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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Melhorar empresas, ligar negócios e financiamento, ultrapassar problemas e promover a economia. São objetivos da Lisbon Investor Conference, que leva startups de sucesso e investidores de topo ao Museu do Oriente, nesta quinta e sexta-feira.

Dificuldade em encontrar financiamento à medida, gestão pouco profissional, desconhecimento dos contactos certos para crescer e ganhar relevância. Foram estas algumas das dificuldades identificadas nas nossas pequenas e médias empresas (PME) familiares e que levaram a Associação das Empresas Familiares e a Hovione Capital a unir esforços. Aproveitando o ambiente internacional e toda a riqueza de conteúdos e contributos de todo o mundo que se reúnem nesta semana em Lisboa, para a Web Summit, nasceu então esta iniciativa conjunta, que pretende encaixar peças com o objetivo de enriquecer o tecido empresarial português.
 
“Decidimos em abril fazer a Lisbon Investor Conference logo a seguir à Web Summit – serão dois dias bem diferentes, quinta e sexta-feira, no Museu do Oriente. Lembrámo-nos que podíamos aproveitar as 70 mil pessoas que estão em Lisboa, seria uma forma inteligente de capitalizar a presença estrangeira e de chamar atenções, numa altura em que Portugal está nas bocas do mundo”, conta Peter Villax, anfitrião da conferência e presidente da Associação das Empresas Familiares (AEF).
 
Contando com a presença de convidados que vão do ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, e Luís Castro Henriques, presidente da Aicep, ao empresário João Talone ou ao surfista de ondas gigantes Garrett McNamara, Ao Dinheiro Vivo, o também chairman da Hovione Capital explica que o Growth Day, 7 de novembro, é mais virado para o país, o crescimento das empresas e as novas formas de financiamento que podem ajudá-las nessa missão, enquanto o Health Startup Day, dia 8, é mais internacional e focado na indústria da saúde.
 
“Nos últimos 500 anos, a dívida bancária tem sido a forma de as empresas crescerem, mas já há alternativas extraordinariamente inovadoras aos bancos e convém que as empresas as conheçam. Bancos existirão sempre, mas estas alternativas trazem às empresas muito mais do que o dinheiro”, diz Peter Villax, justificando assim a vontade de fazer a ligação entre startups e fontes de capital capazes de as fazer crescer.
 
Marcos Lagoa, ex-presidente da Resiquímica e mentor da Startup Sintra, que assume o lugar de chairman da Lisbon Investor Conference, vai mais longe: “Queremos ser pedagógicos e um pouco provocadores. Quando tudo corre bem, o financiamento bancário é fácil, mas complica-se quando os tempos endurecem. Agora há liquidez nos mercados e nos bancos, mas os padrões de risco muito mais exigentes por vezes dificultam o processo de disponibilizar esses fundos a empresas. Estas soluções que trazemos à conferência têm características próprias que constituem boas alternativas; queremos que as pessoas estejam atentas a soluções que podem fazer sentido.”
 
Peter Villax deixa o objetivo bem claro: “Juntar intervenientes.” A explicação é simples: um gigante como a EDP não precisa de grandes esforços para encontrar quem o assessore numa emissão de dívida, até dez vezes maior; mas o caso é diferente quando se tratar de empresas de menores dimensões que precisam de capital para financiar crescimento em alturas-chave. “A grande diferença é que estas novas formas de financiamento trazem pessoas que conhecem o negócio, que tendem a especializar-se naquela área, que falam a mesma língua.”
 
E há por cá fundos com dimensão e disponibilidade? Marcos Lagoa confirma.”Temos gun powder, dinheiro disponível que muitas vezes as empresas desconhecem que existe. Esta é a primeira vez que se faz conferência destas em Portugal e tivemos muito interesse de oradores, de fundos que querem vir dar-se a conhecer – as empresas deviam ter interesse também.”
 
