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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Augusto Santos Silva nasceu no Porto, em 1956. É casado, pai de três filhos e avô de (por enquanto) três netos. A sua formação política fez-se, nos princípios dos anos 70, no contexto das lutas estudantis contra a ditadura.

Frequentava, então, o ensino secundário. Foi depois dirigente da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras do Porto, onde se licenciou em História. Participou em diferentes movimentos de natureza cívica e política, tendo aderido ao Partido Socialista em 1990. Desempenhou várias funções políticas, incluindo como deputado à Assembleia da República (2002-2005 e 2011) e membro de Governos de António Guterres, José Sócrates e António Costa (1999-2002,2005-2011 e desde 2015). No plano profissional, doutorou-se em Sociologia pelo ISCTE -IUL e fez a agregação em Ciências Sociais na Universidade do Porto, de cuja Faculdade de Economia é professor catedrático. Ocupou diversos cargos de gestão universitária, entre os quais o de presidente do Conselho Científico da sua Faculdade e ode pró-reitor da sua Universidade. É autor de vários livros no domínio da epistemologia das ciências sociais, da sociologia da cultura e do desenvolvimento, e do pensamento político.

OM: Assumiu a pasta dos Negócios Estrangeiros em 2015, depois da vigência de um Governo de coligação PPD/PSD e CDS/PP, num momento em que Portugal saía de uma grande crise económico-financeira que obrigou à intervenção da troika. Recuando cerca de 4 anos, como avalia hoje, a herança que recebeu?


AS: A política externa em Portugal, felizmente, é uma de uma grande continuidade. Estamos praticamente todos de acordo com as grandes prioridades da política externa portuguesa, que basicamente, são a união europeia, o elo transatlântico e designadamente a NATO, a CPOP e a relação muito mais próxima que temos com os todos os países de língua portuguesa e as nossas comunidades no estrangeiro. A essas prioridades procurei acrescentar outras duas, que me parece muito importante destacar. Uma é o nosso empenhamento no multilateralismo, em particular dentro do sistema das Nações Unidas. E o outro é a internacionalização da nossa língua, cultura e economia. Por isso é que existe um grande consenso sobre as grandes prioridades. Devo dizer que evitei sempre, ao longo destes quatro anos, queixar-me da herança ou fazer uma avaliação negativa sobre os meus antecessores e vou terminar o meu mandato nessa atitude.


OM: O Ministério dos Negócios Estrangeiros é o departamento governamental responsável pela formulação, coordenação e execução da política externa. Considera que num mundo cada vez mais global e globalizado e com uma enorme dependência da Europa, a pasta dos Negócios Estrangeiros, assume hoje um papel reforçado na sua importância diplomática?


AS: Sim. A pasta dos negócios estrangeiros sempre foi uma pasta muito importante, visto que é tipicamente um ministério da soberania e de uma política do estado. Essa importância tem crescido por quatro razões: a primeira razão prende-se com a influência global do nosso país, seja através da projeção da nossa língua, seja através do reconhecimento do nosso contributo para as grandes organizações internacionais, seja até através do protagonismo que portugueses como António Guterres ou António Vitorino têm hoje nas grandes organizações internacionais e nessa medida a influência global do nosso país tem crescido. A segunda razão é que tem aumentado muito a importância das comunidades portugueses: hoje temos registo de portugueses vivendo em cento e setenta e oito países do mundo. A terceira razão é que com a globalização, as questões internacionais também são cada vez mais questões internas, o que se passa hoje no mar do sul da China ou no golfo, atinge diretamente os nossos interesses. Como sabem, hoje em dia, debatemo-nos com um problema de segurança delicado no estreito de Ormus. Ora, 18% do petróleo que Portugal importa vem através desse estreito, portanto é uma questão que nos toca diretamente. Finalmente, a quarta razão é que tendo o ministério dos negócios estrangeiros a tutela da política europeia, a nossa pertença à UE e o progresso da intervenção da UE fazem com que cada vez mais seja difícil separar o que é política externa e política interna, na dimensão da União Europeia.


OM: No estrangeiro prefere falar na língua do país visitante ou falar em português e solicitar um tradutor, ainda que saiba a língua?


