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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Um festival que diz não ser como outros, para uma mentalidade que já não é a do passado. Porque agora “o mercado pode ser o mundo”. Chama-se MIL e está de regresso para embalar a lusofonia.

Lisboa será palco, pela terceira vez, do MIL - Lisbon International Music Network, festival focado na divulgação e internacionalização da nova música actual produzida não só em Portugal, mas nos países de língua oficial portuguesa. Entre os dias 27 e 29 de março, músicos, agentes, promotores e profissionais da indústria juntam-se nas margem do Tejo com a lusofonia no horizonte.

 

Mas o que é isso de exportação de música de expressão portuguesa, porque é que se deve "vender" o que de melhor se faz na música lusófona e porque é que festivais como o MIL têm uma importância que se estende fora dos palcos? Gonçalo Riscado, co-fundador da CTL (Culture Trend Lisbon), entidade organizadora do evento, e os músicos Joaquim Albergaria (Vicious Five, PAUS, Bateu-Matou) e Selma Uamusse ajudam a responder.

 

Porquê "vender" a lusofonia? Porque é "uma questão de escala"

 

Para Gonçalo Riscado é importante aumentar a "quantidade e a qualidade do produto que temos para oferecer". "Na componente da exportação Portugal é um país pequeno, a quantidade de artistas que por ano possam surgir com potencial de exportação é reduzida, por muito criativo e com qualidade que o trabalho seja feito. É uma questão de escala". Por essa razão, diz, "se juntarmos os esforços com o que está a ser feito no mercado de língua portuguesa somos mais fortes".

 

Esse é um ponto, mas há outros. Como a influência "que a música feita nestes vários países de língua portuguesa tem na própria criação atual". Hoje, diz o organizador do MIL, "existe um som que resulta da mistura do que é feito em termos de música tradicional dos vários países de língua portuguesa". Uma mistura "muito rica" e "muito particular" e que "se tem destacado ao nível do potencial de internacionalização".

 

Joaquim Albergaria, voz dos extintos Vicious Five e atual baterista dos PAUS, concorda com esta posição e destaca o advento do kuduro, com os Buraka Som Sistema como "grandes embaixadores na sua  versão europeia". Com eles, diz, "começou um dominó tanto de consciencialização lá fora como de estimulação cá dentro. Estimulação que nos coloca, hoje, como um polo de criação". "Por necessidade colocamos um cunho lusófono, porque o que tem em comum é a língua portuguesa e porque não dá para amarrar num género como se consegue fazer com o fado", continua. 

 

Também Selma Uamusse, autora de um dos discos mais aclamados do ano passado, "Mati", acredita "que há um grande potencial na exploração do mercado lusófono". "Até pelos próprios países da lusofonia", diz, destacando a importância do mercado brasileiro. "A música destrói barreiras e preconceitos e aproxima nações. E mais do que tudo, cria valor valor económico", considera ainda.

 

Predisposição para o risco da internacionalização enquanto "um investimento"

 

Apesar de haver potencial e de "haver cada vez mais uma predisposição para o risco da internacionalização da música", Gonçalo Riscado, da CTL, considera que essa ainda não é uma realidade.

 

"Não posso dizer que hoje em dia a música portuguesa ou de língua portuguesa seja campeã de internacionalização, ou que está a entrar pelos mercados de forma visível com um sucesso gigantesco. Isso ainda não está a acontecer. Mas há uma grande aceitação dos profissionais, que estão a tomar contacto com esta realidade, [a música lusófona] está muito bem vista em termos de potencial criativo e consequentemente de potencial comercial, mas [essa aposta e projeção internacional] não é ainda uma realidade. Comparando com outros países estamos muito atrás", lamenta.

 

O que há é uma mentalidade, na nova geração de artistas e de managers, e "uma vontade que não existia antes", diz o organizador do MIL. De há cinco-seis anos para cá "já há uma perspetiva de que o mercado pode ser o mundo e não apenas o nosso território. Mas para conseguir é preciso um esforço grande e investir". Esforço que pode resultar na conquista do mercado, e se não resultar, diz, consiste numa "numa aprendizagem importantíssima, quer a nível de trocas criativas quer a nível de experiências".

 

Esta "nova mentalidade" diz respeito não aos "artistas consagrados", mas a novos projetos que estão disponíveis para fazer esse "investimento".

 

"Uma situação é o artista ter a sua carreira nacional e depois, se por algum acaso, como ser descoberto, dar o salto. Obviamente que sempre houve artistas que metiam a mochila às costas e que iam por essa Europa fora a tentar fazer o dinheiro suficiente para pagar a gasolina. Sempre existiu e continua a existir. Mas hoje em dia há noção de que quando se prepara um trabalho, para querer mostrá-lo fora do país, tem de haver uma estratégia e tem de haver investimento. Esse investimento passa por questões de marketing, por disponibilidade para integrar circuitos e estar presente em feiras e festivais [como o MIL], algo que tem custos e não tem certeza de resultados".

 

"Os apoios à internacionalização e à própria música popular moderna são uma realidade bastante nova. Normalmente era um setor desprezado em termos de apoios públicos", diz-nos Gonçalo Riscado, acrescentado alguns exemplos, entre os quais o apoio à internacionalização na área da música da Direção-Geral das Artes, a Fundação GDA, que considera que se tem destacado entre os demais, o programa Portugal Maior do Instituto Camões e a plataforma "Why Portugal".

