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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

O presidente da Fundação Oriente e do Banco Português de Gestão faz um balanço do ano de 2017, analisa o momento financeiro em Portugal e as relações do país com a China.

Que balanço faz do trabalho da fundação em 2017? E vai ter novas diretrizes em 2018?
No outro dia, estava a falar sobre política cultural, sobre o que fazia a fundação. Por muito cru que possa parecer, quando não há dinheiro não há palhaços. Ou seja, não há cultura e não há nada. Temos de assegurar a retaguarda da fundação em termos financeiros porque na cultura quase sempre temos o problema de as pessoas não serem muito preocupadas com o dinheiro. Nesta fundação, ao princípio, achava que tinha de a capitalizar e felizmente que o fiz. Quando chegámos a 1997, por razões que tinham que ver com a pressão do governo chinês, tivemos de abdicar das receitas de jogo. Se não tivesse feito o que fiz nos primeiros anos, a fundação tinha ficado uma coisa muito pequenina. Sobreviveria, mas não tinha a dimensão de hoje.

Quais são hoje as grandes fontes de receita da fundação?
São investimentos que se fizeram depois de 1997, alguns imobiliários, mas sobretudo na Galp, na Central de Cervejas e nas energias renováveis. Nas duas primeiras houve ganhos substanciais que nos permitiram investir em energia, neste ano chega ao fim o fundo Nova Energia e vamos vender a nossa participação a um fundo chinês.

Quando poderá acontecer essa venda?
Em abril. Estamos a analisar alternativas de investimentos. Temos falado com os bancos que gerem os nossos ativos financeiros e são eles que fazem a gestão a partir de linhas que traçamos. Vamos ter um problema que é saber onde investir no futuro - 50 milhões não podem ser todos aplicados no mesmo setor. No nosso caso, usávamos muito os depósitos bancários, que dão pouco, e tivemos de ir para a gestão de ativos.

A fundação está atenta a tecnológicas e startups ou considera essa aposta arriscada?
Sempre estive muito tentado a enveredar por aí. Se o dinheiro fosse meu, fá-lo-ia, mas tenho bastante mais cautela. Há nesses fundos tecnológicos um fator de risco alto, nomeadamente as startups. Não posso expor a fundação a esse risco.

E qual a razão da venda da Nova Energia?
Temos aquilo há mais de 20 anos e chegou a um ponto em que não ganhamos em termos de rendimento, porque era gerido para reinvestir em novos projetos. A fundação tem como um dos fins dar subsídios e não tinha receita nenhuma palpável. O que queremos é ter receitas regulares para podermos regularmente dar os subsídios.

Mas a fundação desinteressou-se das energias renováveis?
Não, ainda há dias vieram propor uma compra de uma licença para a instalação de 300 megawatts de fotovoltaica, que ainda não decidimos, mas porventura vamos dizer que não. Isso implica estrutura que nós não temos.

Que outra área de investimento tem em mente?
Vou-lhe dar um exemplo que vai achar estranho: apareceu-nos uma possibilidade de investimento na compra de um edifício e que alugámos imediatamente a um hipermercado, em Lisboa. Comprámos o edifício na condição de que o utilizador e o inquilino ficam com um contrato a longo prazo, com uma rentabilidade pré-acordada. Se fosse uma carteira podíamos ganhar talvez mais 1,5%, mas aquilo é fixo e é seguro, que é o que queremos. Se nós fizermos dois ou três investimentos daquela ordem, até em imobiliário, temos garantida uma parte substancial dos custos fixos da fundação todos os anos.

O imobiliário continuará a ser uma aposta?
Sim, com uma perspetiva de rentabilidade já acordada.

A fundação é um investidor conservador?
É, muito. E vai continuar a ser, embora nas energias renováveis não tenha sido. Era uma coisa um bocadinho aventureira e fora do que era normal na altura. Fomos inovadores, nós, a Gulbenkian, a Fundação Luso-Americana...

Falou da importância da rentabilidade para distribuir subsídios. Serão apoios só à cultura ou também apoios sociais?
A fundação vai ter de fazer mais na parte social. Agora foi decidido dar um apoio a algumas das autarquias que tiveram problemas com os incêndios. Fizemos um acordo com duas autarquias e a uma vamos oferecer uma ambulância toda equipada; noutra autarquia demos vários apoios sociais, mais pequenos, como a festa de Natal da povoação.

Defende que o apoio social da fundação tem de ser mais relevante. Em áreas em que o Estado não o consegue fazer?
O Estado não pode nunca cumprir o seu papel em tudo, e neste momento já está muito melhor. As fundações têm por obrigação ter um objetivo social mais do que outro. Depois esse objetivo social pode traduzir-se em várias formas. Temos obrigação de ajudar e, por muito que o Estado faça, e tem feito um esforço grande, há sempre necessidade de ter uma ajuda de instituições como as fundações.