AS: Falar português, designadamente, para aqueles que têm uma relação próxima com o hemisfério sul, é uma grande vantagem visto que a língua portuguesa é a língua mais falada no hemisfério sul. Tão importante quanto é, para mim, saber falar e ler espanhol. Isso permite-me ter um à vontade num grande Universo Latino-Americano que não teria se o espanhol me fosse uma língua completamente estranha.


Sempre que vou ao estrangeiro e tenho um encontro com a comunidade portuguesa residente nesse país, falo, naturalmente, português. Muitas vezes, depois, em contexto de interação social, já me acontece - para me fazer entender bem - falar outras línguas: inglês, caso vá ao Estados Unidos, ou francês em França. Dependendo muito dos interlocutores, habitualmente, nós falamos inglês nas reuniões informais quando estou em países francófonos; quando estou em países de língua espanhola, ouço em espanhol e falo aquela língua muito curiosa a que chamamos portunhol. Quando se trata de reuniões formais, falo português, como são as reuniões formais da união europeia. O português é uma das 21 línguas oficiais da união europeia.

OM: Quais foram os grandes desafios que enfrentou e as grandes bandeiras que ergueu enquanto ministros dos negócios estrangeiros neste mandato?


AS: Os grandes desafios, diria que foram três, entendendo desafios como problemas. O primeiro foi o facto de quando tomamos posse, Portugal se encontrar ainda no procedimento por défice excessivo, e, portanto, a nossa consolidação orçamental estava por fazer. O segundo grande problema que enfrentei, ao longo deste mandato, e que de resto ainda enfrento, é o do agravamento da situação económica, social, política e humanitária na Venezuela. Essa tem vindo a ser sempre a minha preocupação principal, no decurso de 2017, 2018 e 2019, período durante o qual se agravaram as condições políticas e institucionais nesse país. Nós temos uma comunidade portuguesa e luso-venezuelana muito grande, que estimamos em cerca de 200 a 300 mil pessoas. Evidentemente, ela tem sofrido muito com o agravamento das condições de vida na Venezuela e isso é uma preocupação constante para nós. O terceiro grande problema, que enfrentei e enfrento, a partir de junho de 2016, é o Brexit. Nós também temos 309 mil cidadãos portugueses com números de segurança social britânicos, isto é, trabalhando no reino unido. Os seus direitos e o seu estatuto, depois de saída do reino unido, são uma fonte de preocupação para nós. Era suposto estar resolvido, mas como sabem, o processo Brexit é um processo inacabado. Do ponto de vista das bandeiras, a bandeira número um foi tornar a política das comunidades um eixo transversal a todo o mundo do ministério dos negócios estrangeiros. Ainda me recordo a surpresa que causei na primeira vez que fui à comissão parlamentar dos negócios estrangeiros com a circunstância de ter sido eu a responder à primeira ronda de perguntas sobre postos e funcionários consulares. Não era habitual que o ministro respondesse ao próprio pelos consulados. A segunda grande bandeira foi termos uma participação mais ativa. Penso que conseguimos. Basta pensar no facto do presidente do Euro grupo ser neste momento o ministro das finanças de Portugal; no protagonismo que o ministro assumiu aquando das decisões sobre os cargos de topo da UE, basta ver a forma como Portugal é apontado como exemplo de país que não tem nenhuma hesitação quanto às questões de reforma de união económica e monetário; da politica das imigrações; do acolhimento dos refugiados e do combate às alterações climáticas, entre outras. Diria que a terceira grande bandeira foi a de reforçar a dimensão da cidadania da CPOP. A CPOP tem provado bem como uma organização intergovernamental, isto é, como um espaço de cooperação entre diferentes estados pode funcionar bem. Por exemplo, toda a CPOP nos apoia nas grandes candidaturas internacionais, mas faltava uma dimensão de cidadania. Faltava transformar a CPOP num espaço vantajoso. As vantagens têm de ser facilmente identificáveis. Julgamos que o novo regime de mobilidade próprio do CPOP fará esta mudança. A quarta grande bandeira, no sentido de escolher apenas quatro, foi a de conseguir trazer as vantagens associadas a Portugal para o palco internacional. A imagem positiva de Portugal que prevalecia na cena internacional traduzia-se em factos. O principal desses factos foi nós termos conseguido que a nossa candidatura a secretário geral das nações unidas, (cargo mais importante da cena internacional), tenha sido bem-sucedida. Mérito do candidato, evidentemente: António Guterres. Também uma vitória da nossa diplomacia.

