NewDetail

AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Há cada vez mais pequenas empresas a exportar, afirma Rafael Campos Pereira, adiantando que "as nossas empresas vão exportar ainda mais em 2018".

"O investimento estrangeiro poderá continuar a ser uma realidade apesar da limitação que temos, que é a de mão de obra", acrescenta o vice- presidente da AIMMAP - Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal. Embora entenda que os apoios públicos não são essenciais ou prioritários, no entanto, Rafael Campos Pereira defende que, "se houver apoios públicos à exportação para os nossos concorrentes na Eslovénia, na Estónia, na Áustria, na Bélgica, em Itália, Espanha, seja onde for, nós temos que ter direito aos mesmos".


Vida Económica - A atividade das empresas do setor fora do país está a ser acompanhada pela AIMMAP?

 

Rafael Campos Pereira - A AIMMAP faz um grande trabalho nessa área apoiando as empresas aos mais variados níveis. Na identificação de oportunidades comerciais, na prospeção de mercados, na realização de ações coletivas, sejam missões empresariais, sejam stands coletivos em feiras de referência. Temos inúmeros casos de sucesso das exportações portuguesas para França que foram conseguidas em iniciativas organizadas pela AIMMAP.
A AIMMAP desenvolve iniciativas que apoiam de forma efetiva as empresas que querem exportar. Mas também fazemos questão de estar na própria base. Temos a academia de internacionalização, que é cada vez mais um sucesso de procura por parte das nossas empresas. Ajudamos as empresas a saber exportar mais e melhor.

 

VE - Hã cada vez mais empresas, mesmo pequenas, interessadas e capazes de exportar?

RCP - Cada vez mais há empresas interessadas e capazes de exportar, mesmo as mais pequenas. Há um efeito mobilizador por parte da AIMMAP, como também é suscitado pelo esforço exportador dos maiores. Esse efeito é extremamente interessante e curioso. As empresas estão a identificar melhor as suas próprias insuficiências ou fraquezas, no sentido de ultrapassá-las e de poder começar a exportar mais.
Havia empresas que apenas por pequenos detalhes não exportavam porque já tinham capacidade para o fazer. Corrigidos esses detalhes com o apoio da AIMMAP, as empresas estão a exportar. A nossa convicção é de que as nossas empresas vão exportar ainda mais em 2018.

 

VE - Quais são as ameaças a um ritmo de crescimento elevado das exportações?

 

RCP - Desdobraria as ameaças em duas áreas: por um lado, a excessiva valorização do euro face ao dólar, que em alguns mercados pode ter um efeito prejudicial, porque torna os nossos produtos um bocadinho mais caros, particularmente naquelas economias mais "dolarizadas", por outro lado, há também problemas internos e que podem ser ameaças.
Neste momento, as coisas estão a correr relativamente bem, mas não sabemos como vai ser amanhã e quando digo (internos?) digo tanto em Portugal como na própria União Europeia.
Mas, para continuarmos a exportar a este nível, para continuarmos a crescer a este ritmo as nossas exportações, é importante que não hajam grandes alterações naquilo que são os parâmetros de base que ajudaram a construir este desempenho. Regime laboral estável, um mínimo de estabilidade na legislação fiscal, um apoio à formação profissional, aí é importante melhorar e também o custo do dinheiro e do acesso ao dinheiro, que não tenha grandes alterações. Não só, isso é importante em termos europeus, não só importante para as nossas empresas, como fornecedores como também porque sabemos que o preço atual do dinheiro é importante para os nossos clientes para continuarem a comprar ao ritmo que tem comprado.

 

VE - Aí não menciona os apoios públicos porque tem havido uma redução. Acha que é crítico quanto aos apoios públicos ao investimento ou acha que não são críticos para o desempenho do setor?

