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CABEÇALHO

Inteligência Artificial, crise climática e turismo são segmentos que prometem impactar a indústria da moda. Numa altura em que a indústria veja 2024 com “incerteza”, a McKinsey e o Business of Fashion preveem uma desaceleração, ainda que fraca no mercado de luxo.

Os líderes da indústria da moda já escolheram a palavra que vai definir o próximo ano: “incerteza”. Depois de um 2022 sem precedentes, este ano também foi positivo, mas verificaram-se vários momentos preocupantes que prometem assombrar 2024.
 

A incerteza para o próximo ano deriva de um conjunto de desafios que o mundo enfrenta. Sejam as tensões geopolíticas, o fraco sentimento económico ou o stress à volta do tema clima, o sector do retalho está a mostrar alguma preocupação. No entanto, há espaço para o otimismo.

 

Segundo estudo “State of Fashion”, desenvolvido pela McKinsey & Company e Business of Fashion, o crescimento anual das vendas a retalho deverá abrandar e situar-se entre os 2% e os 4%, sendo que o segmento de luxo continuará a destacar-se pela positiva, num crescimento entre os 3% e 5%.

 

A recuperação do turismo internacional é algo que deixa os líderes do sector da moda satisfeitos. O próximo ano deverá ultrapassar os níveis pré-pandémicos em até 10%, o que deverá levar a um boom em torno das compras de retalho.

 

Num ano em que o sector da moda foi, em muito, sustentado pelo luxo, o cenário do turismo para o próximo ano “representa uma janela muito lucrativa para as marcas”, indica o estudo. “As compras estão no topo das agendas de viagens, com 80% dos compradores inquiridos dos EUA, Reino Unido e China a planear fazer compras de moda durante as férias e 28% esperam gastar mais face ao ano anterior”.

 

O estudo mostra mesmo que os executivos estão divididos em relação a 2024. Se 26% preveem uma melhoria das condições do sector, 37% estimam que a situação se mantenha e 38% preveem que as condições vão piorar.

 

“A indústria da moda mais uma vez demonstrou uma notável resiliência em 2022. O segmento de luxo, em particular, impulsionou o crescimento através de aumentos de preços, compensando parcialmente as fragilidades de outros segmentos”, aponta Achim Berg, sócio sénior da McKinsey e editor-chefe do estudo.

 

“Embora haja muitos desafios pela frente para a indústria mundial da moda no próximo ano, principalmente impulsionados pela volatilidade e incerteza devido aos desenvolvimentos macroeconómicos, esperamos um crescimento global limitado a cerca de 2-4%, em 2024. O crescimento global das vendas no segmento de luxo deverá desacelerar para entre 3-5% no próximo ano, devido à contenção de gastos dos consumidores após um aumento nas compras pós-pandemia”, sustenta.

Já o fundador e CEO da The Business of Fashion, Imran Amed, lembra que o “State of Fashion 2024 analisa os desafios e oportunidades-chave para a indústria mundial da moda no próximo ano”.

 

“No entanto, os executivo não se devem acomodar”, alerta Amed. “Ao mesmo tempo que devem abordar 2024 com cautela, é crucial continuarem a procurar oportunidades direcionadas para o crescimento e inovação”.

 

Recurso à Inteligência Artificial

Os executivos da indústria da moda acreditam que a Inteligência Artificial (IA) Generativa pode alavancar o seu produto no mercado, nomeadamente em termos de criatividade de design e desenvolvimento de produto.

Perto de 73% dos líderes do sectores estão a planear priorizar a IA Generativa no próximo ano. No entanto, os mesmos estimam que podem enfrentar falta de talento para este avanço tecnológico. Nisto, apenas 5% dos inquiridos afirmaram estar prontos para fazer um melhor uso da tecnologia atual.

 

“A ascensão da IA Generativa proporciona uma oportunidade criativa para a indústria da moda: já estamos a assistir ao surgimento de vários casos de utilização”, aponta Gemma D’Auria, sócia sénior e líder global da área de Apparel, Fashion e Luxury da McKinsey.

 

De facto, um dos muitos usos que surgiu no ano passado foi a experimentação de roupa em vestuários digitais. Ou seja, o espelho nos provadores (disponível em algumas lojas em Lisboa) usa IA para ver como as peças de roupa ficam sem que os clientes tenham de as experimentar fisicamente.

 

O que isto significa? “Que as empresas de moda já estão a começar a experimentar, mas com cautela”.

 

Perante uma situação incerta para 2024, as marcas têm de ter cuidado nos próximos passos que dão. No entanto, a indústria sabe que os consumidores estão atentos às inovações no mercado e a aplicação de IA Generativa é uma delas.

“Para captar o valor desta tecnologia transformadora no próximo ano, os executivos de moda terão de olhar para além da automatização e explorar o potencial da IA Generativa para expandir o trabalho dos seus criativos”, sustenta Gemma D’Auria.

 

Crise climática elimina 65 mil milhões da indústria

A indústria têxtil está fortemente dependente das condições climatéricas. Isto é, com a crise climática a aumentar de tom, nomeadamente pelo carácter extremo das catástrofes que têm acontecido com alguma frequência, as marcas estão preocupadas.

 

As alterações climáticas representam “um risco significativo para o crescimento da indústria da moda, uma vez que os dados preveem que os fenómenos climáticos extremos possam impactar 65 mil milhões de dólares de exportações de vestuário e ameaçar um milhão de postos de trabalho em quatro grandes economias até 2030”, indicam os responsáveis pelo estudo.

 

A análise da McKinsey e Business of Fashion sustenta que “90% das mercadorias exportadas dependem do transporte marítimo, estimando-se que 122 mil milhões de dólares de atividade económica nos portos estejam em risco devido a perturbações causadas por fenómenos meteorológicos extremos”.

 

De facto, todas as áreas da indústria em causa são afetadas, desde a produção de matéria-prima às cadeias de abastecimento e logística.

 

Outra preocupação para a indústria, e que pode significar multas significativas, é o maior escrutínio das novas regras de sustentabilidade na Europa e Estados Unidos. É exigidos às marcas e fabricantes que redobrem as iniciativas que pretendem reduzir as emissões e o desperdício, enquanto se protegem recursos naturais e se integram estratégias climáticas.

 

Em O Jornal Económico

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