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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Entre a tradição e inovação: materiais para uma arquitetura sustentável da autoria de Sara Saraiva, do programa inovcontacto C24 que integrou a Alex D Architects | High Wycombe, Reino Unido.

A consciência de que a indústria da construção ameaça a sustentabilidade do planeta faz-se cada vez mais presente, o que tem vindo a desencadear a procura de soluções construtivas com menor impacto ambiental, quer através da recuperação de materiais e métodos tradicionais de utilização milenar, quer através da criação de produtos inovadores. No entanto, a aplicação de materiais ecológicos na arquitetura é ainda pontual e o cimento continua a ser o material mais recorrente, sendo responsável por cerca de 5% das emissões de dióxido de carbono a nível mundial (mais do que o tráfego aéreo) e pelo aumento da escassez de areia (preocupante para a manutenção das áreas costeiras).

 

A sustentabilidade de um material construtivo tem de ser analisada a partir de todas as fases do seu ciclo de vida, desde a extração da matéria-prima, passando pelo fabrico do produto, pelo transporte para o estaleiro da obra, pela manutenção do edifício e finalmente pela demolição deste. Por isso, para além da eficiência energética dos materiais em si, devem também ser tidos em conta aspetos como o recurso a combustíveis fósseis, a emissão de gases poluentes ou a produção de resíduos não reutilizáveis (na Europa, por exemplo, 30% dos resíduos provêm da indústria da construção).

 

O retorno a materiais biodegradáveis e métodos de construção milenares, como é exemplo o bambu, tem vindo a ganhar maior interesse, fazendo-se uso da criatividade para reinventar a tradição e propor novas soluções. Muito utilizado como material construtivo nas zonas tropicais onde encontra o seu habitat natural, o bambu tem vindo a tornar-se cada vez mais popular, não só pela sua sustentabilidade, como também pelas particulares características estéticas que apresenta, figurando em obras de arquitetos internacionalmente aclamados. Diferentemente das outras árvores, o ciclo de crescimento do bambu é muito mais rápido, o que permite repor as florestas em menos tempo. Também pelas suas propriedades mecânicas, possui muita durabilidade quando adequadamente tratado e permite diversas aplicações, tanto estruturalmente como enquanto revestimento.

 

Em alternativa aos materiais de tradição milenar, têm vindo a surgir novos materiais na indústria da construção e aplicações inovadoras. É o caso da cortiça, que até recentemente apenas era considerada como material de isolamento, principalmente pelas suas potencialidades acústicas, mas tem vindo a ganhar destaque enquanto material estrutural e de revestimento por se adaptar a diversas utilizações. O Pavilhão de Portugal, da autoria do arquiteto Carlos Couto, para a Expo 2010 em Xangai, é um exemplo da aplicação de aglomerado de cortiça expandida como revestimento, servindo simultaneamente de isolamento.

 

Também o Terminal de Cruzeiros de Lisboa, da autoria do arquiteto Carrilho da Graça, é exemplo da utilização pioneira da cortiça num composto de betão mais leve, duradouro e sustentável, criado pela corticeira Amorim em conjunto com a cimenteira Secil e laboratórios de investigação da Universidade de Coimbra. Sendo Portugal o maior produtor de cortiça do mundo, o investimento na produção deste material com vista à indústria da construção contribui para a afirmação nacional no esforço global em prol do desenvolvimento sustentável (tanto na vertente ambiental como na económica e na social).

 

Apesar do crescente comprometimento com a Agenda Verde, entre acordos, convenções e pactos mundiais que apelam a práticas sustentáveis na indústria da construção, ainda há muito por fazer. A inovação tecnológica e a aposta na investigação tem de facto trazido soluções mais ecológicas, porém ainda pouco implementadas, talvez devido a uma certa resistência a mudanças de hábitos, o que poderia ser combatido com incentivos municipais na aprovação a projetos amigos do ambiente.

 

E tal como o século XX assistiu a obras inéditas apenas possibilitadas pelo surgimento do betão armado (de que é exemplo o legado de Le Corbusier), poderão os próximos tempos ser uma oportunidade única para promover um pensamento arquitetónico criativo e transformador através de materiais e métodos construtivos sustentáveis, cruzando os ensinamentos milenares com as descobertas atuais.

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