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CABEÇALHO

O economista angolano afirma que Angola está "a inaugurar um novo ciclo de relacionamentos internacionais", em que se incluem a China, Rússia, EUA, França, Alemanha e Espanha.

Manuel Alves da Rocha, economista angolano, defende, em entrevista por escrito, que as relações entre Lisboa e Luanda devem ser pautadas por uma "descomplexização total do relacionamento entre os dois países".

O que se pode esperar desta visita do Presidente de Angola?
Para além de um reacerto nos processos diplomáticos, de esclarecimentos políticos e de discussões em torno da dívida do Estado angolano às empresas portuguesas com actividade em Angola, as minhas expectativas são de baixa intensidade. A nova diplomacia económica de Angola está a conseguir construir uma matriz de relacionamentos internacionais verdadeiramente estratégicos para nós, que inclui países como a China - será muito difícil substituir-se a China enquanto parceiro económico e financeiro de Angola -, EUA, França, Alemanha, Itália, Rússia e Espanha, a que estão reservados domínios de intervenção e de trabalho de enorme relevância e que podem tornar a cooperação com Portugal marginal.

O que deve marcar o futuro das relações entre os dois países?
Uma descomplexização total do relacionamento entre os dois países. Portugal continua a entender que detém o monopólio do conhecimento sobre Angola, pelo facto de ter sido a "potência" colonial/colonizadora (450 anos de presença). Angola continua a acumular mágoas relacionadas com tomadas de posição entendidas como ingerências nos seus assuntos internos. Tem havido vários "irritantes" ao longo destes anos e que justificam os altos e baixos nas relações. Angola, com o novo Presidente da República, está a inaugurar um novo ciclo de relacionamentos internacionais, com especial ênfase nos domínios económicos e financeiros. Portugal não foi referido como parceiro estratégico no discurso de tomada de posse do presidente João Lourenço e já o presidente José Eduardo dos Santos tinha-o retirado da lista de parceiros estratégicos. Na visita recentíssima do primeiro-ministro português a Angola parece que aconteceram alguns equívocos e mal-entendidos quanto à dívida do Estado angolano às empresas portuguesas que trabalham em Angola. Mas o ponto essencial para mim é que Portugal dificilmente voltará a ser um protagonista importante em Angola. Há países muito interessados em aprofundar a cooperação económica e financeira com Angola e que dispõem de muito mais recursos.

A lei sobre o repatriamento coercivo de capitais, que servirá para confiscar "bens incongruentes" domiciliados fora de Angola, entra em vigor em Janeiro. Essa iniciativa terá algum efeito em Portugal?
Em Portugal competirá ao Governo português e às instituições analisarem os efeitos destes repatriamentos, pressupondo que o movimento inicial de exportação de capitais para Portugal tenha tido efeitos positivos sobre a sua actividade económica, incluindo a balança de pagamentos. Para nós vai significar mais divisas para as reservas internacionais do país, mais investimento angolano em Angola, mais actividade económica e mais emprego. Existem sinais interessantes de que alguns angolanos estão na disposição de o fazer de uma forma voluntária e não litigiosa. Atendendo a que muitos dos angolanos com fortunas em Portugal apresentam essa disponibilidade patriótica (e têm amigos portugueses do "peito"), porque não associar a esse movimento de repatriamento, capital e empresários portugueses que estejam verdadeiramente interessados no desenvolvimento económico e social de Angola? Que grandes parcerias poderiam ser criadas.

Pode-se falar de uma verdadeira mudança de ciclo em Angola com a saída de cena de José Eduardo dos Santos? O MPLA está mudar com o novo Presidente?
Eu ainda faço parte de um grupo de angolanos que hesitam em considerar que o presidente João Lourenço pode, na verdade, inaugurar um novo ciclo político. Não por ele - cuja vontade em o fazer parece-me genuína -, mas pelo MPLA, que é uma máquina trituradora de vontades de mudanças e de ajustamentos. No último congresso do partido verificou-se que o novo Presidente apresentou-se como paladino da mudança no seu interior, tendo mudado algumas das figuras mais proeminentes da direcção de José Eduardo dos Santos. Parece-me, no entanto, que se está a criar um novo "grupo de bajuladores" do novo Presidente e só espero que João Lourenço - com a sua reconhecida capacidade política de leitura dos problemas - os identifique e os coloque no devido lugar. O seu discurso de tomada de posse como presidente do MPLA foi contundente quanto ao combate contra a corrupção começar pelos membros do partido, dirigentes ou meros militantes. É um magnífico sinal.

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