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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Do retalho à saúde, o que importa é encontrar uma boa oportunidade de negócio. E a dimensão do mercado parece ser um fator determinante na hora da escolha.

Há vários anos que os chineses descobriram e instalaram-se no tecido empresarial português. Já os portugueses, pelo contrário, começaram a fazer o sentido inverso mais tarde. Os lusitanos estão agora, e cada vez mais, a levar os seus negócios para China, em busca das melhores oportunidades. Ou melhor: de autênticos “negócios da China”.
 
Ambos querem fortalecer os laços comerciais que os unem. Aliás, ainda esta semana, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, iniciou uma vista de Estado que inclui Pequim, Xangai e Macau no roteiro. Em Pequim, o Presidente da República reunirá com o presidente da China, Xi Jinping, e com o primeiro-ministro do país. No site da Presidência da República, lê-se que o Presidente terá, também, “a oportunidade de contactar com os responsáveis pelo atual dinamismo do relacionamento bilateral, nomeadamente agentes culturais, desportistas, empresários e investidores”.
 

E há, de facto, cada vez mais empresários portugueses a estabelecer negócios na China ou, pelo menos, com esse plano traçado. Do retalho à saúde, passando ainda pela tecnologia, o que importa é encontrar uma boa oportunidade de negócio. E a dimensão do mercado parece ser um fator determinante.

 

Inovações portuguesas a caminho da China

A Criam, uma startup portuguesa que já leva cerca de dois anos e meio de vida, desenvolveu um dispositivo médico portátil que permite detetar, de forma rápida e automática, o tipo de sangue e doenças. Depois de ter participado e vencido o programa de aceleração Protechting — que apoia startups inovadoras nas áreas de insurtech, fintech e healthtech — a startup teve a oportunidade de fazer um tour pela China, ficando a conhecer o ecossistema chinês, estabelecendo contactos e percebendo que tipos de apoio existem.

 

A Criam tem já dois protótipos finais com testes clínicos efetuados. 

Vítor Crespo, cofundador e CEO da Criam, conta ao ECO que depressa se apercebeu que a China era “um mercado brutal”, sobretudo graças ao seu tamanho, mas também devido a outras características. “Na China, como menos de 0,3% das pessoas têm o tipo de sangue zero negativo, é gasto um valor enorme para fazer face a este tipo de situações [tipagem de sangue]. Com a Criam, é possível garantir poupanças efetivas para o ecossistema de saúde chinês“, afirma Vítor Crespo.

A startup portuguesa — que pretende iniciar a comercialização do dispositivo médico no segundo semestre de 2020 — quer, sobretudo, apostar na China para a produção dos aparelhos e está ciente de que existem algumas diferenças, quando comparada com a realidade portuguesa. “No que toca à parte da produção, percebemos que temos que temos de ter um controlo de qualidade muito apertado”, por exemplo. “Há várias diferenças que temos de acautelar, mas o tamanho do mercado justifica tudo”, acrescenta.

 

Já na área da tecnologia, a Wall-i também acredita que há espaço para o seu negócio no mercado chinês. “Há um conjunto de condições que nos faz acreditar que temos boas condições para ter sucesso na China, apesar de existir muita concorrência”, refere José Lima, CEO da startup. Graças à dimensão chinesa, o português considera que há espaço para todos”.

A Wall-i, que também foi uma das vencedoras do Protechting, tem perto de dois anos e pretende “chegar onde estão as pessoas, quando não estão na web”. O negócio passa por transformar qualquer ecrã num canal de comunicação, fazendo uma análise de audiências. “Com tecnologia, conseguimos integrar qualquer tipo de monitor, LCD ou projetor para a gestão remota dos conteúdos que passam nesses ecrãs”, explica.

 

“Além disto, utilizamos câmaras para fazer a contagem de pessoas que passam por determinados ecrãs, recolhendo dados como a idade, o género e até a expressão facial das pessoas”, continua. Na prática, a Wall-i consegue saber qual a audiência que passa por determinado ecrã, loja ou montra e quantas dessas pessoas entram, de facto, na loja, por exemplo.

