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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

O resultado do Brexit para a indústria farmacêutica britânica ainda não é claro. Contudo, uma das primeiras consequências já conhecidas é a transferência para Amesterdão, até 29 de Março de 2019, da Agência Europeia de Medicamentos (AEM).

Ora, para Portugal, que mantém uma indústria competitiva e resiliente, apesar das medidas nocivas nos anos da troika, a saída do Reino Unido (RU) do bloco europeu pode transformar-se numa oportunidade ímpar para a sua afirmação internacional; ou, indo um pouco mais longe, num momento ímpar para encetar a criação de um cluster farmacêutico no país.

 

Neste âmbito, o estudo lançado recentemente pela McKinsey é certeiro: “a atividade das farmacêuticas contribuiu, direta e indiretamente, com 4,3 mil milhões de euros para a economia portuguesa, mais 53,5% do que no ano 2000. E emprega cerca 100 mil pessoas” . E um outro estudo, lançado igualmente já este ano, destaca as “condições do país para se estabelecer como uma plataforma logística da indústria farmacêutica mundial (…), nomeadamente junto dos PALOP e de outros países africanos” .

 

O impacto do Brexit. Sem dúvida, muito está ainda por decidir e o setor farmacêutico em terras de Sua Majestade está aguerridamente a tentar manter o mais possível o atual status-quo – inclusive no que respeita à saída integral da AEM do país. Contudo, um hard Brexit vai, desde logo, esbarrar nas diferenças regulamentares entre um lado e o outro do Canal da Mancha, já que, conforme sustentam reputados especialistas britânicos, o RU passa a ser “um país terceiro sujeito às regras da Organização Mundial do Comércio (…), nomeadamente quanto aos requisitos para a certificação de lotes” .

 

Do brain-drain ao brain-regain. Ao nível dos recursos humanos formados em Portugal e expatriados no RU e em outros Estados-membros a partir do início da crise, um hard Brexit pode ser mais um motivo para o regresso de muito desse talento ao país de origem, engrossando assim a capacidade de inovação e I&D perdida nesse período e crítica ao sucesso de uma indústria de vocação fortemente exportadora.

 

Naturalmente o Governo – em especial a tutela da Economia, que precisa urgentemente de ser recuperada para esta área, em ampla coordenação com a Saúde – tem aqui um papel essencial, não só enquanto agregador dos fatores de atratividade para o regresso desses profissionais, mas também como promotor de uma estratégia credível e sustentável de investimento em I&D e, mais amplamente, de políticas públicas capazes de galvanizar vontades interdisciplinares em torno de um cluster farmacêutico português.

 

Além do potencial junto de startups e projetos empresariais 100% portugueses (não desenvolvido aqui, mas igualmente relevante), temos ainda a eterna questão do turismo de Saúde, segmento do qual o país continua teimosamente alheado. Já nem falo do clima, fator pelo qual, independentemente do Brexit, Portugal seria sempre mais competitivo do que a chuvosa Grã-Bretanha. Falo de situações bem concretas como a atração de todos aqueles pacientes (e seus familiares) de muitos países europeus a quem é negada a possibilidade de efetuarem hemodiálise após os 65 ou 70 anos de idade ou que aqui procuram as reputadas cirurgias às cataratas, artoplastia do joelho ou angioplastias coronárias.

 

Tendo em conta o inegável e extraordinário potencial para a criação de valor económico, reputacional e de inovação – e de receitas fiscais diretas e indiretas para o Estado – que um cluster farmacêutico em Portugal pode representar, a pergunta que fica é basicamente a mesma de sempre: afinal, estamos exatamente à espera do quê? É que, nem os britânicos estão parados, nem todos os nossos concorrentes mais diretos da Europa continental (incluindo, claro, a insular Irlanda). Só nós. E todos sabemos onde essa crónica inércia costuma desembocar.

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