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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Com o "caso dos Vistos Gold", os portugueses ficaram receosos de contactar com a comunidade chinesa. O presidente da Liga dos Chineses em Portugal chegou ao Porto com sete anos, em 1962.

Numa altura em que a comunidade se prepara para entrar no Ano Novo Chinês, que se celebra a 5 de fevereiro, Y Ping Chow considera que Portugal não está a aproveitar bem a política dos "vistos gold" e alerta que muitos chineses estão a sair do país por causa dos atrasos na burocracia e dos custos associados à renovação dos documentos. Nos negócios, há muito caminho a explorar pelos dois países, sobretudo em África. Por cá, o desenvolvimento do aeroporto de Beja pode ser uma alternativa à entrada de mercadorias chinesas no país.

Como foi para uma criança de sete anos sair da China, em 1962, para ir viver num país tão distante como Portugal? Recorda-se da viagem?
Vim de avião com os meus tios e com os meus primos. Os meus pais já cá estavam e os meus avós também. Deixaram-me em Hong Kong com os meus tios quando eu tinha três ou quatro anos. E, uns anos mais tarde, viemos todos para Portugal. Quando chegámos ao aeroporto de Lisboa, o meu avô estava lá à nossa espera. Depois apanhámos o comboio para o Porto. Era lá que estava a família. O meu avô tinha um negócio no Porto.

O seu avô foi um dos primeiras chineses a vir para Portugal, nos anos 1930. Porque é que ele veio para cá?
Ele tinha sido emigrante no Japão mas, quando começou a guerra com a China, em 1937, regressou à terra natal. Depois veio para a Europa. Não sei concretamente como é que ele veio e como é que chegou a Portugal. O que sei é que veio com um grupo de cento e tal chineses. Penso que foram primeiro para França e depois foram andando, andando até chegarem aqui. O meu avô acabou por se fixar no Porto.

Mas em que circunstâncias é que esses cento e tal chineses saíram da China?
Nós pertencemos à província de Zhejiang, na região de Xangai, no litoral. A aldeia do meu avô era uma zona de muita emigração. Os rapazes novos, na altura, saíram todos do país. Tipicamente, os chineses, desde que tenham um ou dois amigos num determinado país, vão atraindo outros amigos para se juntarem a eles. Ainda hoje é assim. Os chineses também são muito ligados à família. Querem juntar a família para ganhar mais força. Assim é muito mais fácil construir alguma coisa porque todos trabalham para o mesmo. Há uma entreajuda muito grande entre os chineses.

Disse numa entrevista que, quando o seu avô chegou a Portugal, um chinês era visto "como um animal de circo".
As pessoas não estavam habituadas. Não havia chineses. Quando eu e os meus primos chegámos ao Porto, fomos para a Escola Primária da Sé e não sabíamos falar português. Como éramos os únicos "diferentes", éramos como animais de estimação. As pessoas tratavam-nos muito bem. E a professora era simpática. Ensinava-nos com objetos. Pegava numa garrafa e dizia: "Garrafa." E nós fixámos as palavras assim. Fomos decorando. Como éramos crianças, aprendemos rapidamente. Mas, embora já cá esteja há cinquenta e tal anos, ainda mantenho o sotaque chinês.

Porque é que o seu avô se fixou especificamente no Porto?
Quando esses chineses vieram nos anos 1930, não tinham destino. Como não tinham cá os familiares, nem casa fixa, nem negócios próprios, eram vendedores ambulantes. E fixaram-se nos sítios onde o negócio corria melhor.

O que é que ele vendia?
Bugigangas que vinham da China. Mas, nos anos 1950, criou o seu próprio negócio. Abriu uma fábrica de gravatas. Chamava-se fábrica, mas era praticamente uma oficina. Ele comprava tecidos e forros cá em Portugal e depois mandava cortar e confecionar aos gravateiros. Depois tinha vendedores que vendiam as gravatas na rua. Na altura havia muitos chineses a vender gravatas na rua. E, na década de 1960, muitos gravateiros portugueses eram funcionários de chineses. Nessa altura os chineses já eram todos patrões. [Risos]

Quem é que trabalhava na fábrica?
Eram portugueses, que cortavam e cosiam os tecidos para fazer as gravatas.

E o que fazia o resto da sua família?
O meu pai veio em 1958, com vinte e tal anos. Eu tinha acabado de nascer. Veio ajudar os meus avós. Em 1962, vim eu com os meus tios e primos. Mais tarde, em 1966, a família abriu o primeiro restaurante chinês no Porto, que ficava à entrada da ponte D. Luís. Chamava-se Restaurante Chinês, porque não havia mais nenhum. O restaurante era do meu pai e do meu tio. Eles é que eram sócios. No princípio não foi fácil. O negócio era fraco.

