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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

A fintech nacional ebankIT está à beira de fechar dois grandes contratos que chegam durante mais um ano de forte crescimento, apesar da pandemia. Enquanto corre mundo a vender soluções para a digitalização da banca, a empresa do Porto procura nos EUA o capital que poderá ajudá-la a dar os próximos grandes passos.

O local de onde Renato Oliveira fala com a EXAME, através de uma plataforma de reuniões virtuais, é relativamente recente: foi só há poucas semanas que a ebankIT, uma fintech portuguesa que conta seis anos de existência, se mudou para ali, o terceiro andar de uma torre no Porto Office Park. Mas a transferência está longe de ser apenas cosmética. A dimensão do novo espaço vai permitir acompanhar o crescimento da empresa ao longo dos próximos anos, se os planos do CEO se concretizarem.

 

A partir do Porto, a empresa de banca digital omnicanal está a faturar fora do País praticamente tudo o que entra em caixa (98,4%). Os principais clientes são os bancos que aliam às soluções tecnológicas desenvolvidas in-house os produtos concebidos por fornecedores externos, como é o caso da empresa portuguesa. A solução comercializada a partir do Porto, também chamada ebankIT, prepara-se para entrar na sexta versão e permitiu alcançar, nos últimos anos, mercados como Canadá e Estados Unidos da América (geografias mais fortes para o seu negócio), além de Roménia, Reino Unido, África do Sul e até Kuwait.

 

Os contratos com duração de cinco a dez anos fechados em 2019 – para fornecimento de soluções de internet banking, mobile banking e watch banking, ou seja, acesso a serviços bancários no computador, telemóvel e smartwatch – ajudaram a aumentar as vendas da empresa acima de 20%, para 12,5 milhões de euros, mais do que duplicando o resultado líquido para 2,57 milhões de euros. Este ano, espera chegar aos 17 milhões de euros em vendas e voltar a dobrar os lucros.

 

Separar para crescer

 

Foi em 2012, com 35 técnicos especializados, que Renato Oliveira decidiu fazer o spin-off do grupo IT Sector (do qual também é acionista e que, entre outros, desenvolve apps e soluções de internet para pagamento de ordenados no Millennium BCP, Caixa Geral de Depósitos e Montepio). O objetivo era criar uma unidade de produto, que veio a ser desenvolvida nos dois anos seguintes e a dar corpo à ebankIT, hoje com cerca de 80 colaboradores no quadro, sem contar com os subcontratados.

 

“A banca precisa de se posicionar numa oferta digital. Há cada vez menos balcões e a pessoas têm medo de ir aos bancos”, diz o CEO à EXAME, justificando as boas margens que este negócio tem proporcionado, sobretudo desde que, há dois anos, a empresa fez uma alteração no modelo e transferiu os contratos dos serviços para outros clientes, passando apenas a vender as licenças associadas às soluções omnicanal.


Nos últimos cinco anos, o CEO nota três mudanças que ajudaram o negócio da digitalização do setor financeiro e que também foram aproveitadas pela empresa: o regresso em força da banca à concessão de crédito, a possibilidade de abertura remota de contas e a importância acrescida dos dados e da sua interpretação, em cruzamento com a Inteligência Artificial.

 

Transformações que exigem ferramentas digitais para que os bancos possam chegar, em qualquer momento, aonde o cliente estiver, e permitam realizar operações seguras numa questão de segundos.

 

Capital para conquistar clientes

 

Apesar da aposta na inovação, a empresa não está sozinha neste mercado, onde pontuam concorrentes como a holandesa Backbase, a suíça Kony/Temenos, a norte-americana Q2 ou a britânica Finastra. A participação em eventos da especialidade e os prémios conquistados dentro do setor permitiram-lhe ir-se destacando e conquistando clientes, abrir escritório na City de Londres e, a partir daí, reforçar a presença em mercados como os EUA e Canadá, onde tem trabalhado para bancos e mais de uma centena de credit unions (cooperativas de crédito).

 

Mas a tecnologia desenvolvida por portugueses chegou também a outros mercados que, à partida, poderiam parecer menos evidentes. No Kuwait, o trabalho realizado no KIB (Kuwait International Bank) obrigou a adaptar o produto à banca islâmica, não só às questões mais instrumentais como a ortografia, mas também a realidades culturais específicas do negócio, como “a ausência de juros” na atividade bancária local, irrepetíveis noutras geografias. No Japão, houve reuniões com potenciais interessados, mas sem resultados concretos. Onde há possibilidades mais avançadas de novos negócios é na Colômbia e na América do Norte. Neste caso, dois contratos podem ficar fechados este ano, dos quatro “grandes” que estão a ser negociados.

 

Será também por aquela área do globo que passará uma esperada abertura do capital a novos acionistas, numa ronda de investimento que se destinará, no final do processo, a abrir o leque de clientes potenciais. “A ebankIT teve sempre resultados positivos, o que, para um investidor, é bastante importante. Sempre viveu do seu próprio capital”, afirma Renato Oliveira. “A nossa estratégia de crescimento passa por ter um parceiro que faça ‘smart money’. Não precisamos de capital, neste momento, para fazer operação, mas de alguém que nos faça entrar noutras contas. E os fundos internacionais abrem essas portas”, acrescenta o CEO. Não é certo que essa entrada no capital aconteça este ano, mas está garantido que o novo parceiro entrará sempre com uma fatia minoritária.

 

Digital no pós-pandemia

 

Embora a emergência da Covid-19 não tenha implicado disrupções no funcionamento da ebankIT, houve que esperar que os clientes se reorganizassem para continuar o trabalho conjunto. O que se tornou mais exigente foi mesmo o ato de vender, que passou – ainda mais – a ser feito à secretária, frente à câmara do computador, ou de ouvido colado ao telemóvel. O tipo de transações em que a ebankIT está envolvida, explica o CEO, depende muito da relação social com os presidentes dos bancos e do grau de confiança que eles vêm a desenvolver em relação ao produto – o que está igualmente muito dependente da presença física. “Todos eles [presidentes dos bancos] vêm visitar-nos para perceber que existimos e que isto não é uma garagem. Vêm cá antes de comprar. E eu gosto de ver uma empresa portuguesa a conseguir vender noutros mercados”, afirma o responsável.

 

Se, como prevê Renato Oliveira, os efeitos da paragem da economia nos meses de confinamento e o arranque lento e demorado da atividade vierem a ter impacto mais evidente na banca (com o fim das moratórias e possível entrada dos clientes em incumprimento), isso poderá precipitar mais ainda o recurso à tecnologia por parte deste setor, que continua a prescindir de recursos humanos – deverão sair mais cinco mil pessoas nos próximos dois a três anos, segundo o Público. “A banca terá de ter novas ferramentas para todas as faixas etárias, simples de utilizar. O setor financeiro vai ter de se adaptar ao tipo de usabilidade das redes sociais. Até porque as big tech querem transformar-se em bancos”, aponta.

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