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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

"Os ministros com responsabilidades nas áreas económicas, como o da Economia, dos Negócios Estrangeiros, têm de dar corda aos sapatos."

António Mendonça, é professor catedrático de Economia do ISEG, foi ministro das Obras Públicas de 2009 a 2011. Em entrevista ao Dinheiro Vivo, defende uma maior aposta na indústria exportadora e teme a concentração demasiado elevada em turismo e imobiliário.

 

A economia europeia vai continuar a crescer em 2018, mas abranda ligeiramente. Como é que isso pode afetar as exportações nacionais ou incentivar a ida para outros mercados?

 

Não obstante uma certa quebra no crescimento que se está agora a antecipar, julgo que Portugal tem todas as condições para ultrapassar isto. Não quero dizer que não sofra com esses efeitos, mas julgo que há dinâmicas positivas que vão permitir sustentar o ritmo das exportações e estou a pensar em concreto no caso do turismo e nos sectores ligados a este. Podemos mesmo estar em condições de conquistar algumas quotas de mercado neste sector. A este nível, tenho uma visão relativamente otimista porque de facto, atualmente, o país está muito virado para as exportações, como nunca esteve, aliás. Mais turístico.

 

E os outros sectores?

 

Muitos sectores, sobretudo os industriais, tiveram uma capacidade de sustentar as suas exportações através de produtos de qualidade média e alta. Houve uma melhoria clara na qualidade da gestão por parte das empresas, bastantes apoios públicos, um maior dinamismo da AICEP. Há aqui um conjunto de iniciativas que tiveram lugar e devem continuar a ser conjugadas, seja na esfera pública, quer privada, de forma a garantir que o desempenho exportador do país continua a evoluir bem.

 

Durante a crise o sector exportador tornou-se mais saliente, ganhou protagonismo. Foi por mérito próprio ou foi porque outros agregados como o consumo das famílias e o investimento sofreram fortes desvalorizações?

 

O desempenho exportador também foi afetado pela crise, mas o sector já estava a ganhar força há muitos anos, mesmo antes da crise. Na minha opinião, muitas indústrias souberam reinventar-se, subiram na cadeia de valor e com isso conseguiram ter músculo para resistir às variações da conjuntura.

 

Portugal produz barato ou produz bom e barato?

 

Acho que existe aqui uma conjugação dessas duas dimensões. Os custos relativamente baixos da economia face a outros concorrentes também são importantes, é óbvio, mas há uma maior capacidade de produzir qualidade e de sermos reconhecidos por isso lá fora. A imagem geral do país hoje é positiva e os produtos portugueses têm qualidade. Nos meus contactos, falando com colegas economistas estrangeiros, a imagem que têm do país exportador é francamente positiva. Portugal já não aparece associado àquela ideia antiga de um país de produtos simples e baratos.

 

O investimento direto estrangeiro (IDE) teve um papel decisivo nisso?

 

Com certeza que sim. Muitas das empresas exportadoras são internacionais. Produzem aqui, algumas delas há muitos anos, e têm os seus próprios mercados, tem redes de contactos já implantadas, estruturadas. Estou a pensar na Autoeuropa, mas há mais exemplos. Daí a importância crucial, diria, do IDE que só por si já traz um perfil exportador adicional para a economia. Mas mesmo aqui, penso que o país ainda tem muito trabalho pela frente.

 

Como assim?

 

Acho que houve alguma perda de capacidade de atração de IDE, por várias razões, mas é preciso compensar isso e trazer mais investimentos para Portugal, sobretudo na indústria.

 

Em que sectores em concreto é que estamos mais passivos em termos de IDE?

 

Nos últimos anos, o IDE foi muito orientado para a parte financeira, para o imobiliário, para o turismo, mas acho que falta captar mais interesse para o sector industrial ou até mesmo para a agricultura, para a agroindústria. Já temos bons exemplos cá, mas é preciso mais desse IDE produtivo.

 

Como é que faz isso? Onde é que está esse IDE?

 

Bom, não sou um especialista, mas penso que temos de bater às portas todas, ir mais à procura. Os ministros com responsabilidades nas áreas económicas, como o da Economia, dos Negócios Estrangeiros, têm de dar corda aos sapatos. Têm de ter uma atitude mais voluntarista, não é só estar à espera que as coisas aconteçam e venham ter connosco porque Portugal está na moda.

 

Pode dar um exemplo?

 

Quando olhamos para o investimento… É um fator que estou sempre a abordar junto dos meus alunos. Nos últimos anos, a dinâmica do investimento privado, público também, é uma coisa incrível. Nós regressámos aos níveis de investimento que tínhamos no final dos anos 80 do século passado. O peso do investimento, embora tenha recuperado um pouco nos últimos tempos, regrediu de forma impressionante. Houve perda de investimento. Isso não pode deixar de ter consequências a prazo.

 

Se tivéssemos investimento mais ou melhor, estaríamos a exportar mais?

 

Penso que sim. À partida, julgo que perdermos capacidade produtiva e de reação às mudanças económicas, tecnológicas, que entretanto foram acontecendo.

 

O novo pacote de fundos europeus ainda pode dar uma ajuda nesse sentido?

 

Sim, mas no outro pacote de fundos houve muito subaproveitamento do seu potencial. Faltou capacidade interna de investimento, que era necessária para associar aos fundos estruturais. Havia as restrições das contas públicas. Isso tudo teve impactos negativos na nossa performance económica e alguns dos efeitos ainda perduram.

 

Entretanto, Portugal descobriu a mina de ouro do turismo.

 

Sim. Acho que temos sinais positivos na indústria, mas quem está verdadeiramente a puxar pela economia é o turismo, que por seu turno puxa por outros sectores, como o imobiliário. É importante, mas não podemos ficar descansados com isto.

 

Porquê?

 

Porque corremos o risco de estarmos a encher uma nova bolha. O turismo e os sectores satélite são uma coisa boa, mas cuidado. Não podem ser dominantes na economia porque são alimentados por coisas que nós não dominamos. Hoje está tudo a correr bem, e ainda bem, mas o turismo é um sector que pode sofrer uma alteração completa de um momento para o outro, com impactos e consequências negativas. É uma regra básica de um país que se pretende desenvolvido que diversifique as suas fontes de crescimento e as suas bases produtivas. Depender muito do turismo é arriscado.

 

O turismo é uma indústria que pode esgotar-se mais facilmente que outras, é isso?

 

Penso que sim. É um sector muito suscetível a ciclos geopolíticos, por exemplo. O turismo em Portugal tem beneficiado disso. Acresce que é um país pequeno, não nos esqueçamos disso. É possível manter o fluxo turístico, durante muitos anos, em países como Itália, França, Espanha, mas atenção: Portugal é pequenino e, nesse sentido, o impulso pode esgotar-se mais rapidamente.

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