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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Está a aumentar a procura por produtos da fileira do mar, em linha com a crescente preocupação dos consumidores com a sua alimentação e saúde.

Entre 2013 e 2019, a procura por produtos de pescado cresceu globalmente 30%, segundo dados da AICEP, partilhados por José Junqueiro, especialista em economia do mar, por ocasião da conferência “Internacionalização do pescado português – barreiras e oportunidades” que teve lugar na feira Expo Fish Portugal, organizada pela Docapesca.

 

As exportações portuguesas de produtos de pesca têm sabido tirar partido desta tendência global do aumento da procura. O pescado português é atualmente o produto agroalimentar com mais peso nas exportações do País, seguido do vinho, azeite e hortícolas. A fileira, que inclui a pesca, a aquacultura e a transformação do pescado, gera anualmente um volume de exportações superior a mil milhões de euros, representa um Valor Acrescentado Bruto (VAB) de 1,7 mil milhões de euros e emprega 60 mil pessoas.

 

A tendência de crescimento das exportações da fileira registada na última década foi interrompida em 2020, em consequência da crise sanitária à escala global. A exceção foi para o subsetor das conservas de peixe, cujas exportações subiram 13,8% no ano passado, em termos homólogos. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, as conservas de peixe foram o principal grupo de produtos exportado em Portugal em 2020.

 

No entanto, no primeiro semestre de 2021, as exportações da fileira recuperaram o ritmo de crescimento da última década, com um crescimento das vendas para o exterior, em valor, de 13%, face a igual período do ano anterior.

 

Entre janeiro e junho, as exportações de crustáceos, molúsculos e outros invertebrados aumentou 47,7%, as exportações de peixe cresceram 8% e as exportações de preparados de pesado e conservas subiram 6%, em relação ao período homólogo. A maioria das exportações nacionais (78%) tem como destino o mercado europeu, com um domínio demarcado do espanhol. Brasil e EUA lideram importações nos mercados extracomunitários.

 

CONSUMIMOS MAIS DO QUE PESCAMOS

 

Quando a indústria fala de peixe português refere-se ao peixe capturado em águas nacionais e ao pescado comprado no exterior e transformado e exportado pela indústria portuguesa. A balança comercial da fileira de produtos do mar é deficitária. “Se consumíssemos apenas peixe nacional, no final de abril já não tínhamos peixe para comer”, exemplifica António Guimarães, administrador da Soguima, empresa de Guimarães que processa cerca de 100 toneladas de peixe por dia.

 

“Grande parte do peixe que consumimos e exportamos é proveniente do exterior”, reitera o responsável que considera a não existência do acesso direto ao peixe uma das principais barreiras à exportação.

 

Apesar de Portugal importar muito mais pescado do que aquele que pesca e produz, a indústria transformadora acaba por atenuar o défice na balança comercial dos produtos de pesca pela sua relevância nas exportações. A Soguima, por exemplo, exporta cerca de 35% da sua produção anualmente para cerca de 30 países, mas ambiciona passar a quota de exportação para os 50%, em 2025.

 

O administrador da Soguima chama a atenção para a necessidade de diversificar os produtos, através da captura de novas espécies, de inovação e da aposta no serviço diferenciador, acrescentando valor à fileira, porque a avidez dos consumidores por comida não para de aumentar e os recursos são limitados. “Comemos cada mais e a nossa avidez por comida não para de aumentar. É fundamental promover o investimento externo da indústria portuguesa no exterior. Temos de ir atrás dos recursos e fazer fábricas onde está o peixe”.

 

António Guimarães chama ainda a atenção para a sustentabilidade do peixe produzido em aquacultura. “Qual é a diferença, em termos éticos e ambientais, de um aviário com 100 mil frangos e uma estufa de aquacultura com a mesma quantidade de salmão?”, pergunta o responsável. “Eu penso que estamos a falar da mesma coisa e que esse argumento a longo prazo virá para cima de nós”.

 

O administrador da Soguima alerta para a necessidade de a fileira criar uma solução a curto e médio prazo que passe pela sustentabilidade, pela utilização sustentável dos recursos e pela aquacultura, mas a longo vamos precisar de ir mais além. “A academia e a indústria devem começar a pensar em duas coisas: peixe à base de plantas e peixe de laboratório”, aconselha.

 

CAMINHOS PARA A EXPORTAÇÃO

 

Além da escassez de recursos no mar português, António Guimarães considera que existem duas barreiras principais à exportação de produtos do mar: as alfandegárias e as sanitárias. “As primeiras traduzem-se numa enorme carga fiscal que os países fazem incidir sobre o peixe que importam, o que acontece, por exemplo no Brasil”, exemplifica o administrador da Soguima. No caso das barreiras sanitárias, António Guimarães explica que, “apesar de os blocos levarem a cabo acordos comerciais nem sempre estes traduzem a vontade dos contratantes e são criadas barreiras sanitárias que não são mais do que barreiras à importação”. Estas barreiras são muito frequentes no Brasil, na Rússia e na China, por exemplo.

 

Mas, as dificuldades de exportação não ficam por aqui. Desde logo, a concorrência internacional é forte. “Não estamos sozinhos no mercado, concorremos com espanhóis, gregos, franceses e países asiáticos”, entre outros. Por exemplo, a proximidade dos portos galegos e as suas condições de descarga não beneficiam as exportações nacionais. “Não quero dizer com isto que as condições são piores, mas sim que existem na Galiza um conjunto de facilidades que não se encontram nos portos nacionais”. O responsável identifica ainda a falta de mão-de-obra, quer para pescar quer para trabalhar na indústria, como uma barreira ao crescimento das exportações. “Isto é um drama de tal ordem que chegamos ao ponto de ter necessidade de contratar na Indonésia trabalhadores para as nossas fábricas”.

 

Apesar de serem numerosas as barreiras, António Guimarães acredita que há mais oportunidades do que ameaças à exportação de produtos de pescado. Desde logo porque os produtos do mar gozam do estatuto de alimento saudável e esta categoria de produtos está a aumentar as vendas um pouco por todo o mundo. Depois, porque o peixe português é de qualidade e é percecionado como sendo de qualidade. É também um setor que pode tirar partido do quadro de apoios comunitários à exportação e que hoje goza dos frutos do trabalho de diplomacia económica “que há cerca de 20 anos não existia”. Além disso, a fileira do pescado tem uma indústria transformadora dinâmica, dotada de “savoir faire”, pode aproveitar a comunidade de luso descendentes espalhados pelo mundo e a relação de proximidade com os países lusófonos para potenciar a venda do peixe português para o exterior, considera o responsável.

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