Onde é mais preciso?
Estou muito ligado a projetos de infância, miúdos que são abandonados ou entregues a instituições de acolhimento para adoção posterior. Aí há uma lacuna por parte do Estado, não há suficientes instituições e mesmo as que existem precisavam de ser mais ajudadas. Têm de ser todas bastante controladas, sem chegarmos ao exagero em que se chegou agora noutras instituições e onde foram descobrir coisas extraordinárias.

Refere-se à Fundação O Século?
Não consigo perceber o que se passa lá. Tem de se dar mais facilidades a essas instituições, mas mantendo uma vigilância grande. Não uma vigilância vaga e depois virem dizer que se portaram mal por isto e por aquilo.

Numa entrevista anterior disse: "O apoio social já não será tão preciso neste momento" em Macau, pois distribui um cheque de apoio social de mais de 400 euros pelos residentes. Esse apoio mantém-se?
Até a mim. Continuo a receber o meu cheque. Sou residente não permanente de Macau, porque já não vou lá tanto, e recebo um cheque todos os anos. Hoje Macau não precisa, por razões meramente políticas, e não vão deixar a uma instituição estrangeira essa tarefa. Eles têm meios para o fazer e acho bem que o façam.

Nesse caso, a fundação em Macau terá um papel mais cultural do que social. Que planos tem para essa atividade em 2018?
Exposições que vamos fazendo, iniciativas que têm que ver com o salão de outono e exposições que vão daqui, orquestras, grupos musicais, livros. Temos uma relação bastante mais próxima com as organizações congéneres de Macau e estamos a fazer coisas em conjunto. Houve ali um período em que estava muito recente a passagem e não havia muita vontade, mas hoje há e fazemos coisas que são do interesse de ambas as partes.

A fundação apresentou já as contas de 2017?
Não, estamos sempre atrasados, mas estarão prontas nesse mês. O problema são as participadas, que demora mais tempo.

Em relação à lei das fundações, identifica-se com ela? Precisa de ajustes?
Tenho uma posição muito crítica relativamente à lei das fundações. É uma lei muito pouco amiga das fundações e criou problemas porque deu uma imagem errada das fundações.

Como se nenhuma fosse transparente?
Sim. Isso só existe porque o Estado quer que exista assim. O Estado tem fundações e as fundações públicas não são fundações, são institutos públicos ou instituições de solidariedade. Quando misturaram tudo deu asneira. Houve críticas, mas na maioria dirigiam-se às fundações públicas. E enquanto não separarem o trigo do joio estamos mal.

Se fosse legislador essa seria a primeira medida?
Sim, separar as públicas das privadas. Haveria uma lei para as públicas, outra para as privadas. Não podem estar a impor às fundações privadas as medidas da troika, que quando o fez não estava a falar das privadas mas das públicas.

Em que é que isso vos prejudica?
As fundações privadas têm de ter mais autonomia do que esta lei permite, porque é muito restritiva em termos de gastos com pessoal. Percebo que tem de haver um direito para as fundações privadas também, muitas deles têm utilidade pública, portanto beneficiam de um estatuto diferente. As fundações devem ter mais autonomia e, se querem ter mais fundações em Portugal que valham a pena, têm de o fazer. Há uns anos, Portugal tinha uma posição em relação às fundações, em que estas eram particularmente bem conceituadas, eram conhecidas internacionalmente e faziam o seu papel. Não existia nenhum controlo, mas acreditava-se nos instituidores e nos conselhos de administração que lá estavam. Houve pequenas alterações na legislação, mas tem de haver nova legislação: separar as privadas das públicas e quanto às privadas dar mais autonomia, uma autonomia que merecem na medida em que a contrapartida está ali.

Como é que hoje olha para a economia macaense, tão assente no negócio do jogo?
É o dobro de Las Vegas e Atlantic City juntas. Em termos de receitas é um disparate. Mesmo há 30 anos era assim, mas nessa altura ainda havia outros setores de atividade como as flores artificiais, alguns bordados, brinquedos, confeções... Hoje praticamente morreu tudo e temos o jogo.

Estará excessivamente dependente do jogo?
Está. Quando o peso de um setor é aquele que tem o jogo em Macau, obviamente que é perigoso. O problema é que também não vejo alternativa. É difícil arranjar um nicho de mercado, a não ser para setores tecnologicamente mais evoluídos. Aí sim, com os meios que tem Macau, pode oferecer-se e financiar-se a criação de empresas tecnologicamente avançadas e que, aí sim, já podem competir com outros países daquela zona.