 

Com a intenção de dinamizar o retalho inteligente, a maioria dos seus clientes são retalhistas, mas também o setor hoteleiro e da restauração já mostrou interesse nesta tecnologia. Para já, a ida para o mercado chinês, que é um dos passos seguintes da Wall-i, está marcada, “se tudo correr bem”, para o próximo ano.

 

“Se estivermos na China, temos outra vantagem enorme. Como utilizamos hardware, não precisaríamos de importar os materiais e os nossos clientes, sendo chineses, teriam acesso a esses equipamentos muito mais baratos”, explica José Lima. De acordo com os dados da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), em 2013, a China ultrapassou mesmo o Japão, tornando-se o segundo maior mercado produtor global de hardware, seguidos dos Estados Unidos da América.

Quando a moda se junta ao e-commerce

No setor da moda, a portuguesa Parfois também dá cartas do outro lado do globo, recorrendo ao comércio online. Frederico Pulido, diretor de e-commerce da Parfois, contava ao ECO, no final do ano passado, que os chineses dão uma enorme importância aos detalhes e, por isso mesmo, o tipo de abordagem tem de ser adaptado. Enquanto em Portugal os consumidores veem umas quantas fotografias e ficam satisfeitos, na China é preciso mais detalhes: desde material, composição, dimensão até fotografias de modelos a utilizar o produto.

 

Uma das medidas que a Parfois adotou, para tornar mais eficaz essa adaptação, foi a abertura de uma loja física, com o objetivo de testar e implementar as soluções mais adequadas à cultura oriental. Assim, a empresa portuguesa do setor da moda abriu uma loja pop-up em Xangai, onde os clientes entram, veem os produtos e fazem a compra, que tem sempre de ser feita online. “[Os clientes] não podem comprar na loja, fazem-no através de um QR code”, explicou Frederico Pulido, na altura.

A ideia da marca portuguesa foi testar uma loja diferente num local onde também o próprio consumidor atua de maneira diferente. “Quisemos experimentar ali [em Xangai] esta loja, porque os clientes chineses passam todo o dia com o telemóvel nas mãos”.

 

Mas também há negócios menos óbvios que também estão a dar frutos. A Delta Cafés, por exemplo, está a fazer história no país mais populoso do mundo, com cerca de 1,4 mil milhões de habitantes. A empresa portuguesa com quase 60 anos decidiu investir na China, consciente de que “apenas” 8% dos chineses consomem café.

Aquilo que, à primeira vista, parece uma proporção demasiado pequena para determinar o investimento noutro país, revelou-se uma oportunidade de negócio. É que esses 8% na China representam 110 milhões de consumidores.

 

O “boom” da classe média e, por sua vez, do consumo

É um autêntico “negócio da China”, pensado e adaptado ao consumidor chinês, que é um dos maiores fãs do comércio online. De acordo com a AICEP, a emergência do e-commerce na China justifica-se, sobretudo, através do crescimento da classe média. “As famílias têm um rendimento disponível cada vez maior e apreciam a compra de bens importados, que consideram ter melhor qualidade”, lê-se no breve apontamento da AICEP sobre o e-commerce na China.

 

Há mesmo quem diga que, em apenas cinco anos, a classe média chinesa passará dos atuais 300 milhões de pessoas para 600 milhões, um aumento exponencial e que é visto como uma grande oportunidade para retalhistas e empresas de bens de consumo.

 

A par disto, também a taxa de penetração da internet não para de crescer. No ano passado, atingiu os 57,7%, ultrapassando, pela primeira vez, a marca dos 800 milhões, relativos ao número de utilizadores chineses da internet. Números que confirmam o que o China Internet Network Information Center (CNNIC) já tinha dito: o país asiático tem a maior comunidade online do mundo.

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