 

RCP - Antes disso, gostava também só de dizer uma coisa: é que o custo da energia também é importante para nós, energias, combustíveis, etc.
Relativamente aos apoios públicos, são importantes e, na medida em que exista apoios públicos disponíveis para as várias empresas dos vários países, se os outros recebem, nós também devemos receber, porque não deve haver concorrência desleal a esse nível. Não deve haver diferença de tratamento.
Se houver apoios públicos à exportação aos nossos concorrentes na Eslovénia, na Estónia, na Áustria, na Bélgica, em Itália, Espanha, seja onde for, nós temos que ter direito aos mesmos. Dito isto, os apoios públicos para nós não são decisivos, não podem ser decisivos. As nossas empresas têm que saber investir, saber criar valor e saber exportar mais, independentemente dos apoios que tenham. Nessa perspetiva, os apoios públicos são um instrumento interessante mas não decisivo e, quando se fala daquilo que são as principais componentes desse motor que impulsiona as exportações, os apoios públicos não podem ser encarados nessa perspetiva como prioritários. São muito importantes, não são prioritários. Adquirem importância especial apenas porque sabemos que também são canalizados para outros países e se o são, para nós também têm que ser.


Setor com falta de mão-de-obra

 

VE - E como vê o interesse por parte das empresas estrangeiras em instalar atividade ou expandir a atividade em Portugal em comparação com as empresas nacionais?

 

RCP - As empresas estrangeiras tal como as empresas nacionais estão interessadas em investir. Nalguns casos empíricos que nós temos, o investimento está a aumentar substancialmente. Nessa medida, estamos convencidos de que as empresas sejam estrangeiras ou portuguesas estão cá para continuar.
Temos acompanhado muita extrapolação de várias empresas e achamos que elas mestão interessadas naquilo que as seduziu, que é um país extraordinário, relativamente estável e com um bom clima, com trabalhadores relativamente qualificados, com bons centros de formação. E o Cenfim sempre foi enfatizado no nosso caso como um bom fator de motivação das empresas, com universidades, nomeadamente, nas áreas da Engenharia com grande credibilidade e um nível muito elevado, com um conjunto vastíssimo de entidades de suporte que também ajudam as empresas a crescer e a serem cada vez melhores.
Portanto, nessa medida, estamos convencidos que o investimento estrangeiro poderá continuar a ser uma realidade apesar da limitação que temos com a de mão de obra. Temos de conseguir encontrar forma de captar mais mão-de-obra para as nossas empresas. Nalguns casos, sabemos que existe um problema demográfico, que foi acentuado pela emigração e não compensado pela imigração. Mas nós temos que saber atrair mais jovens para a indústria, sejam portugueses, sejam mesmo estrangeiros, apelando, seduzindo-os para vir para Portugal trabalhar nas nossas empresas. Obviamente que, para isso, temos que ser os primeiros a ter a noção de que é preciso criar condições para que eles venham e que sejam empregos estimulantes em todos os níveis não só no res- petivo conteúdo funcional como também nas condições que são garantidas a quem os presta.

VE - Frequentemente, neste setor, que tem bastantes PME, hã uma grande diferença de poder negocial quando estão a fornecer grandes grupos, apesar da diferença de dimensão e do poder que tem um grande grupo, os contratos que se fazem permitem às empresas obter margens razoáveis e sobreviver ou hã esmagamento de maegens?

 

RCP - O setor metalúrgico e metalo- mecânico é, não é só em Portugal mas na Europa, em geral muitas vezes qualificado como setor oculto, muitas vezes, por várias razões, por não ter a notoriedade mediática que a sua dimensão justificaria e, por outro lado, porque as suas empresas, muitas delas PME, estão esmagadas entre fornecedores gigantescos e clientes gigantescos da aeronáutica, da indústria automóvel, da indústria ferroviária, etc. Evidentemente que essa característica condiciona as nossas empresas, sobreviver elas têm sobrevivido, creio que também têm conseguido ter um papel cada vez mais importante no desenvolvimento de produtos e soluções e de serviços para as empresas que são suas clientes. Isso também tem criado alguma necessidade, os grandes clientes necessitam das nossas empresas, as nossas empresas têm feito um grande trabalho junto dos seus clientes gigantescos e nessa medida têm conseguido acrescentar valor e portanto ter margens relativamente mais interessantes.

VE - E a componente de serviço é cada vez mais maior?

 

RCP - É uma tendência irreversível de servitização da indústria, as nossas empresas, muitas delas particularmente na área da subcontratação industrial, na área das peças técnicas, uma componente muito forte dessa área é serviços de natureza técnica que as empresas prestam.

Partilhar