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CABEÇALHO

Kishore Mahbubani Diplomata e académico identifica uma impreparação estratégica, diplomática e emocional dos EUA para lidar com a China e diz que os norte-americanos ainda estão agarrados às armas com que dominaram o século XX.

"A China não tem aspirações de liderança mundial, só quer ser respeitada enquanto grande potência"

O título do último livro do diplomata e académico Kishore Mahbubani é propositadamente provocador: A China já Ganhou? A pergunta, como assume o próprio, implica, no entanto, uma outra, potencialmente mais provocadora até: "Os Estados Unidos podem perder?" É o desafio a que se propôs o investigador do Asia Research Institute e antigo diplomata de Singapura quando decidiu escrever sobre o conflito Estados- China, numa obra editada em Portugal pela editora Bertrand.

Diz que há vários equívocos sobre esta competição geopolítica. Qual é o equívoco mais gritante?
Tem que ver com a forma como os americanos olham para a China, acreditando que tem as mesmas ambições que os Estados Unidos. Os EUA acreditam no conceito de liderança global. Acham que têm de sair de casa para irem consertar o mundo, defender a liberdade e lutar em guerras. Os chineses ficam desconcertados com esta visão. Não compreendem porque é que os EUA gastaram cinco biliões de dólares em guerras no pós-11 de Setembro. Para a China, isto é bizarro. A China não tem estas aspirações de liderança mundial, só quer ser respeitada enquanto grande potência. Se os EUA saírem do Médio Oriente, a China não vai a correr tomar o seu lugar. Se os EUA se focassem em melhorar as condições de vida dos seus cidadãos e se a China fizesse o mesmo, não existiria qualquer contradição entre os dois. É possível evitar este conflito e provar que ele é desnecessário. Precisamente porque se baseia na percepção errada de que a China quer substituir os EUA como o país "número um" do mundo.

Porque é que afirma que os EUA nunca desenvolveram uma grande estratégia para lidar com a China?
Os EUA habituaram-se a vencer toda e qualquer disputa dos últimos cem anos. Desde que emergiram como principal potência venceram a I e a II Guerra Mundial, resolveram o desafio económico japonês e derrotaram a União Soviética sem disparar um único tiro. Esta sucessão de triunfos fê-los acreditar que nunca mais vão perder um conflito. É por isso que escolhi para título do livro a pergunta: a China já ganhou? Porque essa questão implica uma outra, igualmente relevante: os EUA podem perder? Para os americanos, essa ideia é inconcebível. Mas esta disputa é diferente de todos os desafios que já enfrentaram. A China é a civilização mais antiga do mundo, a sua população é quatro vezes maior que a dos EUA e vive um período de renascimento vigoroso. O maior erro que os EUA estão a cometer é o de desvalorizarem a China. Foi um erro da Administração Trump colocar esta questão como uma luta entre a América livre e o Partido Comunista Chinês [PCC]. Se a disputa fosse entre uma democracia americana vibrante e um partido comunista chinês rígido, a democracia americana venceria. Mas democracia na América tem vindo a transformar-se numa plutocracia. O PCC transformou-se numa meritocracia - tem as melhores mentes da China a trabalhar para o partido e, ao mesmo tempo, goza de enorme apoio da população. Em 2003, o apoio ao PCC era de 86% e em 2016 era de 95%. Isto não é uma luta contra um partido comunista qualquer, mas contra um partido comunista particularmente forte e que representa uma civilização inteira.

Uma das teses que defende é a de que os EUA estão a lidar com a China como lidaram com a URSS. Estarão a lutar as guerras do presente com as armas do passado?
Precisamente. A URSS tinha um partido comunista muito rígido. A sua sociedade era severa, obscura e fechada. Os soviéticos não gozavam de qualquer liberdade. Nenhum cidadão podia viajar para o estrangeiro. E os que o faziam não queriam voltar. Todos os anos há 130 milhões de chineses que viajam para o estrangeiro e que saem livremente da China. E todos os anos há 130 milhões de chineses que regressam do estrangeiro e que entram livremente na China [risos]. A China não é a URSS. Tem provavelmente o maior número de empreendedores do mundo. Se fosse uma sociedade tão fechada como a soviética, como é que poderia ter estes níveis de empreendedorismo e todas as suas startups?

