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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

No último ano, o financiamento do Banco Europeu de Investimento a Portugal aproximou-se dos dois mil milhões de euros.

Emma Navarro assumiu a vice-presidência do Banco Europeu de Investimento (BEI) em Junho. A mulher que lidera parte das operações do banco da União Europeia - uma instituição que tem como objectivo central ir buscar financiamento aos mercados para projectos que ajudem a concretizar a política europeia - diz que Portugal está a fazer as apostas certas para o futuro.

Portugal está a aproveitar suficientemente o BEI?
Certamente. É um parceiro-chave para o banco. Celebrámos há dois anos os 40 anos de actividade em Portugal. Desde que começámos, em meados dos anos 70, o financiamento do BEI para Portugal aproxima-se agora dos 50 mil milhões de euros.

Como compara com outros países da mesma dimensão?
A comparação é favorável. No último ano aproximou-se dos dois mil milhões de euros. Em termos de PIB é 1%. Em Espanha também rondou 1% do PIB. Tem sido tradicionalmente um dos maiores receptores de financiamento. A contribuição do banco tem sido importante para suportar projectos-chave para a modernização da economia e para a integração na Europa. Por exemplo, a ponte Vasco da Gama, a extensão de aeroportos, metros no Porto e em Lisboa, entre outros. Apoiámos cerca de 30 mil pequenas e médias empresas, desde o início da nossa actividade.

Vê diferença em Portugal antes e depois da crise?
No início da crise, e também porque o banco teve de aumentar o seu capital devido a um ajustamento interno, tivemos um pequeno impacto. Mas o investimento tem vindo a recuperar todos os anos. No que toca ao plano Juncker, Portugal é também um dos maiores receptores de financiamento. Desde o lançamento do programa foram aprovados 38 projectos o que significa financiamento de 2,3 mil milhões de euros, que esperamos que mobilize investimentos de perto de 7,5 mil milhões de euros. Em termos de PIB, está entre os quatro países que mais beneficiaram do plano Juncker. A actividade em Portugal é sólida e boa.

Vê espaço para melhorar a relação entre o BEI e as PME?
É um ponto muito importante porque o BEI não tem quota por país. A comunicação para chamar a atenção para as vantagens do financiamento atractivo do BEI, em termos de maturidades, preços, é chave. E também para as PME e promotores privados em Portugal Mas a economia portuguesa tem agora um ecossistema de inovação que está a crescer.

Vê diferença face ao passado?
Entrei no banco em Junho... Mas, por exemplo, fechámos recentemente dois projectos muito positivos. Assinámos um acordo de assessoria com a COTEC, para ajudar as PME a acelerar o seu processo de digitalização. Vamos ver como podemos estruturar o financiamento, quais são os obstáculos à digitalização em Portugal e será uma experiência que também pode ser exportada para outros países. Portugal está a focar-se bastante nos tópicos que são chave para o futuro.

E o outro projecto?
Também assinámos um acordo com a Instituição Financeira de Desenvolvimento (IFD), através da Plataforma de Aconselhamento (PA), que é um pilar do plano Juncker. Agora a PA poderá trabalhar em Portugal tendo também a IFD como um ponto de entrada para os serviços. Assinámos também o financiamento à Windplus, para um projecto muito focado em inovação e energias renováveis.

A reforma da Zona Euro vai trazer mudanças ao BEI?
O nosso enquadramento é da União Europeia, mas estamos aprestar atenção ao debate no Eurogrupo. É muito importante para toda a União. Mário Centeno está a fazer um bom trabalho no Eurogrupo para completar essas reformas. Na união bancária, que é chave, ainda é preciso o mecanismo de seguro de depósitos europeu, completar os pilares, também a união do mercado de capitais, que vai ajudar-nos a melhor diversificar e alocar o risco. O banco pode ser também uma peça na diversificação do investimento. E claro, a ferramenta de estabilização orçamental na Zona Euro. O banco está a prestar atenção.

Mas estão só a tomar atenção? Não estão a ser ouvidos?
Estamos prontos para tomar parte. O plano Juncker provou que sabemos como responder quando há uma necessidade de investimento na Europa. Mas este é um debate da Zona Euro. Se nos fosse pedido alguma coisa, claro que estaríamos prontos, mas neste momento não participamos nas discussões.



Faltam à Europa 400 mil milhões por ano para investir

Emma Navarro está atenta ao proteccionismo e diz que a Europa se deve manter "firme" na defesa dos multilateralismos.

Apesar dos esforços, continua a haver uma carência grande de investimento na Europa. Seriam precisos mais 400 mil milhões de euros por ano, diz a vice-presidente do BEI, Emma Navarro.

O que espera em termos de investimento na Europa? Vemos um abrandamento na actividade económica.
É verdade que vemos um pequeno abrandamento. O BCE ainda diz que o crescimento...

Está forte?
Diria que os fundamentos da economia parecem sólidos, mas olhando para o crescimento potencial, é baixo. O investimento vai ser chave para abordar uma série de desafios: digitalização, inovações e mudanças da quarta revolução, ou alterações climáticas, como manter-se competitivo na economia global.

Para aumentar o crescimento potencial.
Sim, para aumentar a produtividade, tornar as economias mais competitivas e melhorar o crescimento. É a nossa missão: apoiar as economias europeias e torná-las mais fortes através de investimentos sustentáveis. E verdade que a crise teve um impacto. Estimou-se, quando o plano Juncker foi lançado, que o investimento estava 15% abaixo do seu nível pré-crise. Desde então, recuperou. Os economistas do banco dizem que agora o investimento privado está a retomar gradualmente. Mas temos novas necessidades. Estimamos, no banco, que para resolver a carência de investimento precisaríamos de cerca de 400 mil milhões de euros por ano.

Como é que compara com o que temos neste momento?
Esta estimativa mostra que o BEI continua a ter um papel importante a desempenhar. Mas claro que o investimento privado também está aí. Não temos de assumir essa tarefa sozinhos.

Está preocupada com o futuro e com o abrandamento económico?
Precisamos sempre de trabalhar de forma optimista para tornar o futuro melhor. Temos de nos manter confiantes, e de nos tornar mais resistentes. O investimento é uma das coisas que precisamos de fazer, mas há outras que são da responsabilidade dos governos e dos Estados-membros. Precisam de melhorar as suas economias e torná-las mais resistentes, com reformas estruturais, cuidar das finanças públicas.

Teme que as empresas fiquem mais tímidas no investimento perante riscos como o proteccionismo?
É um dos maiores riscos que enfrentamos. Pelo menos a ameaça do proteccionismo, que testemunhamos há pelo menos um ano. Apostura da Europa, que é o maior projecto de integração do mundo, tem sido sempre de defender o sistema económico global de multilateralismos e precisamos de nos manter firmes aqui.

Mas empresas estão mais receosas?
Não vejo que as empresas com que nos relacionamos tenham medo. Tanto nas nossas operações na Europa, que representam 90% da actividade do banco, como no resto dos países em que operamos. É uma preocupação global. Se se materializa, terá impacto na Europa e, claro, no banco.

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