Puxar pelo país, através do seu tecido empresarial, é claramente o objetivo maior dos promotores desta conferência. Quanto a setores que mais interesse possam encontrar nela, Villax consegue apontar alguns incontornáveis: “Empresas típicas da Marinha Grande e de Leiria, que estão no nível médio dos 10 a 50 milhões de euros, com muito avançado nível tecnológico e que precisam de dar o salto para rapidamente se tornarem europeias. Mas também do setor agroalimentar, do têxtil e do calçado – que já melhoraram mas têm de subir mais -, das pequenas tecnológicas que têm tudo para subir de divisão, porque o talento em Portugal é imenso.”
 
Serão dois dias para motivar Portugal e uma “oportunidade extraordinária para termos visibilidade, para darmos visibilidade às nossas empresas e talento”. “Queremos e temos de estar ao nível dos maiores, criar um círculo virtuoso em que mais interesse gera mais dinheiro, que gera mais ideias e startups, que garantem mais interesse…”, explica Peter Villax, que diz querer contribuir para ver Portugal “na Liga dos Campeões”.
 
Pelo meio, ainda há um jantar com Garrett McNamara como convidado de honra. Porquê um surfista metido na economia nacional? “O Garrett representa o que queremos para Portugal: coragem. Eele enfrenta riscos enormes e sobrevive porque tem planeamento, conhecimento e equipa. Se uma empresa tiver isso, terá sucesso.”
 
Três tipos de investidores para crescer
 
As alternativas que vão estar em palco na Lisbon Investor Conference serão apresentadas em três dimensões, todas elas com case studies: dívida, a “Alternativa Clássica”; mezzanine, para “Acelerar o Crescimento” e private equity, “Novos Acionistas para Crescer”. “No primeiro caso, são operações que tendem a ser grandes, de um mínimo de 50 milhões de euros, e há fundos interessados – assim haja oportunidade de dimensão para responderem. Depois temos o mezzanine, que é não é capital nem dívida – conta como capital mas não tem a mesma permanência de tempo; são normalmente soluções arriscadas e caras, mas que podem ser grandes aceleradores em momentos importantes da vida das empresas, em alturas-chave em que têm a oportunidade de crescer muito depressa e precisam de fazer uma operação.”
 
Para facilitar a compreensão, Marcos Lagoa levanta a ponta do véu do case study associado a este tipo de financiamento: uma empresa que fez uma operação de 50 milhões para comprar uma estrangeira; pagou 10%/ano mas foi esse passo que lhe permitiu dar o salto naquele momento. “Não é para toda a gente, mas há momentos em que faz sentido e é bom as empresas terem conhecimento de que existe quem faça operações de mezzanine em Portugal.”
 
Por último e mais conhecida, a figura do private equity – “introdução de novo acionista, exigente profissional e ambicioso, que traz capital e know how financeiro para ajudar a dinamizar projetos” – será também abordada, com presença garantida dos “dois maiores players do mercado na atualidade”, um mais focado em operações domésticas e outro exclusivamente em exportadoras. Nos casos de empresas familiares em que o capital está todo na família, “reconhecer um acionista novo pode ser solução para a sucessão como para o crescimento, pode fazer sentido ter essa presença (que normalmente dura um tempo limitado de uns 7 a 10 anos).
 
Impostos, governance e outros conselhos úteis
 
Porque o objetivo da Lisbon Investor Conference é mesmo facilitar a vida às empresas estabelecendo contactos e mostrando soluções que muitas vezes desconhecem para problemas mais comuns do que imaginam, há outros temas em cima da mesa, ainda neste primeiro dia de conferência. E o primeiro não podia deixar de ser o que mais aflige os gestores – e que muitas vezes impede bons negócios de acontecerem: os impostos. “Antecipar a parte fiscal é fundamental e há coisas que podemos fazer para minimizar os custos fiscais mas têm de ser preparadas com tempo (podem chegar a demorar um ou dois anos)”, alerta Peter Villax, que admite ter sido esse um dos temas que mais preocupação levantam entre os gestores e empresários contactados.
 
