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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Os investimentos anunciados para a ferrovia nacional deixam antever novas oportunidades para a atividade turística, que olha para o comboio como um instrumento promissor para desenvolver um novo produto, com inegáveis vantagens ambientais e económicas, mas com tantos outros desafios.

“Hoje é um dia histórico para a ferrovia nacional”. Foi desta forma que, a 15 de julho, o ministro das Infraestruturas e da Habitação, Pedro Nuno Santos, anunciou um concurso para adquirir 117 automotoras elétricas, num investimento de 819 milhões de euros, que é a maior compra de comboios de sempre da CP – Comboios de Portugal.


A aquisição de novo material circulante era mais do que necessária – já que, como explicou o ministro, existem composições em circulação com mais de 70 anos – e chega acompanhada da criação de um Centro de Competências Ferroviárias e da autorização dos concursos para “a elaboração dos estudos e projetos necessários para a concretização do próximo ciclo de investimento ferroviário”, tudo graças ao novo quadro financeiro plurianual europeu.


Para planificar os investimentos na ferrovia nas próximas décadas, Portugal tem ainda em elaboração o Plano Ferroviário Nacional (PFN), que deverá estar pronto em junho de 2022 ou 2023, já que o prazo do despacho é prorrogável por um ano, e que visa levar a ferrovia “a todas as capitais” de distrito, reduzir o tempo de viagem entre Lisboa e Porto e promover melhores ligações da ferrovia às infraestruturas portuárias e aeroportuárias.


A aposta anunciada para o caminho-de-ferro nacional, que estava há muito prometida e que é vista como essencial para aumentar a mobilidade de forma mais amiga do ambiente e a preços mais acessíveis, foi impulsionada pela União Europeia (UE), que declarou 2021 como o Ano Europeu da Ferrovia e dedicou parte da ‘bazuca europeia’ e do novo quadro comunitário ao desenvolvimento e modernização deste tipo de transporte.

 

Mas, além das vantagens para a mobilidade, a aposta na ferrovia permite também desenvolver um tipo de oferta turística associada ao caminho-de-ferro, que parece estar já na mira das autoridades turísticas nacionais. No Orçamento do Estado para 2020, o Governo estabeleceu o objetivo de “desenvolver um programa de turismo ferroviário” e, em setembro de 2020, lançou o Revive Ferrovia para levar nova vida às antigas estações ferroviárias desativadas e reforçar a oferta disponível para este tipo de turismo. “O conceito de turismo ferroviário como experiência é um produto que, criando condições de oferta, terá certamente procura”, diz ao Publituris a eurodeputada portuguesa Cláudia Monteiro de Aguiar e membro da Comissão de Transportes e Turismo do Parlamento Europeu, destacando, no entanto, que, a este nível, “os desafios são gigantes tanto para a União, como para Portugal”, uma vez que é necessário “modernizar as linhas e reforçar a qualidade dos serviços”, ultrapassar “obstáculos regulamentares” e “harmonizá-los a nível europeu”. “Só assim tornaremos este segmento competitivo face, por exemplo, ao transporte aéreo”, aponta.

 

Potencial


Os dados mais recentes da Organização Mundial do Turismo (OMT) indicam que, em 2019, o comboio, como transporte utilizado para turismo de lazer, representou apenas 1% das viagens, enquanto, a nível europeu, foi utilizado por 5% dos residentes em turismo de lazer, em 2016. Apesar de mostrarem que o comboio continua a ser preterido face ao avião, que foi o meio de transporte eleito por 59% dos turistas em 2019, os números também mostram o potencial de crescimento do comboio, um meio de transporte mais amigo do ambiente, que vai ao encontro da atual tendência de procura por experiências autênticas e sustentáveis.


Em Portugal, a oferta continua a ser escassa e a resumir-se aos comboios históricos do Douro e do Vouga (ver caixa), operados pela CP – Comboios de Portugal, que não respondeu ao Publituris alegando questões estratégicas e a incerteza associada à pandemia da COVID-19, que torna “complicado traçar cenários para o setor de turismo ou estabelecer previsões de evolução da procura”, de acordo com fonte da empresa.


Cláudia Monteiro de Aguiar, que destaca o “potencial que os caminhos-de-ferro têm para fomentar o desenvolvimento do turismo sustentável de forma global na Europa e de forma particular em Portugal”, considera que, “se Portugal revitalizar este produto turístico, irá usufruir do efeito multiplicador que o turismo representa e gerará receitas adicionais para a própria ferrovia”.


Opinião idêntica tem a Universidade Europeia, que lançou o programa Tourism Train Experience com o Turismo de Portugal para estimular o desenvolvimento de projetos relacionados com a ferrovia em territórios com menor procura turística, e que estranha “como é que um país que está entre os mais visitados do mundo, cuja situação periférica dificulta o contacto com outros europeus, que tem prémios internacionais pelo bom serviço e organização, embora com um reconhecido défice no transporte internacional, ainda não decidiu pela aposta na ferrovia”. Para o estabelecimento de ensino superior, a aposta na ferrovia permitiria valorizar “um dos principais aspetos diferenciadores do destino Portugal: a diversidade concentrada”.