Os portugueses olhavam para a comida chinesa com desconfiança?
Sim, achavam que os chineses comiam cães, baratas e essa bicharada toda. Na altura, só trabalhávamos com as pessoas mais ricas e viajadas do Porto. Aliás, os preços no nosso restaurante estavam equiparados aos melhores restaurantes do Porto. O restaurante era frequentado por todas as pessoas ricas e famosas da cidade. Eram poucos clientes, mas bons. Deu para aguentar a casa. Mas o negócio foi evoluindo e em 1968,1969, começou a melhorar. Os clientes habituais foram trazendo amigos e foram divulgando. Os nossos pratos também foram adaptados ao gosto dos portugueses. Foi assim que começámos a ganhar clientes. Quando o restaurante começou a faturar bem, houve uma divisão na sociedade do meu pai e do meu tio. O meu pai ficou a desenvolver o negócio no Porto e o meu tio foi para Lisboa abrir um restaurante. Naquela altura criou um dos mais antigos restaurantes chineses de Hong Kong na capital. Já existiam dois ou três restaurantes chineses em Lisboa.

Como é que era o Porto nos anos 1960?
Era uma cidade escura e um bocadinho triste. Mas, ao mesmo tempo, era acolhedora porque toda a gente se conhecia por ser uma cidade pequena.

Foi fácil fazer amizade com os portugueses?
Para mim foi, porque andei na escola e as crianças adaptam-se bem. Nunca senti discriminação. As vezes brincavam com os nossos olhos embico, mas era uma brincadeira das crianças, sem maldade.

Mais tarde, já adulto, teve um restaurante seu.
Em 1974, o meu pai abriu o restaurante King Long e eu é que estava à frente do negócio. Só tive um restaurante mesmo meu em 1979 ou 1980. Ficava no centro comercial Dallas. Neste momento, esse centro comercial está encerrado por falta de segurança e fui obrigado a fechar o restaurante. Mas, na altura, faturava bastante bem. Ao longo dos anos, tive muitos negócios. Sou bastante aventureiro e há muita coisa que faço por "sangue quente". Quando vejo uma coisa de que gosto, "bumba", começo a vender. Depois, para dar continuidade, é que é um pouco mais complicado, porque tem de se estar lá sempre. Mas já tive muitos negócios. Tive uma ourivesaria onde fazia importação de pedras semipreciosas da China, como coral, jade, pérolas... essas coisas. Depois tive uma perfumaria. Isto tudo na década de 1980. Vendi antiguidades chinesas... Até montei uma discoteca! Também tive uma clínica de medicina chinesa, de acupuntura. Mas isto tudo durou pouco tempo.

Atira-se de cabeça para os negócios?
Sim. É preciso perceber que na altura eu tinha o restaurante no centro comercial Dallas que corria muito bem. Isso dava-me alguma segurança.

É muito típico dos chineses arriscar. Isso é bom ou mau?
Pode ser bom. Quem se mete num negócio é porque tem dinheiro para perder. E, se perdeu, ganhou experiência. Mas, se ganhou dinheiro, melhor.

Então não lamenta os negócios que não resultaram?
Não. Já perdi muitas coisas mas, pelo menos, fico a conhecer aquilo em que me meti. Atenção, os chineses, quando se metem num negócio, pensam muito, apesar de gostarem de arriscar. Mas eu já sou chinês e português. Sou uma mistura.

Sente-se mais português ou mais chinês?
Não sei. Os chineses dizem que sou português e os portugueses dizem que sou chinês. Sabe, uma das coisas que distinguem os dois povos é que os chineses medem as palavras. Refletem mais sobre a forma de falar, se isso pode causar alguma perturbação ao outro. Pensam muito no que o outro vai sentir. Os portugueses são mais diretos no que dizem. Falam o que pensam.

O chinês é mais diplomático. É isso que quer dizer?
Sim, é mais diplomático. E há outra coisa, os chineses não assumem claramente o que pensam. Está sempre tudo bem. Vai chegar ao fim da conversa com um chinês sem saber se ele acha que sim ou que não.

