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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Sector das frutas e legumes português voltou a juntar-se na Fruit Logistica de Berlim, a maior feira horto-frutícola da Europa. Estimativas apontam para 1600 milhões de euros em exportações. Responsáveis pensam agora na expansão para o mercado asiático.

Com expectativa e prudência: é desta forma que as empresas portuguesas do sector das frutas e legumes que marcaram presença na Fruit Logistica, em Berlim, aguardam por um eventual impacto do “Brexit”. O Reino Unido é o quarto maior cliente e representou, de Janeiro a Novembro de 2019, cerca de 10% de todas as exportações.

 

Entre os dias 5 e 7 de Fevereiro, as principais empresas horto-frutícolas reuniram-se na capital alemã, naquela que é a maior feira do sector a nível europeu. Foi a décima participação portuguesa no certame com coordenação da Portugal Fresh, organização que junta produtores e contribuiu para a dinamização e internacionalização das frutas, legumes e flores: em 2019, as estimativas apontam para que as exportações ultrapassem os 1600 milhões de euros, aumento de 105% face ao valor alcançado em 2010 (780 milhões de euros) e confirma o crescimento acelerado do sector. Tomate transformado, pequenos frutos, peras, laranjas e castanhas são os líderes das exportações.

 

Para os irmãos Emma e Miguel, a separação entre Reino Unido e União Europeia vai muito além do impacto empresarial. A mãe dos jovens, Anne Langan, nascida em Inglaterra, fundou a Emergosol em 2003. A empresa, sediada em Torres Vedras, especializa-se na produção e exportação de vários tipos de frutos, com especial enfoque na abóbora, pêra e maçã.

 

O Reino Unido recebe a maior parte do que é produzido pela família Langan: 65% do volume de negócios da Emergosol passa por este parceiro, valor que, em 2016, chegou a atingir os 85%. Pela importância vital que este mercado assume para o sucesso da empresa, os irmãos não esperaram pelo Governo e decidiram agir.

 

“No dia após o referendo, o câmbio caiu imenso e tivemos um forte prejuízo. Abrimos uma empresa em Inglaterra por causa do ‘Brexit’. De momento está ‘dormente’, mas recorreremos a ela caso seja necessário. Temos também armazéns preparados, na necessidade de existir uma adaptação. Queremos que o impacto seja mínimo”, explica ao PÚBLICO Miguel Langan, um dos gestores da Emergosol.

 

Apesar da cautela, os irmãos refugiam-se na confiança da qualidade do produto, suficiente para ultrapassar eventuais entraves fitossanitários implementados a partir de 2021. “A esse nível, acreditamos que a Europa será sempre mais exigente do que o Reino Unido e o nosso produto cumprirá com facilidade [esses requisitos]”, resume o jovem.

 

Esta opinião é partilhada por Carol Ford, directora comercial da AC Goatham & Son, uma das principais produtoras de peras e maçãs no Reino Unido. “Claro que existirão diferenças a partir do próximo ano, mas os negócios inovadores vão encontrar formas de contornar as eventuais limitações. O comércio encontra sempre uma forma de acontecer, não consigo ver um ponto final nas trocas comerciais”, sublinha.

 

Esta empresa familiar criada em 1922 abastece exclusivamente o mercado britânico, mas tem a intenção de ingressar nos mercados internacionais, factor que motivou a ida à presente edição da Fruit Logistica. Contudo, apesar de considerar que a internacionalização é um passo importante para a empresa, a produtora inglesa considera que o “Brexit” irá, inevitavelmente, solidificar o mercado interno.

 

“Acredito que os britânicos passarão a consumir mais produtos produzidos localmente. Mas, olhando para a questão de outro prisma, temos vantagens também quanto à sustentabilidade: se deixarmos de importar produtos que cheguem de avião ou outro meio poluente, reduziremos também a pegada ecológica”, finaliza Carol.

 

O Governo anunciou a criação de programas às empresas que dependem do mercado britânico, com alguns produtores a reconhecer o diálogo entre as entidades governativas de ambos os países. O director da produtora de saladas embaladas Vitacress, Luís Mesquita Dias, adianta que a empresa já está a estudar soluções. “Inglaterra não pode dispensar os produtos hortícolas do Sul da Europa, [vindos de] Portugal, Espanha e Itália. Começamos a testar meios de transporte alternativos”, revelou.

 

O “fanatismo” da sustentabilidade

 

Em adição ao verde presente nos frutos e legumes publicitados nesta exposição, a vertente ecológica era o principal chamariz em muitos expositores e produtos. Uma preocupação que entra cada vez mais nas prioridades das empresas, no momento de escolher parceiros e definir estratégias de produção.

 

O italiano Ennio Loda solta uma gargalhada ruidosa que se perde na imensidão do centro de exposições Messe Berlin: “Há 40 anos, quando criei a minha empresa, todos usavam plástico. Era acessível, barato. O problema veio depois”.

 

Natural de Milão, Ennio Loda é o fundador e actual CEO da Adercata, empresa que, desde a década de 70, produz exclusivamente sacos de papel biodegradáveis e compostáveis, uma alternativa ao plástico que, reconhece, é fundamental em algumas situações. “Há produtos que, por serem sujeitos a viagens longas ou outras condicionantes, ficam mais bem protegidos se forem embalados com plástico, sem dúvida. O problema é que, em muitas situações, não se justifica esse uso e podíamos simplesmente recorrer a sacos de papel mais ecológicos e fáceis de reciclar”, exaspera.