Referiu ser utilizado esse capital do jogo, essas receitas, para investimento em empresas tecnológicas avançadas. Macau poderia ser uma espécie de Silicon Valley?
Poderia ter sido. Ainda penso que vale a pena tentar isso, porque os meios existem. De resto, estão a tentar diversificar a economia, estão a puxar por investidores para irem lá, mas até agora não tenho notado que tenha tido muito sucesso essa política, mas era bom que tivesse. Não se pode deixar um território com 700 mil pessoas à mercê da flutuação do jogo, que no fundo depende da China. Eles gostam de jogar tendo muito ou pouco dinheiro, agora pode entrar toda a gente e joga-se muito mais.

Consegue eleger um grande ganho para Macau desde que passou para o domínio chinês?
A mudança materializou-se em termos de receitas na abertura das fronteiras quase por completo. O fluxo turístico e do jogo disparou de forma inacreditável. O número de pessoas que visitam Macau por ano é 30 milhões.

No final do dia, Portugal ganhou alguma coisa com isso?

As pessoas conscientes percebem que já temos que ver muito pouco com Macau e nem o aproveitámos bem. Há coisas que os chineses assumiram completamente e é evidente que a China é que determina as linhas mestras da política Em Hong Kong também, mas em Macau é diferente porque a influência portuguesa foi grande e nós sempre fomos muito mais simpáticos.

Há janelas de oportunidade de retomar esta aliança? Macau precisa de nós?
Portugal pode ser um húb importante devido à forma como os chineses nos veem. Devíamos aproveitar mais isso e não aproveitamos. Somos como "velhos amigos" e isso para eles tem um significado histórico grande.

Traduz-se em confiança?
Sim, aliás vê-se com a vinda cá dos presidentes e primeiros-ministros da China. Vêm cá muito mais do que a qualquer país da Europa. Gostam e têm um carinho especial por nós. Às vezes desarmamo-los um bocadinho, porque não entendem algumas das nossas reações.

Podemos recuperar essa relação a nível económico?
Temos de ter a noção do que é a nossa economia e do que é a economia chinesa. Vai ser difícil, mas há certamente coisas em termos técnicos. A nível da engenharia, temos muito bons engenheiros, os chineses também já têm, mas poderiam aprender com o que temos. Às vezes vêm aí e compram empresas não pelo valor intrínseco da empresa, mas pela sua técnica, para absorver a técnica que eles não têm. Basicamente, estão a comprar aceleração.

Há empresários de Macau com interesse em investir mais em jogo e em turismo em Portugal, como o Dinheiro Vivo já noticiou, e poderá haver uma eventual extensão da licença de jogo de Troia para Setúbal. O que lhe parece?
Qualquer licença em Portugal, a não ser as de Lisboa e Póvoa, não tem interesse nenhum. Aquilo é uma indústria de massas, aqui funciona, mas em Troia não há gente. Agora, já soube que Lisboa até está a funcionar melhor do que o Estoril e o Parque das Nações está cheio de chineses.

Os investimentos chineses da Fosun e da China Three Gorges vieram para ficar?
Temos de ter muito cuidado. Isto não tem que ver com os chineses, tem que ver connosco, com gestores nessas empresas. Têm de, ao mesmo tempo, ter a confiança do investidor e do Estado. As Utilities não são coisas que se possam tratar
como uma fábrica de calçado, acho que as Utilities nunca deveriam ter sido privatizadas, ou deveria ter-se acautelado, o que hoje já é aceite, a golden share em relação às Utilities, porque o Estado tem de ter sempre uma palavra a dizer.

Os investidores da China continuam a procurar em Portugal gestores discretos e que passem uma boa imagem da China na Europa? Quão importante isso é para esses investidores?
Isso é uma coisa muito importante para eles: corresponder ao que é o grande desígnio chinês que é apresentar-se como uma potência da economia mundial. Querem ser ainda mais, querem ultrapassar os EUA e querem ter aqui pessoas que joguem nessa direção.

Que conselho pode deixar a um empresário que leia o DV e que queira entrar e fazer negócio com a China para conseguir ganhar esse respeito?
Deve ser urbano na sua postura. Mas ao mesmo tempo que é urbano é firme. Às vezes, por falta de dinheiro, somos obrigados a fazer algumas concessões, mas não pode também servir de tapete, não pode. Porque isso vai jogar com eles a prazo. Eles aceitam isso perfeitamente desde que estejam a escolher uma base de seriedade e uma base que faça sentido, lógica, eles aceitam perfeitamente.

