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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Para fazer a sua parte no combate às alterações climáticas, o País comprometeu-se a atingir a neutralidade carbónica em 2050, o que implica uma queda brutal das emissões de gases com efeito de estufa. Cumprir essa promessa obriga a implementar as mudanças mais radicais durante esta década. Das cidades ao campo, dos transportes ao emprego, na rua e em casa, Portugal vai ficar muito diferente.

A década de revolução verde

Portugal, 2030. Joana, que em 2021 tinha 9 anos, acaba de entrar na idade adulta. Frequenta o primeiro ano da faculdade, um curso de Engenharia Eletrotécnica. Quer especializar-se em Energias Renováveis, uma área que só nos cinco anos anteriores cresceu quase 40%, e com potencial para crescer ainda mais, agora que o País começou a exportar eletricidade "verde" para o Norte da Europa.


A jovem tirou a carta de condução, mas não pensa em comprar carro. Quando precisa de fazer um percurso demasiado longo para a sua trotineta elétrica, pega no telemóvel e procura na app o automóvel partilhado mais próximo. Afinal, qual a racionalidade de gastar tanto dinheiro numa máquina que está quase todo o tempo parada?


Respira-se bem na cidade onde vive. E há pouco ruído de tráfego, fora a ocasional buzinadela - a maioria dos veículos na estrada são elétricos ou híbridos, e já começam até a surgir os primeiros autocarros movidos a hidrogénio. Todos os anos plantam-se milhares de árvores, para ajudar a refrescar o ar durante as ondas de calor, cada vez mais comuns. Muitos edifícios têm coberturas verdes, além de painéis solares que ajudam a produzir parte da energia consumida na cidade.


A carne, entretanto, tornou-se quase um luxo, desde que o governo criou uma taxa ambiental associada às emissões da produção e do transporte de alimentos. Joana, de qualquer modo, apesar de não ser vegetariana, tem noção do impacto das suas opções alimentares no planeta. No supermercado, tenta sempre escolher os produtos certos: fruta da época, hortícolas das produções de agricultura vertical ultraeficiente nos arredores da cidade, peixe capturado de forma sustentável, carne de vaca nacional, alimentada nas pastagens dos campos alentejanos e dos montes beirões e transmontanos.


Este exercício de futurologia, baseado em estudos e previsões de especialistas, é apenas uma amostra da evolução de Portugal nos anos que aí vêm. O País comprometeu-se a atingir a neutralidade carbónica em 2050, o que significa reduzir os gases com efeito de estufa ao ponto de serem integralmente absorvidos pelas florestas, matos e pastagens. Cumprir esse objetivo, que é partilhado pela União Europeia (UE) e faz parte do plano de limitar o aumento da temperatura a 1,52 C, para evitar alterações dramáticas no clima, implica mudanças profundas na sociedade, na economia, na agricultura, com um custo estimado de €2,1 mil milhões a €2,5 mil milhões por ano (1,2% do PIB). E as grandes transformações terão de acontecer durante esta década - temos nove anos para cortar as emissões para metade. A partir de 2030, estaremos já na fase de arrumar a casa. Agora é o momento de erguer as paredes.

OS NOVOS EMPREGOS


A mudança mais profunda é a mais invisível: a eletrificação da economia. "Hoje, 60% do consumo de eletricidade é de fontes renováveis; o objetivo, para 2030, é 80%", diz Pedro Amaral Jorge, presidente da Associação Portuguesa de Energias Renováveis. Para chegar a estes números, o País terá de aumentar nove vezes a capacidade instalada de energia solar, do atual 1 gigawatt (GW) para 9 GW e quase o dobro de eólica, de 5,2 GW para 9 GW. Isto no mínimo, sublinha o representante do setor. "A Comissão Europeia está a alterar a meta de 40% de redução de emissões face a 1990 para 55%, o que levará a que estes objetivos sejam revistos."


As projeções apontam ainda para a instalação de alguns projetos de energia das ondas e das marés e 300 MW de eólica offshore, uma das mais apetecíveis formas de energia renovável (no mar, os ventos são mais constantes e o impacto paisagístico e ambiental é menor). Estes cenários não levam em conta a produção de eletricidade para
os catalisadores de hidrogénio, outra aposta estrutural.


Aparentemente, estamos no caminho certo. A central termoelétrica a carvão de Sines encerra esta sexta-feira, 15, dois anos antes da data estabelecida pelo Governo (a pandemia reduziu o consumo de energia). A outra central, a do Pego, em Abrantes, fecha também em 2021. Mas nos próximos anos terá de disparar a construção de eólicas e centrais fotovoltaicas, e é previsível alguma contestação, dada a dimensão das infraestruturas {ver caixa Pedras no caminho, nesta página).


