preciso que depois exista lá um certo nível de serviços. Aliás, as empresas não vão para o interior porque lá não têm mão de obra e depois os custos de contexto são caros, desde as portagens nas autoestradas ao preço do combustível, que é altíssimo", explica o CEO.


José Cardoso Botelho sublinha que este tipo de iniciativas parecem estar condenadas ao insucesso, com a agravante de, neste caso, afectarem os sectores do imobiliário e do turismo, duas áreas capazes de captar maior investimento internacional e que tanta falta fazem ao país.


"Temos sempre de pensar que Portugal, por ter uma fiscalidade pouco atrativa para as empresas, quando comparada por exemplo, com a Irlanda, está a ter muita dificuldade em captar grandes investimentos. Portanto, senão captamos isso e depois prescindimos do imobiliário e turismo, não me parece que seja uma estratégia interessante para o futuro", diz, defendendo que não é tanto pelo valor da importância que os golden visa têm do ponto de vista económico-financeiro hoje em dia, mas da imagem que se dá ao mercado internacional.


De resto, e olhando para o ano de 2020, o CEO da Vanguard Properties realça que o maior impacto sentido na promotora não foi tanto pela pandemia, mas sim pela anunciada alteração ao regime dos vistos gold, mais concretamente para o projeto da torre Infinity', em Lisboa, composto por 26 pisos e 195 apartamentos, cuja conclusão está prevista para janeiro do próximo ano.
"Um dos nossos mediadores tinha feito uma iniciativa bem-sucedida no mercado de Hong Kong e quando foi anunciada esta alteração [do regime] em março de 2020, de que iam acabar, perdemos logo em definitivo 20 contratos por esse motivo, o que teve um impacto financeiro negativo a rondar os oito milhões de euros", salienta.


Em relação à pandemia propriamente dita, o responsável destaca que aquando da declaração do estado de emergência em março de 2020, os pedidos de informações sobre os imóveis desapareceram por completo, sendo que o processo de consulta de clientes recomeçou logo em abril e em maio já haviam negócios a ser fechados. "Desde então, com exceção do Algarve - que é um mercado pelo qual o cliente nórdico e inglês, e agora mais recentemente o alemão, tem bastante apetência, mas que com todas as restrições das viagens sofreu bastante mais - não houve cancelamento de reservas, mas sim adiamentos. Neste momento, estamos com muitas reuniões marcadas para os meses de março e abril com clientes destes mercados, veremos até lá se as coisas melhoram", afirma.


José Cardoso Botelho classifica o ano de 2020, como "bastante interessante" e, em específico, para o projeto Muda Reserve, localizado na freguesia da Comporta, onde 90% das quintas foram vendidas após o primeiro estado de emergência e com o responsável a mostrar-se confiante de que até ao final do mês de janeiro consiga alcançar os 100%. "Há muita gente a querer sair das cidades, estrangeiros a quererem vir para Portugal e a procurarem terrenos de grande dimensão e mais longe dos centros urbanos", refere.


Entre os clientes internacionais que mais procuram Portugal para viver estão os de origem britânica, algo que poderá vir a aumentar com o Brexit. "Creio que sim, porque o Reino Unido cometeu uma asneira monumental. Portugal tem muita qualidade de vida, segurança, um custo de vida muito inferior e o inglês é um cliente que consome e gasta, não é daquele que vai fazer compras ao supermercado para cozinhar em casa", frisa.


Quanto ao papel do cliente português, José Cardoso Botelho defende que deve existir cada vez mais um intercâmbio entre investidores portugueses e estrangeiros e dá como exemplo a sua parceria com o empresário francês Claude Berda, olhando já para os projetos em 2021. "Começámos as duas grandes infraestruturas da Comporta e estamos neste momento a desenhar toda a parte residencial e turística, é o nosso maior projeto. Vamos ainda lançar um condomínio de super luxo, o The Shore, junto à Quinta do Lago, no Algarve. E estamos a olhar para alguns novos investimentos na costa alentejana e no Algarve", sinalizando também o projeto do Rive bank para um segmento mais baixo em Lisboa, que está dependente do licenciamento. "Está a ser de facto um problema e se este projeto não correr bem, não voltamos a fazer mais nenhum na classe média-alta", explica. O CEO perspetiva ainda a retoma do sector durante o primeiro semestre.


"No nosso segmento estou a ver as coisas bem animadas. Vejo mais dificuldades nos segmentos mais baixos, até porque a clientela portuguesa com esta história das moratórias e o aumento do desemprego vai passar por um período terrível. Mais uma razão para que não se reduza o investimento estrangeiro", conclui.

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