NewDetail

AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Dono turco da cimenteira quer aproveitar a marca para levar o negócio para outros países e vai apostar na energia fotovoltaica para reduzir custos.

O CEO da Cimpor espera que em 2021 a cimenteira dê já os primeiros passos na estratégia de crescimento internacional, admitindo que possa vir a suplantar até a dimensão que teve no passado. Aquisições estão em cima da mesa.

Apesar da quebra de 30% das vendas para mercados ex ternos, a Cimpor cresceu em 2020. Para 2021 Luís Fernandes acredi ta que o grupo já possa dar passos na expansão internacional.


Apesar da pandemia, o setor da construção nunca parou. Como foi 2020 para a Cimpor?


Na vertente do mercado interno houve até um ligeiro acréscimo do volume de vendas porque a construção não parou e houve um aproveitamento das pessoas que estavam em casa para fazer deter minadas obras e isso sentiu-se no consumo de cimento ensacado. No que diz respeito às exportações temos sido afetados porque os mercados internacionais fecharam-se. Nós exportamos muito na Europa, para Reino Unido e Manda, e para os mercados de África, que foram muito afetados.

Quanto caíram as exportações?


Face ao ano passado [2019] as exportações estão [em 2020] a cair 30%. Mas globalmente podemos dizer que houve uma melhoria face a 2019. Esperamos um resultado um pouco melhor em 2020do que o de 2019. Em termos de pandemia só nos últimos dois meses é que te - mos sido mais afetados com o aumento de casos em trabalhadores.

Foi necessário encerrar alguma unidade?


Na área dos cimentos não fechámos nenhuma Só uma pedreira é que teve de fechar.


A Cimpor encolheu nos últimos anos, quando o negócio de Portugal e Cabo Verde foi adquirido pelo grupo Oyak. Há alguma estratégia para que a empresa volte a crescer e a expandir-se para novos mercados ? Há A Cimpor foi adquirida vai fazer agora, em janeiro, dois anos pelo fundo militar turco Oyak, que aposta na marca e no nome Cimpor para a expansão, uma vez que a Cimpor já é conhecida internacionalmente há muitos anos. Essa expansão já está a ser feita nalguns países em Africa, com um investimento em instalações para se expandir e desenvolver o negócio para lá A informação que há partilhada pelo nosso acionista, é que não fica por aqui, quer engrandecer o grupo, torná-lo um grande grupo internacional, um "player" internacional no negócio do cimento. Daí a compra estratégica da Cimpor, pelo reconhecimento da competência e "knowhow" que existe cá dentro. Essa competência foi uma das componentes que levou a que a Oyak investisse na Cimpor. E quer aproveitar obviamente a marca para a sua estratégia de expansão internacional.

Qual vai ser essa estratégia?


Há várias hipóteses que estão em cima da mesa, mas nesta altura nada se pode adiantar. Espero que em 2021 já haja notícias. Tudo está em análise, depende de oportunidades.


A Cimpor emprega hoje quantas pessoas?


No total, nos vários negócios, empregamos pouco mais de 900 pessoas. Estamos numa fase de rejuvenescimento e é bom entrar sangue novo quando temos estas expectativas de investimento.

É possível a Cimpor voltar a ter um lugar entre as grandes cimenteiras do mundo?


O posicionamento da Cimpor não é hoje o mesmo que já teve,mas a expectativaé de crescimento e até suplantar o posicionamento que tinha há uns anos atrás. Também há uma diferença grande face há uns anos porque houve concentração dos grandes "players" mundiais, como aconteceu com a Lafarge e Holcim. Hoje o panorama mundial é diferente e temos cada vez mais a presença de empresas da China, que se vêm expandindo.

Faz sentido a Cimpor avançar com aquisições?


Faz. No âmbito desta estratégica do acionista, numa lógica de expansão do negócio, faz sentido. A intenção é de crescimento com o nome Cimpor e tornar-se grande "player" a nível mundial. Essa é a estratégia do acionista

Pode vir a ser maior do que já foi?


Exatamente. É uma empresa que vai ter muito futuro. Essa é a intenção do acionista e foi com essa intenção que fez a aquisição da Cimpor.

Em 2021 podem já ser dados passos nessa estratégia?


Sim, sim. Em 2020, como foi um ano atípico, todas estas estratégias foram de "cool down". Aguardamos que isto amenize para irmos em frente.


0 Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) já vai fazer a diferença no próximo ano?


No que diz respeito ao investimento da empresa, o setor já apresentou no Ministério da Economia alguns projetos no âmbito do PRR, nomeadamente na descarbonização da indústria e eficiência energética Esperamos que haja alguma contribuição do apoio que virá da União Europeia porque alguns projetos só com apoio é que serão viáveis. No que diz respeito ao mercado do cimento, acredito que só em 2022 se possa fazer sentir o impacto deste programa Pensamos, com a informação que temos, que o plano arranca já no último trimestre de 2021 e que o efeito será em 2022.

Cimenteira irá produzir energia fotovoltaica a partir das pedreiras

A Cimpor Portugal e Cabo Verde, que vai investir 100 milhões de euros para reduzir as emissões de C02 até
2030, tem vários projetos para baixar a fatura da energia.