O esforço compensa, a começar pelo preço da eletricidade. "O desenvolvimento da tecnologia está a ser muito rápido", diz Pedro Amaral Jorge. "Vamos produzir equipamentos de forma mais flexível e mais barata. Portanto, teremos menos emissões e energia mais barata, o que beneficia os consumidores e as empresas." Portugal deverá mesmo passar de importador a exportador líquido de energia, acrescenta. "Podemos ser o Qatar das renováveis na Europa, exportando eletricidade para o Norte, desde que se desbloqueiem as interligações da Península Ibérica, que França tem tentado dificultar porque quer escoar a sua energia nuclear."


Atualmente, o setor das renováveis vale cerca de €3,5 mil milhões (incluindo €300 milhões em exportação de material e tecnologia eólica). Daqui a nove anos, estima-se que atinja os €11 mil milhões - 4,5% do PIB. Segundo uma análise da Deloitte, o emprego na área deverá crescer na mesma linha, dos atuais 50 mil para 160 mil, mais do triplo dos postos de trabalho perdidos com a extinção progressiva dos combustíveis fósseis (por exemplo, a refinaria da Galp em Matosinhos fecha já este ano, pondo em causa 400 postos de trabalho diretos e mais de mil indi- retos). O Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050, um documento de trabalho do Estado português, prevê "uma criação líquida marginal de postos de trabalho, num cenário extremamente conservador".


Outra vantagem é a descentralização desses empregos: ao contrário das centrais termoelétricas, a energia renovável espalha-se pelo território, e particularmente em regiões do interior, ajudando a fixar população que hoje tende a migrar para os centros urbanos do litoral.


O investimento na produção de eletricidade terá mesmo de ser gigantesco, para alimentar um setor de apetite crescente: a mobilidade elétrica.

O FIM DA GASOLINA E DO GASÓLEO


O Governo definiu 2040 como o ano em que deixam de ser vendidos veículos ligeiros novos com motores de combustão. Mas há planos para antecipar a data para 2035, em linha com as recomendações do Conselho Europeu (há países mais ambiciosos: Irlanda, Holanda, Dinamarca, Suécia, Islândia e Reino Unido param de vender carros novos exclusivamente a gasolina ou a gasóleo daqui a nove anos; na Noruega, em 2025).


O mercado já está a mudar. Em 2020, um em cada cinco veículos ligeiros transacionados era elétrico ou híbrido. Aliás, num ano desastroso para os stands, escaparam os elétricos, que subiram as vendas em 5,4%, quando o mercado, no seu todo, caiu 33,9%, face a 2019. "Portugal é o 4a da UE em vendas de carros elétricos, sendo que os outros do grupo da frente são países com PIB per capita muito superior e que dão maiores incentivos. Espanha e Itália estão nos 1,7%, Grécia, 0,6%", compara Hélder Pedro, secretário-geral da Associação do Comércio Automóvel de Portugal (ACAP), que aproveita para criticar o fim dos benefícios fiscais, no Orçamento do Estado, para híbridos, "apesar de terem baixas emissões e serem necessários para a descarbonização".


Os diesel serão as primeiras vítimas. Embora, em média, emitam menos gases com efeito de estufa do que os carros a gasolina, o facto de libertarem mais partículas nocivas para a saúde está a levar várias cidades europeias a restringir a sua circulação, assustando os potenciais compradores. Em 2019, os veículos a gasolina ultrapassaram os diesel pela primeira vez desde 2003, e a diferença acentuou-se em 2020. A


INFOGP.AFEA AR/VISÃO


tendência parece ter chegado ao mercado dos usados: a procura e a oferta de carros a gasolina aumentou e a gasóleo baixou, indica Nuno Castel-Branco, diretor-geral do Standvirtual.


Mantém-se, no entanto, um problema de fundo por resolver que está a emperrar a venda de elétricos. "Não há uma resposta adequada das infraestruturas de carregamento", lamenta Francisco Ferreira, presidente da associação ambientalista Zero. "Esse é o maior obstáculo. Conheço duas pessoas, de duas cidades diferentes, com poder de compra e motivadas para as questões ambientais, que não compraram elétricos porque não tinham onde carregá-los. Quem não tem garagem, não avança, apesar de um elétrico representar grandes poupanças, sobretudo na manutenção: não é preciso mudar o óleo, não tem correia de distribuição... É absolutamente fundamental investir na rede."