 

Em resposta ao SAPO24, sobre esta questão, a AICEP — Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal —,  refere que das Indústrias Culturais e Criativas, "o sector da música é o que mais se tem destacado no âmbito da internacionalização". “Portugal está hoje representado nas maiores redes europeias de música, como a ETEP – European Talent Exchange Programme e a EMEE – European Music Exporters Exchange", acrescenta. A agência destaca, sem revelar números, que  “o investimento contínuo no apoio à internacionalização", em particular ao setor da música portuguesa, "constitui uma aposta com resultados muito positivos”, sublinhando que “o setor contribui para empregar pessoas qualificadas e promover a cultura e imagem externa de Portugal”. 

 

MIL, um festival facilitador do investimento

 

As mais de 70 bandas nesta edição têm no MIL uma oportunidade semelhante às proporcionadas por outros congéneres internacionais — o MaMa em Paris, o Eurosonic em Groninger, na Holanda, ou o SIM, em São Paulo, no Brasil.

 

Essas oportunidades, traduzem-se, de acordo com Gonçalo Riscado, na possibilidade "de tocar para uma série de profissionais que poderão ser compradores do seu espetáculo". Na plateia estarão não apenas melómanos curiosos por descobrir novas sonoridades, porque o MIL "é um festival de descoberta para um público generalista", mas também editores, produtores ou programadores de festivais ou salas de espetáculos. "Dos espetáculos ou das conversas que possam acontecer durante o dia da convenção, surgirão oportunidades para os artistas irem tocar a outros países ou de conseguir uma representação, agenciamento ou distribuição", explica.

 

Por isso diz Gonçalo que "o MIL não segue as regras de um festival normal". Para além do networking há a componente formativa possibilitada pelas keynotes, masterclasses e workshops que acontecem nos três dias da sua realização. "A formação dos nossos profissionais é algo também muito importante", refere. E é graças aos músicos que a continuidade do festival é assegurada. "A maior é validação é a vontade, ou não, dos artistas e dos agentes em estarem envolvidos neste processo. Há um investimento dos artistas e nós somos facilitadores desse investimento. Se a percepção for negativa, a disponibilidade acaba e acaba também o projeto", destaca o organizador.

 

Joaquim Albergaria conta que a sua experiência no MIL não foi muito diferente de outros certames de exportação em que já participou. "Foi montar e tocar rápido, trocar muitos e-mails e números de telefone, marcar reuniões e conversas para depois, mas acima de tudo fazer amigos", conta o baterista dos PAUS.

 

"Nós [os PAUS] somos uma operação multifuncional: somos os músicos, somos os designers, os estrategas de comunicação, os nossos próprios agentes e managers. Mas é diferente com todas as bandas. Há bandas que vêm com uma equipa gigante e há bandas que são a equipa gigante", brinca.

 

Também Selma Uamusse, que integra o cartaz do MIL da edição deste ano, já esteve noutros eventos semelhantes. "Todos eles com uma dinâmica muito diferente e com muito interesse, não só da ótica de alguém que faz música como de alguém que se interessa por aquilo que está a acontecer na atualidade", lembra.

 

"Recordo-me que logo a seguir ao MIL recebi um e-mail da programadora do Lollapalooza a propor-me fazer parte de um projeto de mulheres. Não tive a disponibilidade para fazer o que era pedido, e por isso não aconteceu, mas houve um contacto direto. Também por consequência do MIL tive o convite para ir fazer o MaMa Festival [Paris], onde tive contacto com mais programadores e agências que se interessaram em fazer o booking dos meus concertos. No SIM [São Paulo] também, para além de ter agora uma agência no Brasil, já tenho alguns convites para ir fazer uma segunda leva de concertos por lá".

 

A artista moçambicana diz que consegue ver uma "uma ligação muito efetiva" entre a presença em eventos como MIL e resultados. "Também porque tenho tendência em ir falar com as pessoas e saber o que é que elas acham. Se calhar há alguns artistas que vão fazem só o seu espetáculo. Eu tento também conhecer os programadores e as programações".

 

O que ainda falta fazer?

 

Joaquim Albergaria é bastante perentório no que ainda falta fazer. "É preciso criar uma rede de parceiros que saibam o que estão a comunicar e que saibam o que estão a promover ". Um trabalho que defende que  "seja de construção e não só de passagem". Porque, diz, "tocar por ir tocar, lá fora, uma data, é fixe. Mas é ainda mais se o fizer dentro de uma estrutura e de uma equipa que consiga dar valor e continue a construir uma relação com o público e com parceiros e que fomente uma necessidade para querer voltar a receber essa música", defende.

 

O baterista propõe "parcerias em termos de agenciamento de concertos, de representação e promoção de artistas e protocolos do ponto de vista contratual". Vai mais longe e diz ainda que é preciso "que as nossas finanças comuniquem com as Finanças dos outros países e que a nossa Segurança Social comunique com as de outros países". "Para que os artistas e os representantes dos artistas consigam ser remunerados em justiça com uma perspetiva internacional", termina. 

 

 O MIL - Lisbon International Music acontece entre os dias 27 e 29 de março, em várias salas do Cais do Sodré, em Lisboa

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