OM: Em que se traduz especificamente o programa «REGRESSAR»? Que sentido faz facilitar a vinda de estudantes e trabalhadores academicamente mais preparados lusodescendentes e continuar a deixar migrar portugueses qualificados de Portugal, como os enfermeiros, os engenheiros e outros?


AS: Dentro da lógica de tornar a política das comunidades uma política transversal, o esforço de pôr em prática o programa regressar traduz-se em incentivar e apoiar aqueles que desejam regressar ao nosso país. Esse esforço é tanto mais importante quanto a atração de cidadãos estrangeiros para trabalhar e estudar no nosso país. Hoje nós temos 50 mil estudantes internacionais a estudar nas universidades e politécnicos portugueses, o que traduz cerca de 13%, ou seja, l em cada 8 dos estudantes das nossas universidades e politécnicos é estrangeiro. Aqueles que emigram são qualificados e não qualificados. Existe um mito, que é necessário corrigir: o de que só os licenciados é que saem. A grande maioria daqueles que emigra tem abaixo da licenciatura. Portugal é e continuará a ser um país de emigração... Desde 2017, felizmente, o saldo migratório é positivo, isto é: há mais imigrantes a entrar em Portugal do que emigrantes a sair. Quando olhamos para a emigração temos de distinguir entre a emigração em sentido restrito e a mobilidade. É emigrante aquele que reside por mais que l ano fora daquele país do que no país onde nasceu. Hoje, quando olhamos para aqueles que saem de Portugal, desses dois terços saem por menos de um ano e só um terço é que se torna verdadeiramente emigrante. A outra coisa que é preciso distinguir é entre aqueles que emigram como emigrou o avô da minha mulher, que saiu duma pequena vila de província portuguesa para tentar a sorte no Brasil, isto é, para fugir à fome, e os meus dois filhos que estão a viver fora, um na Alemanha e outro em França e que não são propriamente emigrantes, estando apenas a realizar o seu direito (que é inerente à sua condição de membros da união europeia) de residirem onde quer que entenderem dentro da união europeia e viverem os seus encontros afetivos e os seus projetos de vida a dois. Esses já não se fazem apenas com compatriotas, mas também com cocidadãos europeus. Mesmo assim, haverá dezenas de milhares de portugueses a saírem de Portugal. Uns vão estudar, outros vão trabalhar.


OM: As exportações são um indicador relevante da balança comercial na sobrevivência e no crescimento das empresas e no crescimento económico do país. Qual tem sido o papel do ministério dos negócios estrangeiros neste desafio?


AS: O ministério dos negócios estrangeiros integra e tutela, hoje, a AICEP (agência para o investimento e comércio de Portugal). A AICEP já esteve sob tutela do ministro dos negócios estrangeiros entre 2011 e 2013. Quando esse ministro passou à posição de vice-primeiro ministro, a AICEP acompanhou-o, digamos assim. Portanto, já houve a experiência de um ministro dos negócios estrangeiros ter também a tutela da AICEP. Foi uma experiência positiva porque valorizou muito no ministério a chamada diplomacia económica. Este governo fez mais: como as instituições são mais importantes que as pessoas, colocou a AICEP sob a tutela do ministério dos negócios dos estrangeiros, não dirigida ao ministro, mas ao ministério na sua totalidade. Julgo que essa mudança veio para ficar. Se correu bem, deve ficar. Nós até temos uma secretário de estado da internacionalização, é a primeira vez que existe no ministério dos negócios estrangeiros um secretário de estado da internacionalização, exatamente porque é a pessoa que aqui no ministério tem diretamente a seu cargo as questões ligadas ao investimento direto estrangeiro em Portugal, ao investimento português no estrangeiro e ao comércio externo e, portanto, o comércio externo e o investimento passaram a ser uma preocupação prioritária e também uma preocupação do ministro dos negócios estrangeiros. Aliás, ainda há pouco, podia ter acrescentado esta bandeira da internacionalização da economia. Como resultados, a melhor maneira de os ver é pensar no seguinte: comparar dois números. Há 10 anos, o peso das exportações na riqueza nacional era inferior a 30%, as exportações valiam menos de 30% no nosso PIB. Hoje valem 4.4%.