É um defensor da mistura das duas culturas. Acha que os chineses, em geral, estão abertos a criar raízes em Portugal? Ou vêm só para ganhar dinheiro e depois vão-se embora?
O chinês que vem quer criar raízes aqui. Mesmo ganhando dinheiro. Até pode investir na China, mas ficam cá os familiares. Não se vão embora. Só vão embora as pessoas que em Portugal não conseguem
sobreviver. Mesmo que vivam mal, preferem ficar aqui porque a vida em Portugal é mais calma. Na China têm uma vida muito stressada.

Defende o casamento entre portugueses e chineses?
É uma coisa normal. Por isso é que aceitei muito bem que as minhas filhas casassem com portugueses. No meu tempo, foi diferente. Eu estudava no liceu e os meus pais andavam atrás de mim para ver se eu andava com alguma portuguesa. O meu pai obrigou-me a casar com uma chinesa. Casei com a minha mulher sem a conhecer. Trocávamos apenas correspondência. Só a conheci quando ela veio para casar. Na altura, ainda era um estudante. Casei novo, com 19 anos. Os meus colegas convidavam-me para ir jogar futebol e eu tinha vergonha de lhes dizer que ia casar.

Ficou zangado com o seu pai?
Não, não fiquei porque a minha mulher era bonita. [Risos] Não fiquei a perder.

Presumo que os seus filho já não tenham sotaque chinês.
Não. Tenho duas filhas e um filho. Nasceram todos cá. Mas a raiz chinesa praticamente ficou por aqui. Porque as minhas filhas casaram com portugueses e o meu filho casou com uma alemã.

Os seus filhos estão no mundo dos negócios ou seguiram carreiras diferentes?
Todos tiraram cursos superiores. Uma das minhas filhas tirou o curso de Economia e criou um gabinete de contabilidade e serviços. Todos os clientes dela são chineses. Faz contabilidade, consultoria jurídica e de investimento, e trata de seguros. A minha outra filha tirou Engenharia do Ambiente e está a trabalhar numa empresa alemã de peças de automóveis. Todos os meus filhos estudaram no Colégio Alemão desde a creche. Sabem falar alemão melhor do que mandarim. O meu filho acabou o 12.° ano cá em Portugal e foi para a Alemanha tirar o curso de Engenharia Mecânica. Ficou lá, casou e agora trabalha na Schindler.

Porque é que pôs os seus filhos a estudar no Colégio Alemão?
Português em Portugal aprende-se rapidamente. Inglês e francês aprende-se mesmo sem ter aulas. Não havia escolas chinesas em Portugal, aprenderam mandarim com a família. A língua alemã é mais difícil. Por isso começaram a aprender alemão desde os três anos. Neste momento, todos eles falam cinco ou seis línguas.

O que é que faz concretamente a Liga dos Chineses em Portugal?
Uma das suas missões é ajudar a integração dos chineses na comunidade portuguesa. A Liga é composta por associações e individualidades chinesas em Portugal. Existem muitas associações de chineses no país porque os chineses gostam de ter um título. Meia dúzia de pessoas ou um grupo de famílias criam uma associação com um presidente. Há uns anos, esse título, de presidente de uma associação, podia trazer alguns benefícios no tratamento empresarial na China. Havia uma vantagem. Agora, já não. O problema é que, numa grande parte dessas associações, os presidentes são pessoas que têm dinheiro, querem fazer coisas, mas estão mal integrados na sociedade portuguesa porque não falam bem a língua. São pessoas que ganharam muito dinheiro com as lojas e com as importações nas décadas de 1980 e 1990 e criaram associações, mas são muito fechadas. A Liga dos Chineses tem feito muito para melhorar as relações entre chineses e portugueses. Com esta entrevista, por exemplo, estou a dar uma imagem positiva dos chineses.

Acha que os chineses não têm uma imagem positiva em Portugal?
Têm uma imagem positiva porque a Liga tem feito muito por isso. Mas há muitos portugueses que não compreendem o comportamento e o pensamento dos chineses e começam a inventar. Isso cria, por vezes, uma imagem distorcida. Na Liga, tentamos aproximar os dois países. Com a visita do Presidente Xi Jinping a Portugal, no final do ano passado, foram assinados muitos acordos e, em 2019, comemora-se o 40.° aniversário das relações diplomáticas ente os dois países. Estamos a fazer festas e a tentar criar uma estrutura que, na nossa opinião, será muito importante para as relações Portugal-China.

