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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

A redução do consumo e a escassez de divisas afetam as exportações portuguesas para Angola. Seminário no Porto reforça cooperação empresarial entre os dois países.

O mercado encolheu, a desvalorização galopante assusta mas, segundo os empresários que lidam com Angola, o ambiente económico está a melhorar, os pagamentos ao exterior estão mais ágeis e o país ganha credibilidade.

Em 2018, Angola é "para esquecer, mas estamos confiantes numa evolução favorável e que nos leva a manter em carteira o projeto de uma linha de montagem no país", diz ao Expresso Bernardino Meireles, administrador da Fogões Meireles, um dos participantes no Fórum Económico Portugal-Angola que esta sexta-feira decorre no Edifício da Alfândega do Porto. Organizado pelo AICEP e o seu congénere angolano, o seminário contará com a presença do Presidente angolano, João Lourenço, na sessão de encerramento.

Transferir capitais

Paulo Nunes de Almeida, presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP) e António Mota, patrão da Mota-Engil, são oradores no mesmo painel do seminário.

Nunes de Almeida acredita que 2019 será um ano de viragem e Angola "voltará a ter uma posição de maior relevo nas exportações portuguesas".

A "dificuldade em repatriar capitais" é o fator que mais afeta a confiança dos agentes empresariais, contribuindo para a redução das vendas. A AEP organiza todos os anos em junho o pavilhão de Portugal na Feira Internacional de Angola (FILDA). A participação nas duas últimas edições (20 empresas) foi muito inferior ao registo histórico.

Esta visita de João Lourenço "reforça os laços e abre uma nova página". Mas, cabe às empresas "avaliar os riscos e oportunidades" e decidir sobre os seus negócios ou investimentos, tendo em conta as condições de cada país.

Angola está a "mudar de paradigma, apostando na diversificação da economia, na produção local e na transferência de tecnologia", diz Nunes de Almeida.

Oportunidades intactas

António Mota diz que a normalização das relações bilaterais entre os Estados facilita a cooperação empresarial. Mas, no plano económico "tudo depende da vontade dos empresários", que têm de se adaptar aos ciclos da economia. Oportunidades em Angola "não faltam, as potencialidades permanecem intactas".

A construtora da família Mota foi fundada em Angola e o conglomerado atravessou bonanças e tempestades, sem nunca desistir. E em Angola, "temos de ser angolanos, investir no país".

A conferência "Por uma parceria estratégica" serve para promover a cooperação bilateral e reforçar o intercâmbio entre empresários dos dois países.

Parâmetros internacionais

A sucursal angolana da Fogões Meireles, em 2017, fez 7 milhões de euros - este anos a receita será residual. O país "precisa de tempo e não se consegue ainda antecipar quando será o momento certo para voltar a arriscar", diz Bernardino Meireles.

O exportador reconhece que a economia do país está a evoluir para "parâmetros internacionais" que lhe conferem credibilidade. Uma parte da receita gerada estava na banca local em kwanzas - a desvalorização cambial foi um rude golpe.

A entrada em cena do Fundo Monetário Internacional é um fator que ajuda à credibilização do país.

Receber primeiro, exportar depois

Este ano, as exportações da Meireles foram através de centrais de compras. É este o mecanismo utilizado pela maioria dos dos 5800 exportadores (9400 em 2014) que lidam com o mercado angolano.

Nalguns casos, as centrais estão ligadas a redes de distribuição, como o Jumbo ou a Teixeira Duarte. Mas há operadores independentes que montam contentores diversificados, que podem incluir conservas, vinho ou massas.

O risco agravou-se e as centrais "tornaram-se mais cautelosas na constituição de stocks e os fornecimentos só seguem depois dos pagamentos chegarem", conta um operador ao Expresso.

A linha de crédito de €500 milhões que entra em vigor em janeiro é um fator que favorecerá as exportações.

Consumo em queda

A nova realidade angolana "impulsiona a inflação, conduziu a uma redução do consumo e pressionou a rentabilidade do negócio" refere um outro participante no Fórum que gere em Angola uma rede de 10 lojas.

Com o poder de compra em declínio, "é impossível refletir no preço o agravamento dos custos". Por isso, a expansão na cadeia fica à espera "que todas as incertezas se dissipem e a economia volte a animar". