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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

A Solara4 vai produzir energia suficiente para alimentar 200 mil casas.

«A primeira coisa que eu fiz quando cheguei a este projeto foi mudar a sede fiscal para Alcoutim. Agora, o nosso escritório está aqui em Martim Longo e isso também trará riqueza para o concelho», acredita Hugo Paz, da WElink Energy, a empresa que instalou e irá gerir a maior central fotovoltaica de Portugal e uma das maiores da Europa: A Solara 4/Riccardo Totta, em Vaqueiros e Martim Longo.

 

Esta mega-central, que conta com 660 mil painéis solares, espalhados por uma área descontínua de cerca de 320 hectares, dentro da antiga herdade de Finca Rodilha, uma propriedade de 800 hectares, foi inaugurada no sábado, dia 9, numa cerimónia que contou com a presença de João Matos Fernandes, ministro do Ambiente e da Transição Climática, e de João Galamba, secretário de Estado da Energia.

 

Hugo Paz, o diretor de projetos para a Península Ibérica da WElink Energy/Solara4, empresa responsável pelo projeto, em parceria com a China Triumph International Engineering Company (CTIEC) e com Maurizio Totta, o dono da propriedade, fez questão de frisar, no seu discurso e, mais tarde, em declarações aos jornalistas, que os promotores da central querem que esta seja um benefício e não uma dor de cabeça para este território e para os que lá vivem, seja a nível económico, seja ambiental.

 

Desta forma, as «cerca de 20 pessoas» que a empresa estima que sejam necessárias para trabalhar na central em permanência serão recrutadas localmente.

 

«Este é um projeto de grande dimensão, pelo que requer uma manutenção muito difícil, porque temos de fazer o controlo da vegetação, a limpeza dos painéis, a manutenção dos componentes elétricos, para ver se está tudo em condições. Tudo isso vai ser feito por equipas locais», assegurou.

 

Também da zona são os pastores responsáveis pelas equipas de sapadores naturais da empresa, as 200 ovelhas que já estão a trabalhar no controlo da vegetação.

 

«Temos um projeto piloto, lá mais para o norte [do espaço da Central], que está a correr muito bem. Estamos a pensar ampliar esse projeto para uma escala diferente, onde teremos muitas mais ovelhas», aumentando o número total para 400.

 

«As ovelhas comem o pasto e, dessa forma, reduzem o seu crescimento e permitem que o corte da vegetação, que, parecendo que não, cresce muito, seja mais fácil», ilustrou Hugo Paz.

 

Em paralelo, assegurou, houve uma preocupação com os impactos da obra, na fase de projeto.

 

«Durante o Estudo de Impacte Ambiental, foi focada uma área total de 800 hectares, dentro da qual foi definida a zona em que seria possível instalar os painéis», que rondava «os 600 hectares».

 

No entanto, na fase de projeto, «nós ainda reduzimos mais», para cerca de metade do que seria permitido.

 

«Penso que está à vista a existência de muitos corredores verdes. Não é um projeto típico em que temos um mar de painéis contínuo. Estou muito contente com o resultado», disse Hugo Paz, apontando para as serranias à sua volta, onde se viam, até perder de vista, “ilhas de painéis”, intercaladas com caminhos e zonas em estado natural.

 

Também Paulo Paulino, vice-presidente da Câmara de Alcoutim, que representou a autarquia na cerimónia, frisa esta descontinuidade de painéis, que causa um impacto visual menor do que os autênticos “mares” de painéis que se veem noutros projetos.

 

A questão do impacto visual foi uma das que se colocou em 2015, na altura em que foi tornada pública a intenção de criar um parque fotovoltaico nesta herdade alcouteneja.

 

Na altura, lembra o autarca, havia «o receio que isto seria algo com painéis contínuos, mas o que se verifica é que existem ilhas e espaços que têm de ficar abertos. Isso evita aquele ar pesado que poderia ter».

 

Mas, ao início, os medos e a contestação ao projeto não se ficavam por aqui.

 

Paulo Paulino assegura, ainda assim, que «as declarações de impacte ambiental e todos os estudos, bem como os períodos de consulta pública, vieram aqui aliviar alguns dos receios que existiram inicialmente».

 

«Quanto a algumas coisas que foram identificadas, foram feitos ajustes ao projeto e os impactos foram minimizados. Um bom exemplo é o do traçado da Via Algarviana, que foi alterado para um local onde não piorou em nada e conseguimos encaixar perfeitamente», ilustrou.

 

«O que eu acho é que temos de conseguir equilibrar o Algarve natural, que não podemos de maneira nenhuma perder, com projetos como este. Estamos aqui a contribuir para a redução de emissões de CO2 e acho que os municípios têm de dar o seu contributo. Este tipo de infraestruturas tem de existir em algum lado e, desde que não se massifique e não se torne numa situação excessiva, achamos que se enquadra no nosso território, sempre que os impactos ambientais não o impeçam», acrescentou o vice-presidente da Câmara de Alcoutim.