Portugal tem boas condições para desenvolver o turismo ferroviário e, acrescenta a APAC – Associação Portuguesa dos Amigos dos Caminhos-de-Ferro, até “apresenta inúmeras vantagens quando comparado com os restantes países da Europa”, desde logo, porque possui “itinerários fantásticos por explorar”, como as linhas da Beira Baixa, do Algarve ou do Tua que, por terem sido pouco atualizados nas últimas décadas, “mantêm características muito interessantes para o turismo ferroviário – são traçados tipicamente mais sinuosos, com menos túneis, mais cénicos”.


Também a Vila Galé acredita nesse potencial, com Jorge Rebelo de Almeida a afirmar que “seria possível ter produtos e experiências diferenciadoras com base em viagens de comboio temáticas ou que liguem regiões que não beneficiam, ou deixaram de beneficiar, de ligações ferroviárias”.


Para o presidente da Vila Galé, que em 2017 promoveu o “Comboio temático do Alentejo”, o caminho-de-ferro pode ser “estruturante em termos turísticos”. “Quisemos promover a cultura alentejana, mas principalmente alertar para o potencial da ferrovia, como meio de deslocação de turistas, mas também a outros níveis, dado o seu impacto na economia e maior sustentabilidade. Quisemos mostrar o quanto seria importante estimular o transporte ferroviário, que poderia ser estruturante em termos turísticos”, explica.

 

Público e benefícios


Além das vantagens ambientais, o turismo ferroviário também “pode ser um instrumento muito importante sobretudo para promover atividades económicas alternativas em zonas do país de menor densidade populacional mas que têm atrativos turísticos importantes”, indica a APAC, que considera que este turismo “pode chegar a quase todos os públicos”. “Não é só quem gosta de comboios ou quem gosta de andar de comboio que adere aos comboios turísticos. É também quem quer viver a experiência de ver uma determinada paisagem de outro ângulo”, acrescenta a associação.

Opinião idêntica tem a Universidade Europeia, que diz que o turismo ferroviário “incentiva à descentralização dos turistas em prol de regiões com elevada potencialidade para o desenvolvimento da atividade turística”, atraindo essencialmente as gerações mais novas, onde se encontra o “discurso eco”.


Jorge Rebelo de Almeida acrescenta que este turismo teria ainda a vantagem de “diversificar a oferta, de diferenciar Portugal e até de posicionar o país como destino mais amigo do ambiente e sustentável”, sendo também “muito eficaz” para “distribuir melhor os turistas por todo o país, levando-os ao interior e aliviando zonas onde pudesse haver maior sobrecarga”.


Já Cláudia Monteiro de Aguiar sublinha que, ainda que “a procura de viagens seja influenciada por múltiplos fatores”, é preciso ver que a pandemia “trouxe uma tendência para experiências em destinos mais remotos, isolados, de contacto com a natureza no interior dos países”. Ainda assim, refere, o turismo ferroviário é genericamente “procurado por pessoas que se preocupam com a causa ambiental, que procuram uma experiência mais autêntica e são adeptas de um slow tourism”. “O mercado sénior poderá ser um público-alvo, porque tem mais tempo para viajar, maior disponibilidade financeira e porque procura um registo de viagem ou férias mais slow e experimental. Depois, temos as gerações mais novas que procuram experiências autênticas e mais sustentáveis”, explica, considerando que “Portugal não pode descurar” esta geração, que viaja “de forma mais independente e sempre orientada”.

 

Estratégia e desafios


Mas, como lembra a APAC, este tipo de turismo não se foca apenas na “perspetiva da operação ferroviária”, sendo necessário criar oferta integrada que permita colocar as infraestruturas ao serviço do turismo.


E foi com o objetivo de criar oferta que o Governo lançou o Revive Ferrovia. O projeto conta com 30 imóveis no Norte e Alentejo para reabilitação, à semelhança do que acontece no programa Revive, que reabilitou e colocou ao serviço do turismo e hotelaria vários edifícios históricos. Apesar de não ser conhecido qualquer feedback do Revive Ferrovia e da Secretaria de Estado do Turismo e o Turismo de Portugal terem recusado responder ao Publituris, o certo é que o programa parece agradar ao setor, como Jorge Rebelo de Almeida, que considera que este “pode ser um ponto de partida e uma forma de pôr a ferrovia e o turismo ferroviário na agenda”.