 

Em 10 anos, cresceram mais 15 pontos. Quando olhamos para as exportações de bens e serviços atualmente, em Portugal, vemos que o primeiro setor é o setor das viagens e turismo, mas o segundo setor é o setor das máquinas e aparelhos. E depois vêm os setores dos veículos automóveis e outros veículos de transporte. Muita gente ainda pensa que as nossas exportações são sobretudo cortiça, calçado, têxtil e vestuário, mas elas não estão dentro dos quatro primeiros setores de exportação de Portugal. O têxtil, o calçado, cortiça e vestuário que exportamos é hoje completamente diferente do que era tradicionalmente. Já somos conhecidos não propriamente por inundar a Europa com camisolas de baixo custo, mas, sim somos conhecidos pelos fatos de natação de competição mais velozes, pelo têxtil técnico, designadamente, aquele que vendemos para a NASA, pela nossa cortiça, que para além de permitir conservar bem os vinhos em garrafas fechadas serve hoje como isolamento térmico, nos guarda-chuvas, na decoração de interiores, entre outros. Um dos setores que mais se transformou e modernizou foi o setor agroalimentar. A qualidade do nosso azeite, dos nossos vinhos, das nossas hortas, da nossa agricultura é completamente diversa (para melhor) do que há 10 ou 15 anos. A lição principal que aproveitamos da crise é: nós não podemos fazer assentar a nossa competitividade apenas em baixos salários. Porque aí, haverá sempre na Ásia, em África e na América Latina, quem tenha sempre salários ainda mais baixos. Também na China e na índia. Tem de se assentar o desenvolvimento em valor acrescentado, qualificação, tecnologia e talento. Isso foi a lição que principal que aprendemos todos.

OM: Com que países, estrategicamente, tem estabelecido relações mais estreitas com vista a aumentar, estimular e desenvolver o comércio? Que novos mercados e países se encontram hoje na futura equação dos mais importantes para Portugal?


AS: Diria que nós funcionamos por uma lógica de quatro círculos: o primeiro, o mais próximo é o da economia da Península ibérica. O grande resultado económico da integração de Portugal e de Espanha das então comunidades portuguesas foi a integração das respetivas economias. Espanha é o primeiro cliente e fornecedor de Portugal. Um facto pouco conhecido, mas, verdadeiro, é o de Portugal sozinho, nas exportações, valer mais do que todos os países latino-americanos de língua espanhola juntos. Cerca de Va a a 1/5 do que exportamos, exportamos para Espanha e cerca de 1/3 a V4 do que importamos, importamos de Espanha. Depois há um segundo círculo que é o da zona euro e da união europeia. O investimento principal estrangeiro que temos vem de França e da Alemanha. A França e a Alemanha estão entre os três primeiros clientes e os primeiros três fornecedores. Mais de 3A do nosso comércio externo faz-se no âmbito da união europeia, que, de resto, é natural porque a união europeia é um mercado único. Há um terceiro círculo onde se situam os mercados extraeuropeus que são muito importantes para Portugal. Quando olhamos do lado das exportações, vemos os Estados unidos, O Brasil e Angola. Quando olhamos do ponto de vista das importações aos Estados Unidos temos de acrescentar a China, e em certos anos por causa do petróleo e do gás, a Rússia. Depois, há um quarto círculo, que é o das várias regiões do mundo onde nós vamos tendo parecerias comerciais e económicas importantes. Vão desde o Canadá, à América do Norte, à Colômbia, ao Peru, ao Chile, à Argentina, à Venezuela, desde a Costa do Marfim à Africa do Sul, Marrocos, Tunísia, Argélia, (em África). À China, à índia, ao Sudeste Asiático (na Ásia). Isto significa que nós conseguimos diversificar muito as nossas exportações. Quando nós olhamos para um setor como o imobiliário (que as pessoas associam ainda a um setor tradicional trabalhando para a procura interna), verificamos que as nossas empresas de mobiliário, como agora se diz, casa e decoração exportam para mais de 100 países diferentes.