Também capaz de arruinar um bom negócio é um mau governance, razão pela qual também esse tema foi incluindo na Lisbon Investor Conference. “Quanto melhor o governance, mais acesso – e mais barato – tem uma empresa a dívida, a private equity, a operações mezzanine.” E tanto mais numa empresa familiar, junta o chairman da Hovione, onde “alinhar a administração com os acionistas e ter boas relações de capital e de gestão, que comunicam objetivos e estão contentes é ainda mais importante, porque o acionista é irmão ou filho ou primo e há mais dimensões de entendimento e desentendimento”. “Um aspeto muito importante nesta dimensão das empresas familiares é garantir que não há assimetria de informação”, completa Marcos Lagoa. “Quem não se adapta, morre”, simplifica Villax, trazendo a lei de Darwin para o contexto empresarial e moldando-a à sobrevivência destas empresas no mercado e a conflitos familiares.
 
Um dia com pitch para as startups na saúde
 
Depois do macro, virá o micro. E os promotores da Lisbon Investor Conference optaram pelas startups da saúde como área de foco neste segundo dia de conferência, que incluirá uma espécie de shark tank e projetos a fazer pitch para ganhar o interesse (e financiamento) das farmacêuticas de topo presentes. A razão é simples e Ricardo Perdigão Henriques, CEO da Hovione Capital, explica-a: “Temos quadros técnicos de qualidade fora de série. Muitos saíram de Portugal, mas estão agora a voltar e a fazer startups. Já há histórias de sucesso (caso da Adapttech), mas as nossas startups têm ainda dificuldade em chegar a estes fundos que aqui trazemos.”
 
Doutorado em Oncologia pela Harvard Medical School, há que acreditar em Ricardo quando diz que Portugal tem um nível de talento de Recursos Humanos extraordinário e startups de qualidade incrível a produzir todo o tipo de soluções inovadoras. “Mas sem que haja uma ligação com o interesse económico, as ideias ficam paradas nas universidades. As farmacêuticas gastam 20% dos lucros em I&D, são biliões. As startups portuguesas precisam de dinheiro mas também do conhecimento sofisticado que aquelas trazem, é o smart money, que vem acrescido de contactos, desenvolvimento, guiar para objetivos. E como é uma área relativamente nova cá, precisamos de trazer conhecimento de fora.”
 
Os números avançados são claros: uma startup da saúde com um produto que ainda não foi a ensaios clínicos vale até 20 milhões de euros; com o produto aprovado vale mil milhões. Conforme vai crescendo e baixando níveis de risco, assim vai subindo o seu valor – sendo que as grandes farmacêuticas compram em todos os níveis de desenvolvimento. “Foi também para dinamizar esse ecossistema de empreendedores na saúde que pensámos este dia 8 de novembro. No Health Startup Day teremos 15 das empresas que consideramos mais promissoras – cinco delas do universo Hovione Capital, mas também de Espanha, Inglaterra e Suécia”, conta o CEO.
 
Tratando-se de soluções que precisam de muito dinheiro para chegarem a desenvolver-se e a ver a luz do dia, e sendo o match entre startups de topo e financiadores à medida um dos objetivos da conferência, os promotores da Lisbon Investors Conference convidaram farmacêuticas de topo, como a Johnson & Johnson ou a Merck Sharpe & Dohme, para virem conhecer o que de mais inovador sai das startups da área da saúde. “Os investidores apoiam, mas o cliente é a farmacêutica, por isso é importante que as startups saibam o que a indústria procura, que se facilite o diálogo entre as partes”, concretiza Ricardo Perdigão Henriques.
 
Para esta sexta-feira, haverá então ainda tempo para montar uma espécie de shark tank: 11 investidores em dois painéis de júri e as empresas repartidas por áreas a desenvolver novos medicamentos ou dispositivos médicos ou ainda soluções de saúde digital. O feedback será dado ao momento, após a apresentação no palco da Lisbon Investor Conference. Por fim, haverá ainda espaço para conhecer a história de sucesso de uma empresa portuguesa da área do cancro que conseguiu ser comprada por uma multinacional britânica, e para ouvir dicas para levantar dinheiro da holandesa Forbion – fundo de biotecnologia que é dos mais antigos investidores da Europa nesta área, e que no último ano financiou startups da saúde em 4 mil milhões de euros.

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