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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

A recessão técnica na Alemanha, o abrandamento do crescimento económico em mercados como a França e Inglaterra (incerteza por causa do Brexit) e a crise política em Espanha ameaçam afetar as empresas portuguesas que dependem muito destes mercados, segundo o presidente da CIP.

O presidente da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, António Saraiva, foi questionado sobre que impacto esperar do abrandamento económico da Europa e das ameaças de uma recessão no horizonte, à margem da segunda edição da “30′ a 3”, uma sessão organizada pelo Jornal Económico e o Montepio Crédito.

 

O líder da confederação que representa a indústria e outros setores empresariais disse que as empresas portuguesas têm 75% do seu volume de exportações ainda dependentes da Europa, mas têm procurado diversificar os destinos para fora da Europa.

 

A recessão técnica na Alemanha, o abrandamento do crescimento económico em mercados como a França e Inglaterra (incerteza por causa do Brexit) e a crise política em Espanha ameaçam afetar as empresas portuguesas que dependem muito destes mercados por serem os destinos por excelências das exportações das empresas portuguesas.

 

António Saraiva explicou esta terça-feira que, apesar da diversificação que tem vindo a ser feita pelas empresas portuguesas, “o volume de exportações para fora da Europa ainda não compensa essa grande fatia que a Europa representa”. Saraiva salientou também o papel do Aicep e das embaixadas nessa diversificação dos mercados para as exportações nacionais.

A Europa ainda é o maior mercado do mundo, mas tendo por referência as tendências demográficas, a médio e longo prazo o crescimento estará na Ásia, África e América do Sul.

 

António Saraiva realçou o problema da falta de dimensão do mercado português: “Qualquer feira de vinho nos Estados Unidos esgota-nos a adega”, disse.

 

O presidente da CIP salientou no entanto a evolução das exportações: “Há cerca de uma década estas representavam 27% do PIB, e agora as exportações representam 48%”.  O Governo tinha como meta que as exportações chegassem a 50% do Produto Interno Bruto na próxima década, mas o Programa de Estabilidade (PE) que o Executivo apresentou em abril deste ano, revela que, pelo menos, até 2023 a economia portuguesa não conseguirá essa meta.

 

A conjuntura económica internacional piorou e no Programa de Estabilidade o Governo reviu em baixa a procura externa para este ano de 4,2% para 3,3% em 2020. As exportações apresentam, nas previsões do Governo, um crescimento mais contido. O PE mostra que as vendas de bens e serviços para o exterior crescem 3,8% este ano e no próximo, 3,7% em 2021 e 3,9% em cada um dos anos seguintes.

 

Tendo em conta a evolução do PIB nominal que o Governo prevê, as exportações não passam dos 43% do PIB nesse documento, o que significa que está longe da meta traçada para Portugal dos 50% do PIB.

 

O cenário macroeconómico para a próxima legislatura revelou que a procura externa líquida (que mede a diferença entre as exportações e as importações) apresenta no Programa de Estabilidade contributos negativos durante todo o horizonte de projeção, estando as importações a crescerem, em alguns anos, acima das exportações. O Ministério das Finanças vê o saldo da balança comercial sempre em 0,2% do PIB. Apesar de o Banco de Portugal já ter projetado que em 2020 a balança comercial entre em terreno negativo pela primeira vez em nove anos.

 

Nos primeiros seis meses deste ano, as exportações de bens e serviços cresceram 3,3% (2,4% nos bens e 5,2% nos serviços) e as importações aumentaram 7,3% (6,8% nos bens e 9,9% nos serviços), segundo dados do Banco de Portugal da semana passada. O saldo da balança corrente e de capital (défice externo) atingiu os 2.600 milhões de euros no primeiro semestre deste ano, um agravamento de 55% face ao mesmo período do ano anterior, segundo dados divulgados na semana passada pelo Banco de Portugal.

 

No que toca ao investimento estrangeiro em Portugal, o líder da confederação das empresas realçou que o país já está a atrair investimento direto estrangeiro e citou os casos das empresas Bosch e Siemens.

 

No debate foi salientado ainda que, apesar de “hoje 25% da população portuguesa ter o ensino secundário e pós-secundário, o que compara com 13% em 2005, e de isso significar que temos a geração mais bem preparada de sempre, as empresas têm enormes dificuldades em ter recursos humanos qualificados”, referiu por seu turno Pedro Gouveia Alves, presidente executivo do Montepio Crédito, que participou no mesmo debate.

 

António Saraiva, na conversa no Olivier Avenida, voltou a criticar a mudança das leis laborais, nomeadamente no que se refere à revogação do banco de horas individuais, na qual a CIP e as outras confederações patronais tiveram um papel de mitigação em sede de concertação social. “Não mexam nas leis laborais”, disse o patrão dos patrões que acrescentou que o quadro “é o adequado à realidade dos tempos atuais” e que isso mesmo é reconhecido pelas empresas estrangeiras que investem em Portugal.

 

O presidente da CIP lembrou ainda que 87% dos novos contratos de trabalho são já contratos sem termo, o que demonstra a maturidade do quadro laboral. “A própria economia já está a reagir”, disse.

 

António Saraiva é um defensor do banco de horas individuais que este Governo extinguiu porque estava inscrito no seu programa político. O banco de horas estava parametrizado à utilização de duas horas diárias e a um máximo de 50 horas semanais.

 

A revogação do banco de horas individual já foi aprovada pelo Parlamento. Os bancos de horas grupais foram viabilizados, mas terão de ser aprovados em referendo pelos trabalhadores.

 

Entre as alterações à lei laboral aprovadas este ano estão assim as novas modalidades de banco de horas, a penalização a aplicar às empresas que abusam da contratação a termo, o aumento do período experimental ou a redução do limite máximo dos contratos a termo certo de três para dois anos.

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