OM: As relações multilaterais e bilaterais de política externa entre Portugal e o mundo são asseguradas através da sua rede externa de embaixadas, missões permanentes e postos consulares. Considera que tem havido uma evolução na forma de estar, de intervenção, ação e de relação, por parte dos nossos diplomatas?


AS: De forma muito sumária, a diplomacia portuguesa é um corpo profissional muito qualificado. Muito exigente, quer do ponto de vista de entrada, quer do de carreira, muito qualificado. Muito bem treinado nas questões político-diplomáticas. Nos últimos 20 anos, os nossos diplomatas foram, crescentemente, assumindo a importância da diplomacia económica, e por isso foram, paulatinamente, compreendendo que, têm de trabalhar também com as delegações da AICEP ou com o turismo de Portugal. Eu diria que o meu modesto contributo, foi o de acrescentar a esta qualificação tradicional de vertente político-diplomática, esta qualificação mais recente na vertente diplomacia-económica.


OM: As nossas comunidades portuguesas da Diáspora são tuteladas e apoiadas pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, através da Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas. Considera que tem sido dada a importância e atenção devida a estes nossos concidadãos, em sede de rede consular, de rede de ensino da língua portuguesa e cultura? Relativamente ao movimento associativo da Diáspora, qual tem sido o apoio, a evolução e inovação?


AS: A minha resposta é muito simples. Tem sido dada muita atenção. Se isso é suficiente? Não. Nunca é suficiente. As nossas comunidades merecem sempre melhor. O movimento associativo é muito variado e tem vindo a diversificar-se em sede de atividades eruditas e até de caris político. São cada vez mais as redes de profissionais, estudantes e académicos diplomados no Reino Unido, nos Estados Unidos, em França e na Alemanha (nestes dois últimos já há vários anos). Estão em formação noutros países como a Suíça ou a Austrália. Isso é uma inovação. Outra inovação que se nota muito bem, por exemplo, na cena americana, são as associações que já se constituem como lobbies e outras associações cívicas, que já têm como missão não apenas preservar as tradições, não apenas cultivar o folclore da sua terra de origem na sua terra de residência, não apenas celebrarem, continuar as vinculações, por exemplo, aos clubes de futebol e outros, mas também a missão mais específica de aumentarem a influência social, a representação institucional da política e da comunidade.(Neste caso nos Estados Unidos).


OM: A ação externa do MNE em matéria de cooperação para o desenvolvimento e promoção da língua e da cultura portuguesas, é prosseguida pelo Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, I. P., sob a superintendência e tutela do seu Ministério. Como avalia as políticas e evolução das mesmas nesta matéria, sendo que a nossa língua viva é cada vez mais falada no mundo?


AS: Penso que aquilo que tem acontecido é uma consolidação de desenvolvimento à qual chamamos tecnicamente incremental, prosseguindo e avançando no trabalho do instituto de camões. Se eu olhar para a rede de ensino português no estrangeiro ela tem hoje mais estudantes, mais professores e mais escolas do que tinha em 2015. A presença da cultura e língua portuguesas no ensino superior, está hoje em mais de 30 países, temos 76 centros de língua portuguesa em todo o mundo. Quando nós olhamos para outro indicador muito importante que é o número de países em que o português gera hoje uma língua estrangeira por opção curricular no ensino secundário, o número desses países também tem aumentado. Nós sabemos que, existem, no presente, cerca de 70 mil estudantes estudando em escolas financiadas ou apoiadas pelo Instituto de Camões através da nossa rede de ensino português no estrangeiro. Contudo, ainda é maior o número de estudantes de língua portuguesa nas escolas secundárias em países como o Senegal, (40 mil), Espanha, que também tem outras dezenas de milhares, a Costa do Marfim, a República checa, a Tunísia, a Argélia, a Polónia, a Hungria e por aí fora. E é muito importante que, ao mesmo tempo, preservamos o nosso ensino do português no estrangeiro, a responsabilidade das nossas coordenações de ensino no Luxemburgo, na Bélgica, na holanda, na Alemanha, na Suíça, nos Estados Unidos, entre outros países. Ao mesmo tempo, mantemos essa rede e consolidamo-la. Temos de ver a expansão do português como uma linha internacional. Da mesma forma que na nossa escola secundária, quem quer, aprende francês, espanhol ou alemão, a comunidade de professores que nós formamos e a quem pagamos é também muito importante que cresça num maior número de países e finalmente que o português seja também a língua que as pessoas querem aprender não só por serem portugueses ou descendentes, mas, simplesmente, também por interesse e curiosidade em aprender a nossa língua.