Então porque é que os EUA ainda a tratam como o inimigo que a URSS foi?
Isso advém de uma combinação entre preguiça intelectual e uma arma de propaganda útil. Os políticos americanos ainda estão moldados por 40 anos de Guerra Fria e pelo facto de o triunfo nesse conflito ter sido construído com base na demonização da URSS - Ronald Reagan [ex-Presidente dos EUA] chamou-lhe o "Império do Mal". Na linguagem americana, a expressão "bom comunista" é um oximoro. Quando Trump chama comunista à China, fá-lo apenas porque é fácil associá-la a uma ideia de inimizade. Mas um dos equívocos dos EUA é este: onde lêem Partido Comunista Chinês, na sigla PCC, deviam ler "Partido Civilizacional Chinês". O PCC está no poder há mais de 70 anos, mas a China já foi governada pelo PCC de Mao Tsetung, pelo PCC de Deng Xiaoping e agora é governada pelo PCC de Xi Jinping. O partido mudou drasticamente. Com Mao não havia iniciativa privada, mercado ou milionários. Hoje não faltam milionários dentro do PCC. O partido actual é mais abrangente e mais pragmático. Como disse uma vez cientista político indiano, a diferença entre a índia e a China é que a índia é uma sociedade aberta, como uma mente fechada. A China é uma sociedade fechada, com uma mente aberta. Essa
k' comparação pode ser feita entre os EUA e a China. A China está atenta à forma como o mundo tem vindo a mudar e sabe como se deve adaptar. Os EUA ainda não aceitaram que têm de fazer ajustamentos estratégicos para se adaptarem ao novo mundo.

Muitos académicos hesitam em comparar este conflito com a Guerra Fria. O professor vai mais longe: compara a inflexibilidade e a rigidez dos EUA com a URSS desse período.
George Kennan [diplomata e historiador] foi o homem que formulou a estratégia norte-americana para lidar com a URSS. Foi o "pai" da política de contenção, mas foi ele que disse que o desfecho da disputa não seria determinado pelo número de balas, de bombas, de aviões ou de porta-aviões, mas pela vitalidade das respectivas sociedades. Entre os anos 1950 e 1980, a sociedade americana foi muito mais vibrante do que a soviética e os níveis de vida da sua classe média estiveram em constante crescimento. A classe média soviética estava estagnada. Todos os indicadores de bem-estar melhoravam nos EUA e pioravam na URSS. Mas se olharmos para os últimos 30 anos dos EUA, verificamos que o rendimento médio dos 50% mais pobres, que estava em crescimento nas quatro décadas anteriores, caiu ou estagnou. As classes trabalhadoras encontram-se num mar de desespero, as dependências em substâncias narcóticas aumentaram, a taxa de suicídio aumentou, a esperança média de vida baixou, etc. Em contraste, os últimos 40 anos de desenvolvimento económico e social na China foram os melhores 40 em 4000 anos de História da civilização chinesa. E os índices de satisfação aumentaram muito. Se Kennan fosse vivo, apoiaria a minha posição [risos]. Os EUA estão a perder a sua vitalidade e tornaram-se uma sociedade infeliz.

Olhando para o percurso histórico chinês, verificamos que os períodos de maior prosperidade se deram quando o país se abriu ao mundo. Mas Xi vira-se muitas vezes para Mao e para a História Antiga em busca de respostas. Não há uma contradição entre querer ser uma superpotência globalizada e, ao mesmo tempo, regressar aos alicerces filosóficos da civilização e da protecção da identidade chinesa?
Os chineses têm uma ideia muito clara sobre o papel da globalização e o seu foco está nos benefícios da globalização económica. No centro da psicologia chinesa está o sentimento de humilhação vivido entre as Guerras do Ópio [do século XIX, contra as potências ocidentais] e 1949 [fundação da República Popular da China]. Os chineses chegaram à conclusão de que foram humilhados porque foram fracos e porque fecharam a economia. A construção da Grande Muralha não resultou. Em 2017, em Davos [no Fórum Económico Mundial], Xi fez um discurso muito importante. Disse algo do género: "Quando a China mergulhou pela primeira vez no oceano da globalização, teve dificuldades em manter-se à tona e bebeu muita água. Mas à medida que o tempo passou, foi-se tornando mais forte." A economia chinesa hoje em dia é uma das mais competitivas do mundo, precisamente por ser tão globalizada. A China escolhe a globalização para colher sucesso económico. Mas, ao fazê-lo, não está a absorver uma identidade ocidental. O seu sucesso económico está a conduzi-la para um renascimento cultural e a fazê-la redescobrir a sua civilização e as suas raízes.

