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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Sem grande capacidade para crescer em área de cultivo, Portugal tem de apostar na valorização dos seus vinhos, defende Jorge Monteiro.

As exportações portuguesas de vinho cresceram mais de 35% na última década e ultrapassam já a barreira dos 779 milhões de euros. A manter-se a performance do primeiro trimestre, quando vendemos mais 8% de vinho ao exterior, podemos ambicionar chegar perto dos 840 milhões neste ano. A grande incógnita é como manter este ritmo quando não é expectável que a superfície vitícola em Portugal aumente significativamente.

 

Para o presidente da ViniPortugal, a resposta está no crescimento em valor. “Precisamos de mais vinho certificado”, defende Jorge Monteiro. As contas são fáceis de fazer. Portugal tem uma quota de 2% da produção mundial de vinho, mas consome metade.

 

O aumento em volume, reconhece Jorge Monteiro, pode resultar de “alguma redução do consumo doméstico” – não esqueçamos que somos o maior consumidor per capita do mundo, com cada português a beber mais de 51 litros por ano -, mas considera que a via da valorização do vinho que hoje ainda não é certificado, e que estima rondar os 40% da produção total, seja a via mais natural para o crescimento.

 

Senão vejamos. Em 2010, as exportações de vinhos com denominação de origem protegida (DOP) e com indicação geográfica protegida (IGP) valiam apenas 183,6 milhões de euros, ou seja, 30% do total. Em 2017, já representavam 40%, com 311,9 milhões de euros.

 

“A própria procura vai levar a que as empresas mais bem posicionadas no mercado pressionem os seus fornecedores a certificarem mais vinho”, defende o presidente da ViniPortugal, lembrando que “a própria verticalização das empresas exportadoras, com uma aposta crescente na área vitícola, vai ajudar a esse processo.

 

E o maior mercado mundial de vinho, os Estados Unidos, são o principal destino das exportações de vinhos DOP portugueses; nos vinhos com IGP o top é ocupado pelo Brasil, mas os EUA estão logo em segundo lugar. “Portugal especializou-se em duas zonas de conforto, a União Europeia e os países de língua oficial portuguesa.

 

Mas hoje já começamos a ver mercados como os EUA, o Canadá, a China a assumirem posições relevantes, bem como a Coreia do Sul, a federação Russa ou o Japão, embora estes com bases de partida mais pequenas”, lembra Jorge Monteiro.

 

Não admira, por isso, que a ViniPortugal afete dois terços do seu orçamento anual para a promoção dos vinhos de Portugal no mundo, de 6,5 milhões de euros, a apenas quatro países: EUA, Canadá, Brasil e China. E à medida que os mercados vão conhecendo melhor os vinhos portugueses, a aposta da ViniPortugal passa a ser na realização de eventos de promoção junto do consumidor final.

 

Como é o caso do Brasil, mercado de “elevada notoriedade” e com “boa distribuição” dos vinhos portugueses, onde a ViniPortugal organiza já há cinco anos uma prova anual para consumidores no Rio de Janeiro, a que juntou, nos últimos dois, um evento semelhante em São Paulo. Sem descurar, claro, as provas para profissionais em cidades de segunda linha, como Belo Horizonte, Salvador, Brasília Florianópolis ou Curitiba.

 

E começa a estudar replicar o modelo do Brasil noutros mercados, organizando provas para consumidores em Nova Iorque ou em Macau. Mas não basta produzir, é preciso, também, saber vender. Porque “não basta dizer que os nossos vinhos têm muita qualidade ou que são feitos a partir de castas autóctones”, há que saber afirmar essa “diversidade e diversificação” no momento certo, ou seja, “à mesa das negociações.

 

A questão é que Portugal tem “os melhores técnicos e as melhores tecnologias” à disposição, mas tem um “défice de formação” em comércio internacional. “Somos amadores a negociar com profissionais da grande distribuição, que têm as técnicas negociais muito bem treinadas”, argumenta.

 

E, por isso, a ViniPortugal vai lançar um curso-piloto de treino em negociação internacional: “É preciso dominar línguas, mas também as técnicas de negociação, dispondo de um argumentário muito sólido para apresentar.”

 

Espanha cresce 150%

 

Num ano em que a produção mundial de vinho está ao nível mais baixo das últimas cinco décadas, Portugal conseguiu ter uma vindima quase 12% mais alta do que em 2016.

 

Mais importante ainda, os nossos principais concorrentes registaram produções “historicamente baixas”, com quebras que vão dos 15%, em Espanha, aos 23%, em Itália.

 

Um momento único para reforçar a posição dos vinhos portugueses no mundo. Certo? Talvez não, se atendermos aos números das exportações para Espanha.

 

Nos primeiros três meses do ano, exportámos mais de 53 mil hectolitros de vinho para o país vizinho, quase seis vezes e meia a quantidade do período homólogo.

 

O problema é a quanto estamos a vender esse vinho. É que as exportações crescem 548% em volume, mas apenas 150% em valor, para 6,2 milhões de euros. O que significa que o preço médio caiu 63%, passando de três euros por litro para 1,16 euros. Jorge Monteiro considera que “ainda é cedo para tirar conclusões”.

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