OM: Podemos estar descansados relativamente a esses portugueses em sede de garantia de direitos humanos fundamentais?


AS: Eu não posso dar essa garantia visto que eu não governo a Venezuela. Quando olhamos para a Venezuela e a partir dos registos consulares, as pessoas que fazem questão de se registarem nos dois consulados portugueses na Venezuela como cidadãos portugueses, temos algumas dezenas de milhares, mas numa situação de crise, são muito mais aquelas que se registaram no nosso consulado, muitas são lusodescendentes portugueses mas nem sabem falar português. Mas fazem isso porque sabem que em Portugal, todos, nomeadamente, o Presidente da República, o Primeiro Ministro, toda a assembleia, todos os partidos políticos, entendem que é o seu dever apoiar os portugueses e luso- venezuelanos que estão agora numa situação difícil. Ora isso mostra como as pessoas têm uma apreciação positiva do nosso país e sabem que nos momentos de dificuldade, Portugal não lhes falha. Infelizmente a situação da Venezuela é critica do ponto de vista humanitário, do ponto de visto económico e social. Somos facilitadores e não decisores. Quem são os decisores são os venezuelanos.

OM: A respeito dos Gabinetes de Apoio ao Emigrante - GAE'S, o Senhor Ministro veio a público elogiar e reconhecer como sendo uma boa política do anterior Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas e que deve ter continuidade. Temos verificado que não só se mantiveram os GAE's, como tem continuado a aumentar a sua rede pelo país. Quantos GAE's existem hoje em todo o país? Qual tem sido a recetividade por parte das autarquias? Que benefícios trazem aos cidadãos? Eles existem apenas para apoiar os cidadãos que regressam, ou também têm algumas valências de apoio aos residentes no estrangeiro?


AS: Primeiro sim, foi uma boa ideia lançada em 2002, no governo de Durão Barroso. Portanto, as boas ideias devem ser continuadas independentemente de quem as tomou. Pensar o contrário é de um provincianismo atroz. Quando nós chegamos ao governo havia 100, nestes quatro anos o que nós fizemos foi aumentar a e neste momento são 157. E o nosso objetivo na minha opinião deve ser estendê-los a eventualmente todos os municípios, de onde saem todos os emigrantes, que são, aliás, quase todos os municípios portugueses. Também fizemos duas coisas que me pareceram importantes. A primeira foi estender a rede de gabinetes de apoio ao emigrante às regiões autónomas e não só considerar os municípios, mas também as freguesias. Hoje, como sabemos, há freguesias que têm mais população do que 4 ou 5 municípios juntos. Aquilo que faz um ministério - através da direção geral dos assuntos consulares e das comunidades portuguesas - é formar os funcionários e informar permanentemente o serviço na autarquia sobre assuntos a alterar respeitantes às comunidades, sobre regulamentos e outros. As autarquias têm constituído um bom serviço. Em algumas mais pequenas estes serviços significam uma pessoa, outras por várias pessoas, sempre em uma localização precisa. Para que servem os gabinetes de apoio emigrante? Para dar apoio a todos os emigrantes em todos os ciclos de emigração. Quando uma pessoa decide partir, é muito importante que a pessoa saiba que vai partir para um país cuja lei deve conhecer, cuja língua deve conhecer ou estar disponível para aprender, mas sobretudo deve saber para onde vai trabalhar, quais são os seus direitos, quem são os seus empregadores.


OM: Em que consiste o Pacto Global das Migrações?


