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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Empresa testou a medida e com sucesso: produtividade subiu 40% e quase todos os trabalhadores se mostraram satisfeitos. Por cá, o cenário é outro: “os portugueses ainda preferem um aumento de salário do que ter mais tempo livre. É uma questão de desenvolvimento”.

O apelo parece irresistível para todos quantos já temeram uma segunda-feira pelo menos uma vez na vida. Encurtar a semana de trabalho, passando de cinco para quatro dias, deixando os restantes três para o descanso a que se chama fim de semana. A ideia não é exatamente nova, mas à medida que é tentada por mais empresas vai despertando a atenção de mais curiosos. Uma das experiências mais recentes foi concretizada pela norte-americana Microsoft, nos escritórios do Japão, onde, durante um mês, o de agosto, os funcionários foram dispensados à sexta-feira. Ao todo, cinco dias de trabalho a menos.

 

Os resultados agora apresentados mostram boas notícias para a empresa e para os 2300 trabalhadores. Houve um aumento da produtividade a rondar os 40%, que no caso da Microsoft foi calculada a partir da divisão do número de vendas pelo número de funcionários, e comparada com o período homólogo de 2018. Também em comparação com o ano anterior, a empresa teve mais sucesso na implementação da regra de “reuniões de 30 minutos” (os funcionários foram 46% mais cumpridores). A juntar ao que se ganha há que somar o que se perde. Ou o que se poupa. A Microsoft imprimiu menos papel (o número de páginas impressas ficou 58,7% abaixo do de agosto do ano passado) e consumiu menos 23,1% de eletricidade.

 

Os funcionários responderam com a alegria própria de quem conseguiu mais tempo para a vida pessoal: 92% foi a taxa de satisfação dada a este projeto-piloto, que a Microsoft implementou no Japão por se tratar de um dos países onde a carga horária é mais elevada. “Trabalhar pouco tempo, descansar bem e aprender muito”, foi o que disse o presidente executivo da gigante tecnológica no país, Takuya Hirano. E embora não seja ainda certo que a experiência se repita, acrescentou: “Quero que os trabalhadores pensem nisto e percebam que conseguem alcançar os mesmos resultados com menos 20% de tempo de trabalho.”

 

E EM PORTUGAL? “35 HORAS SÃO UM LUXO DE PAÍS RICO”

 

Se a passagem dos testes à realidade não é certa, em Portugal o caminho parece ainda mais longo. Para Pedro Braz Teixeira, diretor do Gabinete de Estudos do Fórum para a Competitividade, há diversos motivos para que assim seja. “Temos há muito um problema de produtividade em Portugal e o ritmo a que ela cresce é baixíssimo.” Continuando assim, prossegue, “seriam precisos 80 anos para atingir a média europeia”. E mesmo que a produtividade suba com uma semana de trabalho de quatro dias em contextos como o da Microsoft no Japão, o economista não está certo de que assim acontecesse em Portugal.

 

Segundo as contas do Banco de Portugal (BdP), 2018 foi um ano de evolução dos rendimentos, com o salário médio a crescer 2,2%. Mesmo com esse incentivo, porém, a produtividade reduziu-se 0,6%. A esse propósito, o banco central não tem dúvidas de que “a retoma de um perfil ascendente da produtividade constitui um dos desafios cruciais enfrentados pela economia portuguesa”. Quem sofre são também os trabalhadores, porque o sistema funciona em círculo. “Com efeito, a evolução desfavorável da produtividade não tem permitido sustentar uma dinâmica mais forte dos salários e do rendimento”, lê-se no Boletim Económico de Maio do BdP.

 

Pedro Braz Teixeira usa outros números para refletir o mesmo problema. “No conjunto dos últimos quatro anos, a produtividade subiu 1,7%, muito menos do que subiram os salários [aqui o Expresso faz as contas aos aumentos de salário mínimo]. Sem aumentar um, não dá para continuar a aumentar o outro”, defende. Por isso, o também ex-adjunto de Manuela Ferreira Leite, na altura em que era ministra das Finanças, mostra-se convicto de que é “impensável” reduzir ainda mais o horário de trabalho, já que mesmo “as 35 horas são um luxo de país rico”, que Portugal não é.

 

Os passos estão trocados, acredita Braz Teixeira. Primeiro é preciso crescer através da subida da capacidade produtiva, mas por outras vias. “Há, de facto, demasiado tempo perdido em reuniões, que podem ser mais diretas. Mas é urgente que o Governo reconheça o problema da produtividade. E que os cursos profissionais sejam finalmente adaptados às necessidades das empresas.”

 

E A FELICIDADE?

 

Um dos argumentos utilizados pelos defensores da ideia da semana de quatro dias, e referido pelos funcionários da Microsoft que aprovaram o teste, é a felicidade associada a uma melhor conciliação entre vida pessoal e vida profissional. O economista Diogo Agostinho defendeu-o no Expresso, lembrando que “passamos a maior parte do tempo a trabalhar, mas não nos podemos esquecer que cada trabalhador é uma pessoa, um ser humano, que precisa do seu tempo pessoal, que precisa de descansar e dedicar tempo útil à família. Até numa lógica de incentivo à natalidade, esta seria uma boa medida.”

 

Pedro Braz Teixeira rebate a ideia por achar que “aqui ainda estamos num estágio de desenvolvimento diferente” de outros países, como o Japão ou os países nórdicos, onde medidas destas também já foram experimentadas. “Os portugueses preferem ter um aumento de salário do que ter mais tempo livre.” Isto porque o lazer é um luxo que muitos não podem oferecer a si próprios. “É uma questão de progresso: ainda estamos na fase de supressão de necessidades básicas”, reforça o economista. O que não significa que a conciliação casa-trabalho esteja no ponto ideal. “Há uma imensa falha [nesse campo], que está a agravar-se por causa dos transportes e da habitação”, alerta. “As casas estão cada vez mais caras, o que obriga as pessoas a afastarem-se e a perder muitas horas em deslocações.”

 

A VEZ DOS CRIATIVOS

 

Mesmo com a ressalva das diferenças entre países e respetivas economias, vários especialistas têm alertado para o facto de que trabalhar mais horas não significa ser mais produtivo. Na teoria económica, é genericamente aceite o conceito de produtividade marginal decrescente do trabalho, isto é, a ideia de que cada hora de trabalho tende a ser menos produtiva do que a anterior.

 

Pedro Braz Teixeira percebe que isso faça sentido em alguns segmentos, como o tecnológico, onde os quatro dias de trabalho têm sido testados. “Nas indústrias isso não funcionaria, não podem parar um dia inteiro. Nos serviços de atendimento ao público também não. Não é por um supermercado estar fechado num dia que no dia seguinte o funcionário da caixa vai ser mais produtivo”, prossegue. Nas áreas criativas, porém, o cenário é outro. “Em atividades criativas, seja na publicidade, na ciência, onde for, ter a cabeça mais livre podia resultar muito bem”, considera o economista. “A mim acontece-me várias vezes mudar de sítio, ir dar uma volta, e ter uma ideia ótima.”

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