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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

O surto do coronavírus ainda está no início, mas os setores empresariais mais expostos ao mercado chinês já começam a sentir os efeitos da paralisação na Ásia, que vão da escassez de matérias-primas à perda de encomendas.

Falta de matérias-primas para a indústria, dificuldade em despachar mercadorias, custos de expedição mais elevados, compradores chineses desaparecidos, suspensão de encomendas, adiamento de feiras internacionais, viagens e reuniões canceladas. Estes são alguns dos impactos relacionados com o coronavírus relatados ao Negócios pelas exportadoras portuguesas, dramatizando os efeitos de uma crise prolongada.

“Vai ser muito pior que [a queda do] Lehman Brothers. A globalização foi sendo feita de forma selvagem e as empresas europeias estão fragilizadas porque estão reféns da Ásia, que abastece 90% do têxtil, vestuário e calçado”, vaticina César Araújo, porta-voz do setor do vestuário (ANIVEC), que fala num “impacto em cadeia” que não tardará a chegar às prateleiras das lojas. É que os tecidos, forros, telas e etiquetas já começam a escassear nos armazéns das 4 mil fábricas nacionais, que empregam 120 mil pessoas, e “não é fácil” encontrar fornecedores alternativos.

 

A somar às matérias-primas, componentes ou corantes encomendados e que tardam em chegar, com impacto nos tempos e custos de produção – no limite podem mesmo impossibilitar o fabrico –, há encomendas que as empresas têxteis já produziram e que não estão a conseguir expedir. Já é certo o custo acrescido nos stocks, no armazenamento e nos contentores, mas o próprio negócio pode cair por terra se a situação se prolongar por muito mais tempo, alerta Ana Dinis, diretora executiva da associação dos industriais do têxtil (ATP).

Ainda na fileira da moda, o calçado adota um tom menos alarmista, embora as exportações para a China e Hong Kong tenham crescido a dois dígitos em 2019, até ascender a quase 30 milhões de euros. Quase de partida com uma comitiva de mais de 80 empresas para Milão, onde no domingo arranca a maior feira mundial do setor, Paulo Gonçalves, da APICCAPS, reconhece “preocupação” com a hipótese de as centenas de importadores chineses não marcarem presença. Na agenda de abril continua um evento em Tóquio, seguido de visitas comerciais a clientes na região, para abordar todo o mercado asiático. “Esperamos que até lá tudo volte à normalidade”, confia o responsável.

No ano passado, a China ocupou a 15.ª posição como cliente e a 6.ª como fornecedor de Portugal, pesando apenas cerca de 1% nas exportações portuguesas de bens. De janeiro a novembro, as vendas de mercadorias para esse destino caíram 10%, aproximando-se dos 553 milhões de euros, o que agravou o défice bilateral para cerca de 2.200 milhões de euros, já que as compras aos chineses progrediram 26% nesse período. A taxa de cobertura das importações pelas exportações ficou-se pelos 20%, segundo os dados fornecidos pela Associação Empresarial de Portugal.

 

Pedras e viagens deixam de rolar

 

Mármores, granitos e outras pedras estão entre os principais produtos portugueses vendidos para a China. Uma feira em Xiamen, no Sudeste do país, já foi adiada de março para junho e as empresas do setor extrativo e transformador das rochas ornamentais sabem que “a situação tem tendência a piorar” e que “o impacto poderá vir a ser considerável. Aliás, ilustra Francelina Pinto, os calcários da região centro já estão a sentir na pele algumas consequências.

“No início do ano era natural estarem já em Portugal os compradores chineses para selecionar a pedra que pretendem comprar e ainda não vieram. Como os bancos na China estão fechados também não há cartas de crédito, o que impede os negócios. Os portos estão a trabalhar abaixo da normalidade e as empresas estão com dificuldade em enviar blocos, até pela falta de contentores – e se não retornarem cheios para a Europa, os preços tendem a disparar. E muito material de desgaste para os equipamentos, apesar de adquirido na Europa, é fabricado na China, podendo haver rutura de stocks”, resume a diretora executiva da ANIET, que representa a indústria extrativa.

Porém, não é só a indústria que está a sofrer com o coronavírus. A Pinto Lopes Viagens já cancelou os quatro circuitos que tinha na China e também os trajetos que paravam naquele território, como os cruzeiros. Tem também tido alguns cancelamentos para outros destinos asiáticos. Para já, a pausa na operação está prevista até ao início de junho. Rui Pinto Lopes, administrador desta agência especializada em viagens culturais de grupo para maiores de 60 anos, que tem balcões no Porto e Lisboa, refere que “neste momento ainda é prematuro adiantar números”, até porque muitos clientes estão a transferir as reservas para outros destinos.

 

Oportunidade? Sim, Sra. ministra

 

A ministra da Agricultura disse que o coronavírus “até pode ter consequências bastante positivas” nas exportações para a China, aludindo ao agroalimentar, podendo “contribuir para as vendas e ajudar a equilibrar a balança comercial” do país. Face à polémica, Maria do Céu Albuquerque emendou as declarações e criticou “a interpretação das suas palavras”, mas os líderes empresariais ouvidos pelo Negócios dão razão à governante. “Como noutras situações de ameaça, há sempre oportunidades que surgem e que as empresas devem aproveitar. Podemos confirmar contactos recebidos para fornecimento de material médico e hospitalar a empresas chinesas”, exemplificou Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP. Os granitos portugueses, que concorrem com os chineses, também podem ganhar quota de mercado e a ATP aconselha as têxteis a “estarem atentas e tentarem aproveitar eventuais oportunidades que surjam”, pelo desvio de contratos de fornecedores asiáticos.

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