 

O negócio corre melhor actualmente à empresa do que no século passado, com contribuição especial dos governos europeus: vários países, como é o caso de Portugal, aplicaram medidas que restringem o uso de plástico, algo que motiva vários negócios a procurarem alternativas mais ecológicas. Esta mentalidade ecológica é positiva, admite Loda, mas o milanês reivindica que a utilização de plástico deveria ser regulada pela União Europeia e igual para todos os Estados-membros.

 

“Não faz sentido alguns países não permitirem a utilização de plástico, outros permitirem parcialmente, e ainda existirem países sem quaisquer restrições. Depois é a regulamentação: um saco de papel que cumpre os requisitos para importação num determinado país pode já não atingir essas regulações noutro. Obriga-nos a alterar o produto.

 

A gestão eficiente da água é outra das preocupações do sector, num país onde cada vez mais se fala da escassez de reservas. Um dos argumentos mais vincados pelos produtores foi a aposta em ferramentas tecnológicas que permitam o melhor aproveitamento possível de água.

 

“Trabalhámos a água com precisão milimétrica. É uma das nossas principais preocupações”, garante João Alves, produtor e director da LusoPêra, empresa focada na exportação de pêra-rocha, um fruto com grande peso nas exportações. A seu lado, Filipe Silva, director comercial, afirma que o poder político se esquece “que os produtores são os protectores da Natureza”, denunciando um certo “fanatismo provocado pela comunicação social” em relação ao tema. “As pessoas não se podem esquecer que existe uma população enorme que precisa de ser alimentada”, conclui.

 

Coronavírus teve impacto na exposição

 

Um dos temas que marcou a Fruit Logistica de 2019 foi o surto que já provocou 1110 mortes na China. Mesmo ao lado da zona destinada às empresas portuguesas, vários expositores ficaram vazios. Preocupados com a segurança do evento, a organização vetou o acesso a quem, nas duas semanas que antecederam o evento, visitaram a província de Hubei ou apresentavam alguns sintomas relacionados com o surto, tais como febre, tosse ou falta de ar.

 

O espaço de exposição da empresa de exportação chinesa Goodfarmer, que partilhava espaço com uma companhia portuguesa, estava completamente deserto. No centro, um cartaz explicava aos clientes que os parceiros não estariam presentes, retidos na China devido à crise de saúde pública. Estima-se que 30% das empresas deste país asiático não tenham conseguido participar no evento.

 

Morten Clausen, colaborador da Goodfarmer, não esconde alguma tristeza pela situação, destacando um possível impacto directo da crise de saúde pública. “Tivemos duas dezenas de empresas que não vieram. Ouvimos que o preço de alguns frutos vindos da China irá aumentar como consequência desta crise. Claro que podemos dizer agora que talvez se pudesse ter actuado mais cedo, mas não se sabia bem o que era este vírus”, explica.

 

A ministra da Agricultura, Maria do Céu Albuquerque, visitou a feira e, a propósito da possibilidade de produtos portugueses entrarem no mercado chinês, fez um comentário que lhe valeu várias críticas e, posteriormente, foi emendado em comunicado.

 

“Acho que [o coronavírus] até pode ter consequências bastantes positivas [para as exportações portuguesas na China]. Ainda assim, não tenho dados que me permitam poder fazer uma avaliação. Mas atendendo a que é um mercado emergente e em crescimento explosivo, temos de nos preparar para corresponder ao nossos objectivo e ambição de podermos contribuir para as nossas vendas e ajudar a equilibrar a nossa balança comercial”, afirmou a governante, que mais tarde lamentou as suas próprias palavras.

 

A Ásia é o próximo ponto de exploração assumido pelo sector, prevendo-se que o mercado asiático seja responsável por 56% das compras mundiais no sector das frutas e legumes até 2030. Na verdade, esta ambição já é antiga, mas os entraves fitossanitários e exigências do mercado asiático atrasam esta expansão, afirma Gonçalo Santos Andrade, presidente da Portugal Fresh: “Requer uma negociação muito burocrática, demora o seu tempo. Não é fácil. O dossiê da pêra e da maçã está avançado, mas ainda não temos autorização”, revela.

 

Meta requer 25% de crescimento

 

Dois mil milhões de euros em exportações no final de 2020 foi a meta traçada pelo sector em 2013. As estimativas apresentadas em Berlim apontam para 1600 milhões de euros em 2019, sendo agora preciso um crescimento na ordem dos 25%, valor muito acentuado. O presidente da Portugal Fresh admite essa dificuldade, preferindo focar-se no trabalho conseguido em anos anteriores.

 

Em nove anos, duplicámos as exportações. Esta meta foi anunciada em 2014. Em 2013, as exportações atingiram pela primeira vez os mil milhões de euros e este alvo fez sentido para atrair mais produtores e clientes. Se tivéssemos traçado um objectivo facilmente atingível, não teria grande significado”.

 

A manutenção da espiral ascendente das exportações foi o principal motivo de satisfação, num sector que pede maior investimento na promoção. A Espanha voltou a ser o país que mais importa frutas e legumes portugueses, seguida pela França, Países Baixos e Reino Unido. A Alemanha, que começou recentemente a receber laranja algarvia fruto de uma parceria com a cadeia de supermercados Lidl, completa o top 5.

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