A eventual suspeição que possa existir acerca das intenções do investimento chinês terá que ver com questões políticas?
Tem que ver com as lojas dos chineses. Porque é barato, é assim uma coisa. Diziam que os produtos chineses eram de má qualidade e não sei quê.

Mas houve essa suspeição no início, terá a ver com a questão política, de se achar que vem com uma missão política para Portugal?
Há quem pense assim. Indo ao fundo das coisas, é evidente que não é por acaso que os chineses querem participações. Têm, acho eu, uma posição um bocadinho mais fraca no Atlântico Norte e também precisavam de base, portos, etc. E o melhor que lhes podiam dar era Sines, mas não têm nenhuns portos, com exceção da Grécia Não têm portos nenhuns no Atlântico, aqui na parte ocidental.

Mas tem-se falado de novos investimentos nos portos. Não só em Sines, mas andarão a ver outros portos para investir...
Setúbal parece que fazia sentido. É um porto já com alguma importância e poderia fazer sentido. O Algarve também e continuam a estar interessados no alargamento do porto de Sines. Como podem estar interessados em portos... começam com a construção a custos baixos. Falamos por exemplo dos Açores.

Para demonstrar aos americanos que também lá estão?
Sim, mas isso é difícil e os americanos não vão achar muita graça. Com o alargamento do canal do Panamá as rotas vão ser um pouco diferentes e vai haver mais navios que vêm daquela zona para aqui, para a Europa. E isso pode ser perfeitamente feito nos Açores, Santa Maria, por exemplo.

Com esta orientação política de conter o investimento chinês e evitar a saída de capitais da China, Portugal poderá ser um pouco prejudicado?
Pode, mas os grandes investimentos chineses são sempre investimentos chineses que têm a mão do Estado chinês. Isso aplica-se ao investidor mais privado, que quer tirar dinheiro da China para vir investir de qualquer maneira para a Europa, para ser da moda. Portanto com esses não precisamos de estar preocupados.

O que espera da missão do novo embaixador de Portugal na China, José Augusto Duarte?
Vai ter que ter em conta que o seu predecessor lhe deu um lugar bastante pesado, era um tipo bastante bom. Já falei com ele e estou convencido de que vai fazer um bom papel. Há sempre mensagens que têm de ser passadas na China e é bom ter lá um embaixador que entenda bem a realidade e do relacionamento do seu país, Portugal.

A geringonça ajuda ou penaliza a relação Portugal-China?
Não, a geringonça é ótima. Não tem nada que ver com a geringonça. Eu sou um grande adepto da geringonça.

Surpreendeu-o?
Surpreendeu um bocadinho.

Acredita neste crescimento de Portugal como um crescimento sustentável quando faz uma analise da nação?
Isso é quase do foro da bola de cristal. Não posso responder a isso. Os fatores exógenos são de tal maneira pesados que temos de ver como é que tudo o resto funciona no mundo inteiro. Temos de perceber se vamos poder manter este crescimento e creio que sim. 2018 vai ser um ano ainda com crescimento, sobretudo quando começarmos a morder na dívida, e já estamos a faze-lo. Mas temos de o fazer ainda mais. Temos de manter sempre incentivos à exportação e encontrar novos setores de atividades. E é criar condições para os jovens investidores, para os novos investidores avançarem. Porque no que é tradicional nós estamos bastante bem. Nos vinhos, no calçado, nessas coisas todas.

Acredita que o setor da banca já está estabilizado?
Estabilizado acho que nunca estará.

Mas os esqueletos terão saído todos do armário?
Só quem não conhece a banca é que pode dizer que os esqueletos já saíram todos do armário. Claro que a conjuntura nacional tem um grande efeito nisso. O setor financeiro levou um pancadão, para não dizer outra coisa, por causa de legislação implementada pelo BCE. Deixou de ser o sítio onde as pessoas gostavam de investir, deixou de ser uma elite e passou a ser um setor em que ninguém quer investir. Mas os esqueletos, desde que isso seja feito com alguma contenção ao longo de um período mais largo, acabam por desaparecer. Não é impor prazos incomportáveis. Para os grandes bancos, era importante parecer que estão em primeiro lugar ou em segundo. E nunca descer para terceiro ou para quarto. O que é uma patetice. Que os bancos não têm de subir para primeiro ou descer. Têm é que ser sólidos, acabou, ponto final, o resto é conversa. Mas têm de ser sempre o primeiro banco, o banco mais importante.

Aprendemos alguma coisa com essa crise, ou com o crescimento voltamos ao mesmo?

Não, eu acho que aprendemos alguma coisa com a crise. Mas quer dizer que os dados que temos hoje começam a preocupar-me bastante. Há crédito e consumo que nunca mais acaba, com tudo o que isso implica. E se calhar vamos acabar na mesma coisa.

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