AS: É um documento político aprovado pelas Nações Unidas que é o nosso compromisso, não jurídico, mas um compromisso jurídico forte. E esse compromisso pode ser definido numa frase: nós queremos promover emigrações reguladas, ordenadas e seguras porque essa é verdadeiramente a alternativa real aos tráficos, às ilegalidades, aos fluxos controlados de mobilidade e outros. Um dos compromissos do pacto que os países signatários, (um dos quais Portugal), assumiram foi o de desenvolver e aplicar planos nacionais de implementação do pacto tão brevemente quanto possível. Um dos motivos de satisfação que levo deste mandato é o facto de Portugal ter sido, do meu conhecimento, o primeiro país a aprovar o seu plano nacional de implementação do Pacto Global das Migrações. Assim, demos o exemplo e transformamos o pacto, que por enquanto está em papel na forma de um conjunto de medidas operacionais.


OM: Apresenta-se como cabeça de lista pelo círculo Fora da Europa nas listas para as próximas eleições legislativas. Considera-se uma aposta forte do Partido Socialista para ou é o apetecível universo de 1,5 milhões de emigrantes eleitores que nas próximas eleições vão poder votar, fruto das novas regras do recenseamento eleitoral dos portugueses que residem no exterior?


AS: A forma mais simples de explicar porque é que eu sou o cabeça de lista do meu partido no círculo fora de europa é contando a verdade, e a verdade é esta: as novas eleições, designadamente, estas eleições parlamentares, desenvolver-se-ão num ambiente completamente diferente. Nós acabamos com uma desigualdade que nada justificava. Sou um cidadão português residente em Portugal, não tenho de me preocupar com o recenseamento, porque pelo facto de ter um cartão de cidadão português, dá automaticamente o direito a ser recenseado, e, portanto, a votar. Até acabamos com o cartão de leitor. Mas, para um cidadão português, mas residindo em Vigo e não em Caminha ou em Badajoz e não em Elvas, já o facto de ter o cartão de cidadão português não me assegurava automaticamente o recenseamento. Nós acabamos com essa desigualdade e significou que em vez de termos só 300 mil recenseados passamos a ter 1 milhão e 400 mil recenseados. Se eu quisesse residir no estrangeiro e se quisesse deslocar-me para fazer o voto presencial, podia fazê-lo. De todos os votantes no estrangeiro, 15 mil disseram que preferiam votar presencialmente, os restantes receberão em casa um envelope com o boletim de voto e outro envelope, já com selo. Basta preencher o boletim de voto, por a cruz onde quisermos ou onde não quisermos e meter esse boletim no envelope de resposta, pô-lo no correio e o voto está feito. Nessa circunstância há um conjunto enorme de pessoas que vai votar pela primeira vez, nas próximas eleições. Entendemos, no nosso partido, que devíamos tratar dessas pessoas e dizer-lhes que são agora parte inteira do eleitorado português. Também pensamos que devíamos de homenagear não só esse milhão e 4.00 mil recenseados, como todos como os mais de 2 milhões de cidadãos portugueses que vivem em todo o mundo, e em todo o mundo são os melhores agentes de propaganda do nosso país. E a maneira como achamos que podíamos fazer esta homenagem, era colocar o ministro dos negócios estrangeiros em funções que é o número 2 do governo, como candidato. É a primeira vez que isto vai acontecer, nunca até agora um ministro de negócios estrangeiros tinha sido cabeça de lista em eleições fora de Portugal. "agora que eu estou fora, aprecio mais o meu país do que quando lá estava".


OM: Ao longo do exercício das suas funções como ministros dos negócios estrangeiros, recorda alguma situação que gostasse de partilhar?


AS: Do lado positivo, evidentemente, nunca me esquecerei do dia 6 de outubro de 2016, pelas i4h:3om, no pátio aqui em baixo. Ouvi as primeiras palavras da intervenção do então presidente do conselho de segurança, o embaixador russo, proferindo que o António Guterres tinha sido eleito. Do lado mais negativo, evidentemente, que notícias como a do atentado do Sri Lanka, no qual faleceu um português que estava em lua de mel, são terríveis. Essa e todas as notícias semelhantes. Há milhares de histórias, de pessoas que vão completamente à aventura, não conhecendo a língua e que apenas pelo seu talento, singram.

OM: Deseja deixar alguma mensagem aos leitores da OBSERVA Magazine, espalhados pelo mundo fora?


AS: Dizem-me muitas vezes: "agora que eu estou fora, aprecio mais o meu país do que quando lá estava". A minha mensagem fundamental é que nunca se esqueçam de Portugal porque Portugal nunca se esquece deles.

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