Que tipo de estrutura?
As empresas chinesas, neste momento, querem internacionalizar-se. São empresas que têm capacidade, tecnologia e apoio do governo para se expandirem noutros países. A Liga dos Chineses, juntamente com um grupo de empresários de grandes empresas da China que querem vir para Portugal, para a Europa e principalmente para África através de Portugal, está a tentar construir uma Câmara de Comércio China-Portugal. Nós, enquanto Liga dos Chineses em Portugal, vamos ser representantes dessa câmara aqui. Essa câmara terá como missão ajudar a angariar empresas chinesas que se querem internacionalizar para Portugal e para África. Estamos ainda nos primeiros contactos. Vai ser uma entidade que precisará muito de uma estrutura de Portugal para lhe fornecer os dados e arranjar parceiros para entrar nestes projetos. Já temos muitas manifestações de interesse na China e cá.

Isto é um reflexo da visita do Presidente chinês ou já vem de trás?
A visita do Presidente chinês abriu a porta para este projeto.

Que balanço faz dessa visita?
Foi muito positiva. A delegação do Presidente foi muito bem recebida. Mas ter protocolos assinados é uma coisa, concretizá-los não é tão fácil. Tem de ter o apoio de ambas as partes.

Quais são as grandes dificuldades?
Os governos assinaram vários protocolos. O do ensino, que é a criação do Instituto Confúcio na Universidade do Porto, isso já está. Mas depois, nas áreas do comércio, de energias renováveis ou de infraestruturas, tem de se arranjar parceiros, intermediários, porque as empresas portuguesas e chinesas, às vezes, têm uma maneira diferente de ver as coisas. E há a questão da língua. Portanto, pode ter interesse uma participação dos chineses que cá estão nesses negócios. Eles podem servir de intermediários. As empresas portuguesas conhecem muito melhor os chineses que estão cá, há uma relação de confiança que se criou. Há uma grande construtora da China que me convidou para ser consultor deles em Portugal. Portugal tem poucas obras públicas, é a pensar em África. E há muitas empresas portuguesas e portugueses que têm boas relações com África, que conseguem arranjar bons projetos.

Neste momento, quais são os seus negócios?
O negócio que tenho é alguma exportação dos produtos portugueses para a China. Por exemplo, vinho e azeite.

Mas também é consultor.
Sim, sou consultor de algumas empresas chinesas que querem investir em Portugal.

Quais são as grandes diferenças culturais entre os dois países que causam perturbações no mundo dos negócios?
Quando se disse que os chineses estavam a entrar em força em Portugal e a comprar isto tudo, acho que é uma ideia errada. Por exemplo, a EDP, a REN e o BCP, embora sejam na sua maioria de capital chinês, os chineses não interferem na gestão. Que continua a ser entregue aos portugueses. A China está a investir, mas não é para mandar e controlar. Apenas tem dinheiro a mais e quer ganhar ainda mais dinheiro com os investimentos que faz. E quer ter boas relações com Portugal. A China investe muito aqui, é o segundo país com maior investimento chinês na Europa, porque Portugal é um país amigo. O investimento chinês não deve ser receado. Até devia ser bem-vindo. Os "vistos gold", por exemplo, foram uma sugestão da Liga dos Chineses. Na altura, Portugal não tinha uma lei de investimento para adquirir a autorização de residência. Neste momento, mais de 70% das pessoas que adquiriram os "vistos gold" são chineses. E Portugal está a aproveitar muito mal esta política. As pessoas que estão cá com os "vistos gold" têm muita capacidade e potencialidade. Portugal não está a aproveitar isso.

Mas como é que Portugal poderia aproveitar?
O processo de legalização e de renovação dos "vistos gold" está muito atrasado. Isso pode levar a problemas de corrupção. Com o "caso dos Vistos Gold", os portugueses ficaram receosos de contactar com a comunidade chinesa. Mal um chefe fala com um tipo chinês, pensam logo que está a ser comprado. Se Portugal tiver mente aberta, pode desenvolver muito mais e atrair muitos mais negócios de Portugal para a China. Pessoalmente, acho que Portugal está a trabalhar mal nesta questão.

Mas os "vistos gold" já não são atrativos para os chineses?
Neste momento, há muita gente que teve o "visto gold" e que está a sair de Portugal. Os chineses querem ter o "visto gold" em primeiro lugar por causa da educação dos filhos. O casal chinês que só tem um filho gasta tudo com ele. Na China, há uma pressão muito grande na escola sobre os alunos. Obrigam as crianças a estudar muito, muito. Cá em Portugal não. Estudam uma hora e depois vão jogar futebol. Os pais querem sair da China para dar outra educação aos filhos. Aqui o ensino é melhor do que na China.