Diz que a China não tem o "impulso missionário de conquistar o mundo", ao contrário dos EUA. Explique melhor.
Aquilo que os EUA tentaram fazer a nível global foi bom, em certa medida. Procuraram melhorar as condições de vidas humanas e muitas das suas intenções foram válidas. John F. Kennedy [ex-Presidente dos EUA] disse que os americanos estavam dispostos a pagar qualquer preço e a carregar qualquer legado em nome da defesa da liberdade. Mas os EUA ainda se retratam como a cidade brilhante no cimo do monte. Dizem: "Transformem-se numa América' e serão bem-sucedidos." A eleição de Trump e o seu comportamento como Presidente vieram confirmar que os EUA deixaram de ser a cidade brilhante no cimo do monte. Estamos a falar de um líder que chamou aos países africanos "países merdosos". Os chineses acreditam que mais ninguém pode ser como a China. Não querem ser a cidade brilhante no cimo do monte. Dizem: "O nosso sistema é bom para a China. Escolham o sistema de governo que quiserem, nós não queremos, nem vamos, transformar ninguém."


Relação Pequim-Washington
"Com Trump, os EUA passaram a comportar-se como mercenários"
Donald Trump foi muito duro com a China, lançando uma guerra comercial e fazendo do conflito o eixo central da sua política diplomática. Mas a imagem externa dos EUA saiu muito prejudicada com ele no poder. Acha que foi um activo valioso para a China? Sem dúvida. Donald Trump ajudou bastante a China. Os Estados Unidos sempre puderam argumentar que, mesmo num cenário em que não sejam tão poderosos ou dinâmicos como a China, têm uma sociedade melhor que a chinesa, tratam a comunidade internacional com respeito e cumprem as regras. Através da política America First, os EUA passaram, porém, a dizer que não se importam com o resto do mundo e começaram a pedir mais dinheiro aos seus aliados. Quando se pede dinheiro em troca do que quer que seja, deixa-se um pouco de lado os tais valores clássicos de liberdade e democracia. Com Trump, os EUA passaram a comportar-se como mercenários. É o antigo campeão do comércio livre que está a afastar-se de tratados de livre comércio, não o contrário. Quando os historiadores do futuro olharem para a nossa era, vão ver na decisão dos EUA de abandonar a Parceria Transpacífico (TPP) e na decisão da China de se juntar à Parceria Económica Abrangente Regional (RCEP) os principais indicadores da mudança que está a acontecer no nosso mundo.

O que é que podemos esperar da Administração Biden em relação à China?
A resposta é paradoxal. Por um lado, quando Joe Biden se tornar Presidente dos EUA [a 20 de Janeiro], tudo vai mudar. Biden é um tipo simpático. Trump não é um tipo simpático - é egoísta, narcisista e egocêntrico, e insultou todos os países do mundo. Biden será simpático e bem-educado e falará com a China num tom mais civilizado. Não fará política através do Twitter. Todas as antigas pontes de diálogo com a China vão ser retomadas e os EUA serão mais previsíveis. Por outro lado, nada vai mudar [risos]. Porque a disputa geopolítica entre Estados Unidos e a China é impulsionada por grandes forças estruturais nos EUA. Em primeiro lugar, a reacção ao facto de a maior potência mundial estar a passar para segundo lugar. Depois, o receio norte-americano do "perigo amarelo". Em terceiro, o consenso bipartidário em relação ao facto de a China ter desapontado os Estados Unidos ao não se transformar numa democracia - o Partido Democrata atacou Trump em tudo, à excepção da política para a China.

Nas últimas semanas, Xi Jinping assinou o acordo da RCEP e pôs a ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático) no topo das prioridades diplomáticas e económicas da China. É uma jogada de antecipação a uma abordagem mais multilateral de Joe Biden?
A China nunca faz planos a dois ou a quatro anos, mas a 30 ou a 40 anos. Haverá crescimento económico na Europa daqui a 40 anos? A resposta é: não. A população europeia está a encolher e as suas economias já estão a ter dificuldades. Haverá crescimento económico nos EUA? Sim, em parte, mas a economia americana está em grandes sarilhos e tem uma sociedade infeliz. De onde virá o crescimento? Virá, obviamente, dos países do Sudeste Asiático. São as economias em crescimento mais acelerado a nível mundial. Os dez países da ASEAN têm uma população dez vezes maior do que a população europeia e, combinados, já são a sétima maior economia do mundo. Em 2030, serão a quarta maior economia do mundo e continuarão a ter uma população muito jovem. A China quer criar um enorme ecossistema de crescimento na Ásia. Há um importante dado estatístico que a Europa e os Estados Unidos da América deveriam decorar: em 2009, o tamanho do mercado retalhista da China valia 1,8 biliões de dólares e o dos EUA valia quatro biliões de dólares; em 2019, a China subiu aos seis biliões e os EUA estão nos 5,5 biliões. E daqui a dez anos, como será? A China quer continuar a crescer.

Falta só fazer-lhes a pergunta mais previsível: a China já ganhou?
[Pausa] Está a ganhar. Ainda não ganhou. Mas está a ganhar.

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