A Cimpor vai investir em 2021 num projeto para a produção de energia fotovoltaica, adiantou ao Negócios Luís Fernandes, presidente executivo da cimenteira que há cerca de dois anos foi adquirida pelo grupo turco Oyak.


O responsável salienta que "a energia em Portugal é cara", sendo este um custo que pretende reduzir de forma a ganhar competitividade. Por essa razão, adiantou, "já temos um projeto, que vai ocorrer em 2021, de investir em produção de energia fotovoltaica", que vai "contribuir para reduzirmos a dependência do exterior e baixarmos a fatura com energia elétrica". O projeto passa por utilizar as pedreiras da empresa, onde existem "áreas consideráveis para instalar os painéis fotovoltaicos". A cimenteira tem já previsto um primeiro investimento "ainda relativamente pequeno" para, diz Luís Fernandes, "ganharmos experiência para depois termos mais centrais com maior produção".


Outro dos projetos que o grupo tem previsto para reduzir esta fatura é "a auto geração de energia com recurso ao calor dos fornos, que pode permitir reduzir a nossa dependência energética numa linha de produção até cerca de 25%", afirma o responsável.


São várias as iniciativas que a Cimpor quer desenvolver na área da sustentabilidade até 2030, nas quais quer investir cerca de 100 milhões de euros para reduzir em 37% as emissões de CO2. Uma das metas passa por aumentar a substituição de combustíveis fósseis por fontes alternativas de energia dos atuais 30% para 70%, evitando as deposições em aterro e o uso de combustíveis poluentes.

Em entrevista ao Negócios, o presidente executivo da Cimpor


Portugal e Cabo Verde salienta que a estratégia atual "passa por garantir a sustentabilidade da empresa, ambiental, social e económica" e "daí o nosso compromisso para a redução das emissões". Para Luís Fernandes, o investimento de cerca de 100 milhões de euros "é uma aposta nítida do acionista em querer desenvolver a Cimpor, porque a componente da sustentabilidade é fundamental para o futuro da empresa".


Na fábrica de Alhandra quer aumentar a capacidade de utilização de resíduos não perigosos, acreditando o responsável que ainda este mês terá a licença formalizada, mas há também planos para as outras unidades do grupo.


Neutralidade vai exigir tecnologia disruptiva


A Cimpor quer reduzir em 37% as emissões até 2030 e, à semelhança da indústria europeia, atingir a neutralidade carbónica em 2050. Luís Fernandes salienta a intenção de atingir uma taxa de substituição de combustíveis fósseis por alternativos de 70%, frisando que há já fábricas na Europa - na Alemanha e na Áustria - que atingiram os 100%.


Além dos investimentos na área energética, o responsável explica que o grupo pretende ainda produzir cimento com menos incorporação de clínquer. Nesta matéria tem previstos investimentos em I&D (investigação e desenvolvimento) num projeto para desenvolver um novo tipo de clínquer com menos emissões de CO2.


"A nossa aposta até 2030 é utilizarmos tudo o que já conhecemos. Após 2030, para atingirmos a neutralidade carbónica em 2050, será à custa de tecnologias disruptivas que estão numa fase inicial nesta altura e que vão demorar algum tempo até que estejam totalmente desenvolvidas e possam ser aplicadas", explica.


Luís Fernandes assegura ainda que a Cimpor está interessada e irá participar no projeto que o país tem para o hidrogénio, mas o seu plano estratégico para 2030 não contempla ainda esta área por haver "alguma indefinição".


Sobre o regime de Comércio Europeu de Licenças de Emissão (CELE), o CEO assegura que o objetivo atual da Cimpor "não é fazer negócio com o CO2" vendendo licenças, mas que a empresa "até ao momento também não teve de comprar". No entanto, admite que, na quarta fase do CELE, que arrancou neste início de 2021, "muito provavelmente vamos ter comprar".

A sustentabilidade ambiental, social e económica é fundamental para o futuro da empresa.
LUÍS FERNANDES
CEO da Cimpor Portugal e Cabo Verde

70%
ENERGIA ALTERNATIVA
A Cimpor quer aumentar a taxa de substituição de combustíveis fósseis por fontes alternativas de 30% para 70%.


PERFIL
CEO com cinto negro 5.° Dan
Luís Alves Fernandes nasceu em setembro de 1956 e licenciou-se em engenharia mecânica pelo Instituto Superior Técnico em 1980. Nesse ano iniciou o seu percurso profissional na ProFabril, entrando três anos depois na Cimpor. Na cimenteira, desempenhou ao longo dos anos vários cargos, como o de d iretor da fábrica de Alhandra a líder dos negócios do grupo na China e índia. Após a OPA da Intercement assumiu o cargo de CEO da Cimpor Portugal e Cabo Verde e foi ainda vice-presidente da Intercement para a área EM EA, assumindo em janeiro de 2018 o cargo de CEO da Cimpor SGPS. Com a entrada da Oyak em janeiro de 2019 é até ao momento CEO da Cimpor Portugal e Cabo Verde. Praticante de karaté desde 1973 até agora (onde é mais conhecido como Luís Alves) é cinto negro 5.° Dan.

Partilhar