Mas estava a dizer que os chineses que obtiveram o "visto gold" estão a ir embora. Porquê?
Porque as pessoas dizem que, ao fim de cinco anos cá, para conseguirem a renovação do visto por igual período têm de pagar quase 5.500 euros por cada membro da família. Geralmente, uma família chinesa é constituída por cinco ou seis pessoas. O casal, um ou dois filhos e os pais. Isto quer dizer que, quando chega a renovação, paga 30 ou 40 mil euros. E muito dinheiro. E são processos muito complicados. Há muita gente aborrecida com isto. Já estão a começar a vender as propriedades que compraram. Mas, como a China é muito grande, são milhões de pessoas, também não faltam outros que querem vir. Em novembro, estive na China em contacto com vários empresários regionais e todos eles manifestaram interesse em adquirir "vistos gold". É por isso que Portugal deveria melhorar essa parte burocrática e ter uma mente mais aberta. Entre os filhos dos chineses que nasceram cá, uma grande parte vai requerer a nacionalidade portuguesa. Ajudam a demografia portuguesa. E geralmente são as famílias com capacidades financeiras, que têm bons contactos. Neste momento, os melhores colégios em Lisboa têm uma percentagem muito grande de estudantes chineses.

Mas Portugal ganhou realmente com a atribuição dos "vistos gold" a cidadãos chineses? Basicamente, os investimentos traduziram-se na compra de casa.
Investiram no imobiliário porque é mais simples. Investir num negócio é complicado. Por exemplo, um amigo meu queria comprar quintas e produzir vinho para vender na China porque ele tem redes de distribuição. Mas o problema é comprar as quintas. Quem é que as vai gerir? Como é que as vai gerir? São essas coisas... Se investir numa empresa cotada na bolsa, tem automaticamente uma estrutura, fiscalização, etc. Aí, não tem com que se preocupar. Basta ver se sobe ou desce a cotação. Mas, se investir numa indústria média, em que tudo tem de ser fiscalizado, controlado, etc, aí é mais complicado.

O que é que está a interessar aos chineses em Portugal em termos de investimento?
A China está a desenvolver muito o turismo. As mulheres começam a reformar-se aos 50 anos e os homens aos 55 anos. Se uma empresa chinesa conseguir criar uma rede de turismo em Portugal, pode ser um grande negócio. Já vêm muitos chineses visitar Portugal, mas ainda não há uma rede de turismo montada para os chineses, com a participação dos chineses, com os costumes dos chineses. Se se conseguir criar um produto de turismo para ficarem 15 dias em Portugal - irem de norte a sul, do interior ao litoral - pode ser muito interessante. Isso ainda não existe. Os chineses vêm a Lisboa, Cascais, Estoril e vão-se embora. Não conhecem Guimarães, Ponte de Lima, Amarante. São sítios tão bonitos.

Que papel tem Portugal na relação da China com África?
A China está a trabalhar com os países africanos lusófonos através de Macau. Mas a relação com Macau limita-se apenas a negócios. Os portugueses não têm dinheiro para investir, mas têm relações com os dirigentes políticos desses países africanos e isso pode ajudar a China a ter um melhor entendimento, em termos políticos. Para melhor trabalhar com África, a China deveria ter uma participação de empresas portuguesas nesses negócios para facilitarem contactos e servirem como interlocutores. E também por isso que a Liga gostaria de criar esta estrutura de uma câmara do comércio. Por outro lado, com a nova Rota da Seda, Portugal, sendo um país atlântico, pode beneficiar como uma porta de entrada na Europa e nas
relações com África e América Latina.

Nessa estratégia, qual o papel do Porto de Sines?
O Porto de Sines obriga a um investimento muito grande, de 800 ou 900 milhões de euros. Quem investir tem de olhar para a estrutura e rentabilidade. A China já tem comboio até Madrid. A viagem é de 15 dias. Isso significa que grande parte das mercadorias que vêm para a Europa já podem vir de comboio. A única coisa que falta é ligar por via férrea Madrid ao Porto de Sines. As cargas que vêm da China levam um mês a chegar a Sines de navio. Tenho falado em criar uma estrutura de desenvolvimento no aeroporto de Beja. Isso pode ser bastante interessante porque aquele aeroporto está praticamente parado. De comboio, as mercadorias levam 15 dias a chegar, de avião demoram dois. Pode fazer concorrência com a linha do comboio.

Há ainda muito a explorar entre Portugal e China?
Sim, se Portugal for amigo da China, há muitos benefícios de investimento. Porque a China é muito grande. Mais uns anos e vai ser uma potência mundial. Tem este objetivo. Mas, enquanto os americanos são uma potência que quer dominar, a China quer ser uma potência internacional para desenvolver todos os países.

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