Não surpreende, pois, que, segundo o estudo de Ernâni Lope (SAER), o potencial da economia do mar possa rondar um valor estimado em 20 mil milhões de euros, isto se houver uma correcta utilização do potencial das actividades ligadas à área marítima portuguesa, o que permitirá duplicar o seu peso no PIB até 2025.
É tempo, é hoje voz unânime, de o país alavancar o seu desenvolvimento com políticas públicas e investimentos privados que olhem para o mar com uma activo estratégico sustentável relativamente ao qual Portugal não pode passar ao lado, correndo o risco de perder uma oportunidade de se posicionar atempadamente na corrida europeia e global às potencialidades e aos recursos do mar, que hoje representam cerca de 6 por cento do PIB e que amanhã podem representar bastante mais.
Hoje o mar tornou-se uma fonte de recursos que depende da construção de uma economia marítima próspera ao serviço da qualidade de vida e do bem-estar social e respeitando o ambiente, garantindo a sua sustentabilidade. Neste novo panorama, o mar representa uma grande oportunidade para novas actividades económicas que, impulsionadas pelos avanços tecnológicos recentes, começam a orientar o seu interesse e acção para o mar, obrigando a novas formas de gestão, numa lógica de defesa e salvaguarda activa dos interesses nacionais, numa lógica de inovação, modernidade e internacionalização. Neste nova óptica, o mar representa uma prioridade, que ao abranger um vasto leque de actividades de forma integrada, que se estende não apenas ao transporte marítimo e aos portos, à construção e à reparação navais, aos recursos alimentares e à energia, mas também ao turismo diversificado e sustentável, bem como a gestão da biodiversidade, constitui um poderoso motor de desenvolvimento estratégico.
A posição geográfica de Portugal, a sua centralidade e o know-how acumulado, tanto do ponto de vista da experiência histórica como do avanço científico, representam uma mais-valia para os actores públicos e privados investirem na economia do mar, seja acautelando e desenvolvendo políticas e estratégias coordenadas, seja desenvolvendo projectos empreendedores que finalmente coloquem o mar na luz da ribalta e o posicionem como um dos pilares da cultura e do desenvolvimento social e económico do país.
Domínios de actividade, que se querem competitivos e que têm o mar como fonte de recursos vários, de produção industrial e de inovação em matéria de novas tecnologias, produção e comercialização, que se traduzam em exportação de bens e serviços, como sejam, entre outras, a actividade portuária e a logística; os recursos minerais e energéticos da plataforma continental; a captura de energia renovável; as actividades de investigação e as biotecnologias e os biocombustíveis; gestão e preservação dos recursos marinhos; as pescas no alto mar, a aquicultura e a indústria do pescado; a actividade marítimo-turística; a náutica de recreio desde os cruzeiros à desportiva e ao lazer; preservação do património marítimo-cultural; o sol e mar reinventados e requalificados, enfim, actividades que hoje representam cerca de 6 por cento do PIB, alcancem, no médio prazo, por efeito directo e indirecto da economia do mar, uma taxa de crescimento de mais de 11 por cento do PIB, 12 por cento do emprego, 17 por cento dos impostos indirectos e 15 por cento das margens comerciais, fazem parte actualmente da nova agenda estratégica.
Para o debate empresarial em torno de uma economia do mar, têm contribuído o Fórum Empresarial da Economia do Mar e a Associação Oceano XXI, que representam mais de uma centena de instituições interessadas na implementação da economia gerada pelo oceano português e que apostam em projectos de cooperação em matéria de acções de valorização e defesa do potencial estratégico bem como de projectos de desenvolvimento estruturante da economia do mar.
Trata-se, pois, de converter não só o mar em aposta nacional, mas também como marca de água da identidade de um povo, que teve o mar como um elemento pioneiro da globalização, e que agora, no século XXI, depois de muitos sobressaltos e de desinteresse pelo mar nas últimas décadas como factor de riqueza e progresso nacionais, volta a depositar no mar e na sua economia a sua confiança, como desígnio estratégico capaz de gerar uma nova dinâmica empresarial e riqueza colectiva, a semelhança de outros países europeus que encontraram no mar um significativo contributo para a sua prosperidade.
É neste sentido que conhecimento e empreendedorismo podem e devem potenciar boas práticas empresariais de excelência e cooperação entre actores estratégicos públicos e privados, de modo a colocar o mar português no centro das políticas nacionais e da economia global, contribuindo para o esforço exportador e para o prestígio e reposicionamento do país na comunidade internacional.
Ou, nas palavras de Êrnani Lopes, a quem se deve a coordenação do estudo sobre o “hipercluster” da economia do mar que a Associação Comercial de Lisboa encomendou ao ex-ministro das Finanças: “Numa época de descontinuidades e de novas afirmações estratégicas, a exploração dos sectores de actividade económica relacionadas com o mar, aparece, assim, para Portugal, como uma relevante via de criação de condições de sustentabilidade estrutural futura que, para além do potencial em termos de valor e poder, é, também, constituinte da sua identidade histórica”. Ou seja, o mar como desígnio nacional para o futuro.