NewDetail

AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Compras de Portugal ao Reino Unido afundaram 86% depois do Brexit. Em janeiro, no primeiro mês em que se aplicou a nova relação comercial o impacto também se fez sentir nas exportações ainda que com menor dimensão. Ajustamentos administrativos e logísticos ditam um novo período de adaptação afectado ainda pelas restrições da crise de saúde pública. Governo está confiante que estabilização de todo este processo maior devolverá eficiência ao fluxo exportador e importador.

A quebra no comércio internacional entre Portugal e o Reino Unido no primeiro mês de 2021, ainda que assinalável, deve ser analisada com ponderação e contabilizando outros efeitos que influenciam este resultado, desde logo a pandemia e as medidas de contenção dela resultantes que desfiguram o cenário entre o início deste ano e do anterior. O alerta é do economista Pedro Braz Teixeira que lidera também o Gabinete de Estudos do Fórum para a Competitividade.


"Há dois efeitos em simultâneo: o Brexit e a pandemia", começa por referir Pedro Braz Teixeira, ressalvando que, mesmo dentro do processo de saída do Reino Unido da União Europeia, há várias questões a considerar.


Comparando com janeiro de 2020, as exportações nacionais para o Reino Unido caíram 13,5%, enquanto que as importações colapsaram 86%. A vertente comercial da aliança mais antiga do mundo deteriorou-se mais do que sucedeu entre Portugal e o resto do Mundo, com quem se registaram quebras de 9,8% nas exportações e 17,2% nas importações, e do que aconteceu entre britânicos e o resto da Europa, entre quem se verificou menos 27,4% de importações e 59,5% de importações. Mas entre pandemia e um Brexit ainda pouco definido, os motores deste fenómeno são ainda pouco claros.


"Por um lado, o próprio Brexit não ocorre num momento preciso, já que há um período transitório, ainda em negociação", explica Pedro Braz Teixeira, relembrando que a ratificação do acordo comercial entre as duas partes está ainda por concluir pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho da UE.


Ainda assim, a saída formal do Reino Unido a 31 de dezembro de 2020 - e as novas barreiras comerciais - terá também significado uma antecipação de parte das compras por ambas as partes face à certeza de que seriam impostos controlos e tarifas aduaneiras, outro fator que certamente terá inflacionado os dados relativos a dezembro em detrimento dos de janeiro.
"Para além disso, há o efeito cambial, que também havia antes do Brexit e que deverá ter estabilizado durante a turbulência negocial que demorou imenso tempo desde o referendo em 2016", acrescenta Braz Teixeira.


Ainda que carecendo de mais dados num contexto mais estável, a questão é relevante pela importância dos parceiros britânicos no comércio internacional português. Como salienta Eurico Brilhante Dias, secretário de Estado da Internacionalização, o Reino Unido tem vindo a cimentar a sua posição enquanto cliente e fornecedor, tendo-se tornado mesmo no principal mercado para o sector exportador de serviços nacional (ver entrevista ao lado). Por isso mesmo, toma-se importante o papel do Estado e das suas agências na divulgação das alterações ao processo exportador para este território. "Acredito que ao longo do ano o processo estabilize, garantindo maior eficiência ao fluxo exportador e importador", antecipa o secretário de Estado, sublinhando o trabalho realizado nesta vertente por "várias entidades públicas como a AICEP, IAPMEI, AT, entre outras".


Do outro lado, cabe ao Executivo de Bóris Johnson resolver situações potencialmente causadoras de transtornos, como o recrutamento dos despachantes aduaneiros necessários. Neste capítulo, diz o governante, resta a Portugal acompanhar "de perto e no âmbito das nossas competências um momento de maior stresse e de teste a uma nova realidade".


Outro aspeto no qual o Governo pode trabalhar passa pelo seu papel no seio da UE e a influência que poderá exercer nas negociações europeias com Londres, defende Braz Teixeira. Mas mais relevante ainda é a necessidade de compensar as exportações que se perderão com as disrupções agora existentes nesta relação comercial.


"Portugal tem um comércio internacional excessivamente concentrado na UE, pelo que era da maior conveniência que se procurassem outros mercados", argumenta o economista, que antecipa neste objetivo um papel relevante para o Estado, que deverá "promover a diversificação das exportações". Braz Teixeira alerta para os efeitos de médio e longo prazo nas trocas comerciais Portugal-Reino Unido resultantes do Brexit, sublinhando que "é um problema adicional para as empresas portuguesas" que terá de ser contrariado.

SETORES COM MAIORES QUEBRAS


Os sectores que refletiram as maiores quebras nas exportações em janeiro de 2021, no caso dos bens, foram o calçado, o vestuário e materiais têxteis, peles e couros, bem como os químicos e combustíveis minerais.


As principais quebras nas importações provenientes do Reino Unido neste período (janeiro 2021), verificaram-se, por grupos de produtos, nos materiais agrícolas, máquinas e aparelhos, combustíveis minerais e calçado.

Partilhar