 

E por falar emissões de gases de carbono, este é outros dos trunfos ambientais desta central, que, no final deste mês, e após a energização da Solara4, terá uma capacidade de 219 MW.

 

Segundo os promotores do projeto, as centenas de milhar de painéis instalados «vão gerar 382 GWh de energia limpa e capacidade para abastecer 200 mil habitações, o que corresponde a uma redução de 326 mil toneladas de emissões de dióxido de carbono por ano, uma contribuição fundamental para que Portugal alcance as metas de energias renováveis previstas no Programa Nacional de Energia e Clima 2030 (PNEC 2030)».

 

«A energia que esta central vai produzir anualmente equivale ao consumo de aproximadamente 200 mil casas ao longo de um ano. Essa a explicação mais fácil de entender. E também é o equivalente para a redução de emissões dióxido de carbono, porque essa energia seria produzida com recurso a combustíveis fósseis», “trocou por miúdos” Hugo Paz.

 

Para isso, foram investidos pelos promotores privados 175 milhões de euros, abaixo dos 200 milhões de euros inicialmente previstos, mas o suficiente para ser o maior investimento alguma feito no concelho de Alcoutim.

 

Este facto foi, de resto, determinante para que a Assembleia Municipal de Alcoutim, por proposta da Câmara, tenha declarado o Interesse Municipal deste projeto, solicitado pelos promotores.

 

Uma das condições era «que a sede fiscal da empresa fosse em Alcoutim», algo que se verificou. Desta forma, a Solara4 «será, com certeza, a empresa com maior volume de negócios do concelho», dentro de pouco tempo, segundo Paulo Paulino.

 

Na hora de aprovar o Interesse Municipal, também foi exigido que empreiteiros locais fossem contratados para prestar serviços na fase de instalação e posteriormente, de modo a beneficiar diretamente com a obra.

 

«O comércio local foi outra das questões que tivemos em conta. Ao longo destes dois ou três anos de obra, andaram aqui, todos os dias, mais de 500 pessoas. Esta gente teve de comer, de dormir, de se abastecer de bens e de combustíveis, foram à farmácia, compraram pneus e recorreram às oficinas», lembrou o autarca alcoutenejo.

 

«Isto gerou aqui um dinamismo económico que veio ajudar num momento em que estávamos em contraciclo, por causa da pandemia, quando, noutros concelhos, o que nós víamos era a paragem total. Eu nem quero imaginar o impacto que a pandemia teria tido, se não tivéssemos esta atividade toda aqui no concelho», afirmou.

 

De futuro, «teremos vantagens ao nível dos postos de trabalho diretos e dos impostos, que também trarão algum benefício».

A central fotovoltaica traz benefícios não só a Alcoutim, mas também a todos os portugueses, garantiu, por seu lado, João Matos Fernandes.

 

Segundo o ministro do Ambiente, «projetos como este vão tornar o preço da eletricidade mais estável e mais barato. Porquê? Porque a produção de eletricidade a partir de fontes renováveis é muito mais barata do que a partir de combustíveis fósseis».

Isso é ainda mais evidente numa altura em que «a outra fonte para produção de eletricidade em Portugal, o gás natural, que é importado, está caríssimo».

 

Do lado da Welink, há a vontade de levar este projeto mais longe, aprofundando os benefícios para o país.

 

«Nós acreditamos firmemente que este projeto tem uma capacidade para crescer, para ser melhorado. Uma das melhorias que podemos fazer é a implementação de mais painéis, em zonas que temos livres nestes 800 hectares que estavam inicialmente estudados», revelou Hugo Paz.

 

«Por outro lado, queremos implementar um sistema de armazenamento. Ainda temos de ver qual é que será a capacidade desse armazenamento, mas estamos sempre a falar entre 40 a 70 mw de armazenamento», adiantou.

 

Este último investimento é muito importante, uma vez que uma central fotovoltaica deste tipo é caraterizada pelo facto de a energia que é produzida ter de ser obrigatoriamente injetada na rede.

 

«Mas se tivermos um sistema de armazenamento, podemos usar essa energia de forma mais inteligente e injetar na rede nos horários em que o preço é mais elevado, contribuindo, dessa forma, para o controlo do custo da energia», revelou o diretor de projetos da Welink.

 

O processo de prospeção de mercado a nível internacional, junto das empresas de topo nesta área, já começou, com a Welink a procurar perceber «qual a tecnologia que melhor se enquadra neste projeto».

 

«É mesmo para avançar!», prometeu Hugo Paz.

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