Hélder Pedro traduz por números esse investimento. "Hoje, há na UE 200 mil postos de carregamento. Precisamos de 3,2 milhões até 2030", calcula o secretário-geral da ACAP. "Noto um certo stresse por parte dos utilizadores dos elétricos que não têm onde carregar os carros. Certos concelhos só agora instalaram o seu primeiro posto de carregamento."


Com mais ou menos solavancos, a eletrificação dos transportes (incluindo os primeiros pesados a hidrogénio, mais perto do final da década) é inevitável. Nos próximos anos, podemos contar com uma redução do ruído e da poluição urbana, com vantagens claras para a saúde. Atualmente, a poluição provoca 14 mil mortes ou doenças graves em Portugal e 400 mil na Europa. Mas há mais mudanças nas cidades.

EDIFÍCIOS LITERALMENTE VERDES


O Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 estabelece a meta de redução de 96% no consumo energético dos edifícios, o que exige melhorias substanciais no isolamento (incluindo revestir telhados e paredes exteriores com jardins, as chamadas soluções de base natural) e estimular a instalação de bombas de calor e aquecimento solar, para substituir os atuais equipamentos a gás. Um passo que tem de ser dado o mais depressa possível, avisa Francisco Ferreira, da Zero. "Em cinco anos, devíamos proibir a venda de tudo o que seja fogões e esquentadores a gás, porque são equipamentos que duram 20 anos. Se não queremos ter combustíveis fósseis em 2040..."


As cidades deverão igualmente começar a produzir a sua própria energia. Dos 9 GW de eletricidade com origem solar, 2 GW serão descentralizados. Significa que se prevê, só para os próximos nove anos, a instalação de painéis foto- voltaicos em edifícios que representam o dobro de toda a energia fotovoltaica existente hoje em Portugal. Produzir eletricidade no local onde esta vai ser consumida permite reduzir as perdas da distribuição, e os painéis ainda beneficiam do efeito de arrefecimento das coberturas verdes (o calor excessivo retira-lhes eficiência).


O espaço público também será alvo de uma pequena revolução. Uma das medidas mais eficazes para combater o efeito de "ilha de calor" nas cidades (mais quentes do que as zonas rurais devido ao asfalto e ao cimento) é a criação de espaços verdes e a plantação de árvores, o que pode ter um impacto considerável na redução de mortalidade, face ao aumento da frequência e intensidade das ondas de calor. Esses espaços verdes têm a vantagem suplementar de ajudar a reter as águas da chuva, prevenindo inundações, um risco acrescido com o aumento previsto de tempestades.

MAIS E MELHOR FLORESTA


Regar os novos jardins será um desafio, num País que terá períodos de seca cada vez mais prolongados. Também aqui haverá mudanças, atendendo a que, hoje, a utilização de águas residuais para parques e lavagens de ruas é... residual. Em Lisboa, por exemplo, ronda os 3% ou 4%, quando em algumas cidades europeias - mais ricas e com mais água - esse número chega aos 40 por cento.


A poupança de água e energia estender-se-á à agricultura, através de aumentos da agricultura de precisão e na massificação da agricultura vertical, com ênfase em instalações nos arredores das grandes cidades (diminuindo assim as emissões do transporte).


O Roteiro para a Neutralidade prevê também aumentos consideráveis da agricultura biológica para ajudar a reduzir as emissões de gases com efeito de estufa associadas à produção de pesticidas sintéticos. Mas os mais recentes dados científicos vão no sentido oposto: este tipo de agricultura tem geralmente emissões superiores à convencional, porque necessita de maior área para produzir a mesma quantidade de produto. Um estudo publicado em 2019 na Nature estima que, se toda a população de Inglaterra e do País de Gales consumisse apenas comida biológica, a pegada carbónica da alimentação subiria 70 por cento.


Por outro lado, antevê-se um grande crescimento da área de pastagens semeadas biodiversas, que não necessitam de fertilizantes e têm uma capacidade de absorção de dióxido de carbono de 6,5 toneladas anuais por hectare - mais do que emite, em média, um português. Ainda há apenas 50 mil hectares destas pastagens, apesar de existir potencial para um milhão de hectares.




