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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Um mês depois de fechar a compra da empresa de software a dois fundos espanhóis e a um acionista português, a Enghouse avança com um plano de reestruturação que prevê a saída de dezenas de funcionários, o fim da marca e a migração dos clientes.

A gigante canadiana Enghouse Systems Limited comprou a Alti tude Software no último dia do ano passado, deixando então a promessa a trabalhadores e clientes de que manteria o investimento na empresa e no produto. No entanto, pouco mais de um mês depois da troca de acionistas e da saída da anterior equipa de gestão, a multinacional já arrancou com um processo de reestruturação que está a gerar receios internos sobre um cenário de desmembramento da tecnológica portuguesa especializada em soluções para "contact centers".


Segundo apurou o Negócios, dezenas de pessoas já foram contactadas para rescindir os contra tos e pressionadas a aceitar um acordo, sob a ameaça de despedimento coletivo. Dos 255 funcionários do grupo - fora de Portugal tem sobretudo equipas de vendas e de instalação de serviço -, podem sobrar pouco mais de 160.0 maior impacto será sentido no escritório de Carnaxide, que empregava perto de 180. As primeiras dispensas abrangem funções que passam a ser partilhadas no grupo, como as financeiras ou de marketing, mas também outras ligadas ao produto, desde a certificação ao apoio técnico pós-venda Por outro lado, embora não escape às mexidas, o departamento menos afetado por este plano é o de investigação e desenvolvimento (I&D), que soma 80 colaboradores. Já com poios noutros países com mão de obra de baixo custo, não só na Asiamas também na Europa, como é o caso da Roménia, a Enghouse manterá o interesse nos engenheiros portugueses, com boa formação e mais baratos do que os da América do Norte. Embora fiquem baseados em Portugal, estão a ser distribuídos para prestar serviços a outras empresas do grupo.


Nem a Atitude, nem a subsidiária Enghouse Interactive, em Madrid, nem a sede em Markham (Ontário) quiseram dar explicações. O ex-acionista da Altitude, Gastão Taveira, alegou desconhecer os planos concretos dos novos donos, mas reconheceu ao Negócios que "obviamente eles vão fazer integração nalguns setores". "No comercial é claríssimo, mas também na gestão financeira e no produto haverá tendência para alguma partilha", acrescentou, sem crer no emagrecimento técnico.

"Os nossos engenheiros são muito bons e isso é reconhecido internacionalmente. Aias, a tendência é a de as multinacionais trazerem o desenvolvimento para Portugal, não é tirá-lo de cá", resumiu o gestor, que foi um dos fundadores da MobiComp, vendida em 2008 à Microsoft, e liderou a i2S até ser comprada em 2019 pelos franceses da Gfi a fundos geridos pela ECS Capital e pela Pathena


Porém, só 16 elementos ficam dedicados ao produto da Atitude, seguindo contratos de manutenção em vigor. A intenção, segundo apurou o Negócios, é que deixe de evoluir e no final desse período fazer os clientes migrarem para outras soluções da Enghouse. É o que deverá acontecer, por exemplo, com o sistema usado na Linha SNS 24 pela Altice, que a vai explorar por mais três anos.


Perder vendas e marca


Fundada em 1993 com o nome de Easyphone, a Atitude oferece soluções de "contact center" omnicanal para empresas, utilizadas por mais de 300 clientes para gerir serviços como atendimento ao cliente, assistência, cobranças ou televendas. Outrora uma das coqueluches do setor tecnológico nacional, com escritórios em Madrid, Paris, Bruxelas ou São Paulo, nos últimos cinco anos as vendas caíram de 32 milhões para 22 milhões de euros e o endividamento subiu para cinco milhões. Fontes do mercado atribuem a perda de rentabilidade a apostas erradas na internacionalização, ao desinvestimento na investigação e desenvolvimento (I&D) e alegam que a empresa "perdeu o comboio" das soluções de "cloud".


Após várias aproximação nos últimos dois anos, a até agora concorrente canadiana, com mais de dez mil clientes em 120 países, terá comprado a Atitude por um valor (não confirmado) próximo de 15 milhões de euros. Na última década fechou mais de 20 aquisições de relevo na área do software, como as europeias ProOpti ou Eptica, e a estratégia tem sido a mesmaj á anunciada em Portugal: numa primeira fase apresenta a marca como parte do grupo, de vendo aprazo deixar de existir.

Sem período de transição, toda a equipa de gestão saiu de imediato após a comunicação da venda. Incluindo históricos como o CTO (diretor de tecnologia) Miguel Vital, que esteve 20 anos na empresa e mais de metade como diretor de I&D, e o próprio CEO, Alfredo Redondo, que estava no cargo desde que em 2013 relegou Gastão Taveira para "chairman". Ainda sem substituto apontado, ages- tão deve voltar a ser ibérica e a estrutura portuguesa reportar a Carlos Martinez, diretor-geral da Enghouse em Espanha.


A última mudança acionista tinha sido em 2011, quando a maioria deixou de ser portuguesa com a saída da AI CEP Capital, Olmea, Salvador Caetano e Sonaecom, que sete anos antes tinham salvo a empresa da falência. Entraram os investidores espanhóis IBI (de José Sancho Garcia, também acionista da Novabase e que no último verão vendeu a Panda Software à americana Watch Guard) e o BBVA, que passaram a deter 45% e 31%, respetivamente, mantendo Gastão Taveira 24% através da "holding" pessoal Tafin.

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