 

O presidente da Vila Galé defende, no entanto, que é necessária a “articulação entre todos os intervenientes no âmbito das infraestruturas, material circulante ou questões operacionais para estimular esta aposta”, numa opinião partilhada pela APAC, que diz que “as entidades regionais promotoras do turismo têm um papel fundamental a desempenhar para permitir ligar a oferta ferroviária com o setor hoteleiro e restauração, com o setor cultural e até com atividades ou experiências particulares”.

 

Por isso, para a associação, “o grande desafio é a integração”. “Se vemos que o comboio atrai tanta gente e que é uma experiência tão distinta, temos de conseguir unir os vários atores do turismo que direta e indiretamente poderão beneficiar com o turismo ferroviário – com mais sinergias, conseguiremos viabilizar mais corredores e mais produtos”, defende.


Mas o desenvolvimento de uma oferta integrada não é sinónimo de sucesso, alerta Cláudia Monteiro de Aguiar. “Se queremos utilizar a ferrovia para o turismo de lazer precisamos de torná-la competitiva e focada no cliente, por exemplo, através da digitalização do setor permitindo aos consumidores informações em tempo real sobre as ofertas de viagem, as tarifas e os horários, facilitando a compra de bilhetes e proporcionando soluções de viagem porta a porta sem descontinuidades”, diz, defendendo a eliminação das “barreiras administrativas, regulamentares e tecnológicas para se construir um verdadeiro espaço ferroviário europeu unificado”.


Já as “lacunas na linha ferroviária nacional” são, de acordo com a Universidade Europeia, um dos principais desafios, com o estabelecimento de ensino superior a dar como exemplo o Alentejo, onde existem muitas “missing lines”, num exemplo que também é mencionado por Cláudia Monteiro de Aguiar, que considera que “caso este panorama não seja alterado, o transporte ferroviário será sempre preterido face a outros”.

 

Futuro


A aposta no turismo ferroviário parece estar a começar e, como explica Cláudia Monteiro de Aguiar, os fundos europeus vão desempenhar um papel fundamental para criar condições para que este tipo de turismo ganhe expressão. “A “bazuca europeia” e os respetivos planos de recuperação e resiliência (PRR), com as metas que implicam alocar 37% do montante a objetivos climáticos e 20% à digitalização, obrigam indiretamente os Estados-membros a aplicarem estes montantes para projetos de mobilidade sustentável. Dentro desta componente surge a aposta na modernização das vias ferroviárias”, explica a eurodeputada do PSD.


No entanto, no caso de Portugal, diz Cláudia Monteiro de Aguiar, o PRR “tem uma verba de 967 milhões de euros para o transporte sustentável, que apesar de pequena, apresenta um problema maior, está demasiado focada na orla litoral e nos grandes centros urbanos”, o que deixa de fora “o objetivo da descarbornização nas cidades do interior e a correção de assimetrias existentes no que toca à coesão territorial”. “Infelizmente até o próprio setor do Turismo tem uma componente reduzida no PRR não fazendo jus à importância e ao peso do mesmo na economia”, acrescenta, lamentando ainda que o plano estratégico do Governo também esqueça “a união de forças” e uma colaboração que permitisse “ter iniciativas conjuntas entre as entidades e operadores ferroviários, entidades responsáveis pela promoção do turismo, dos destinos e os operadores turísticos”.


Opinião diferente tem a APAC, que considera que o plano estratégico pode ser “uma oportunidade fantástica para apostar em produtos mais ambiciosos”, como a “recuperação de composições ainda mais notáveis e que suscitem maior interesse”. Já em relação à ‘bazuca europeia’, a associação mostra-se mais cautelosa, até porque ainda está a aguardar a “definição de alguns programas de âmbito algo genérico”, ainda que considere que “haverá certamente oportunidade para desenvolver produtos novos”, apesar de defender que o setor não pode “ficar à espera da dita “bazuca” para outro tipo de apostas”.

 

Comboios históricos regressam ao Douro e ao Vouga


Apesar de Portugal contar atualmente com uma oferta limitada no que aos comboios turísticos diz respeito, a CP – Comboios de Portugal voltou a operar, este verão, os comboios históricos do Douro e do Vouga.


No Douro, o comboio liga as estações da Régua e Tua, todos os sábados, de 5 de junho a 30 de outubro, bem como ao domingo, entre 1 de agosto e 10 de outubro, enquanto na linha do Vouga, a viagem liga a estação de Aveiro a Macinhata do Vouga, e as próxima viagem está agendada para 11 de setembro.

 

No Douro, os preços começam nos 45 euros por adulto, mas existem preços para grupos com 10 ou mais pessoas que baixam o valor para 40 euros, enquanto as crianças pagam 20 euros. Já no Vouga, os preços começam nos 30 euros por adulto, descendo para 26,50 euros em grupos de 10 ou mais pessoas, e as crianças pagam 16,50 euros.


Em abril e maio, a CP promoveu também algumas viagens na linha do Vouga num comboio movido por uma locomotiva a vapor e composto por várias carruagens históricas do início do século XX.

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