Menos lixo Cada português terá de reduzir os seus resíduos de 4% a 9% até 2030. Não será fácil: a quantidade de lixo tem subido todos os anos



OS EMPREGOS NAS ENERGIAS RENOVÁVEIS DEVERÃO TRIPLICAR NOS PRÓXIMOS NOVE ANOS

Pedras no caminho


O percurso rumo à neutralidade carbónica assemelha-se mais aos três mil metros com obstáculos do que à maratona: não é uma prova longa e cansativa, mas sim um meio-fundo repleto de barreiras. Uma das mais significativas é a previsível contestação a centrais solares, que ocuparão áreas extensas de terreno, inutilizando terrenos agrícolas e entrando em conflito com valores naturais. Paradoxalmente, é natural que surjam situações polémicas, com árvores a serem derrubadas para erguer painéis que prometem uma energia mais verde. Os campos eólicos sofrem de um problema semelhante: o território já está saturado de "ventoinhas" gigantes, que têm implicações paisagísticas e de ruído, além de impactos nas aves. A solução são as eólicas offshore, comuns no Norte da Europa. Mas a nossa plataforma continental é demasiado profunda, tornando a tecnologia convencional inviável. A alternativa são as turbinas flutuantes, como o projeto Windf loat Atlantic, ao largo de Viana do Castelo, operacional desde julho e que produz 25 MW de eletricidade. Continua, porém, a ser uma tecnologia dispendiosa. Outro problema, este a jusante da produção de energia, é a rede de carregamento de carros elétricos. Apesar do ímpeto inicial, a massificação está a ser muito lenta, o que tem desincentivado os consumidores.


Vem aí o exame


Os países têm sido proativos a anunciar promessas de descarbonização - todos se querem mostrar o campeão da sustentabilidade. Mas a verdade é que, se forem cumpridas todas as promessas que se encontram na mesa (o que está longe de ser garantido), o planeta encaminha-se para um aumento de temperatura de 2,4° C a 2,7° C, com consequências catastróficas. Os países têm até novembro para prepararem novas medidas, que serão apresentadas na Conferência das Partes da ONU, em Glasgow (adiada para 2021 devido à pandemia), tal como foi definido no Acordo de Paris, para que o mundo fique mais próximo dos 1,5° C.

Uma década de revoluções silenciosas

Encerramento das centrais termoelétricas a carvão

1GW de energia fotovoltaica

Portugal pode começar a exportar eletricidade produzida com renováveis para o Norte da Europa

Reforço da rede de carregamento de carros elétricos

Criação de novos impostos sobre bens e serviços, penalizando hábitos pouco sustentáveis, para compensar perdas de receitas do ISP

Plantação de árvores e criação de novos espaços verdes para combater as ondas de calor nas cidades

Taxação de alimentos de acordo com o seu impacto no ambiente (carne produzida em regime intensivo fica mais cara)

Proibição de cotonetes e palhinhas e louça de plástico de uso único

Criação de novos impostos sobre bens e serviços, penalizando hábitos pouco sustentáveis, para compensar perdas de receitas do ISP

Melhoria do isolamento das casas

Instalação de painéis fotovoltaicos nos edifícios

Aumento da agricultura de precisão

Aumento da área florestal, com menos área de pinheiro e eucalipto e mais área de sobreiro e outras espécies

Surgem os primeiros projetos de agricultura vertical perto das grandes cidades

Aumento da utilização de águas residuais para lavagem e rega urbana

Generalização do automóvel partilhado associado às novas tecnologias

Ligações ferroviárias entre todas as capitais de distrito

Empregos na energia renovável: cerca de 50 mil (2020) 116 mil (2025), 160 mil (2030)

Plantação de "jardins" nos telhados (coberturas verdes)

Antecipação das épocas de sementeira e colheita

9GW de energia eólica

9GW de energia fotovoltaica

35% dos automóveis ligeiros em circulação são elétricos 25% híbridos 14% a gasolina e 8% diesel

Valor do setor das renováveis para o PIB: - 68 mil milhões em 2025 611 mil milhões em 2030
Aumento da utilização de materiais alternativos de construção, como madeira

Diminuição das viagens e estadas de negócios

Aumento das pastagens biodiversas

Introdução de espécies e variedades de produtos mais resistentes à seca e ao calor

Redução de 4% 3 9% do lixo por pessoa

OS CARROS A GASOLINA E A GASÓLEO JÁ TEM MORTE ANUNCIADA -E O PRIMEIRO VENCEDOR É A SAÚDE

Mobilidade + eletricidade
A eletrificação dos transportes exige mais energia - em nove anos, Portugal aumentará nove vezes a produção fotovoltaica

É MUITO PROVÁVEL QUE SURJAM NOVOS "IMPOSTOS AMBIENTAIS" SOBRE OS ALIMENTOS

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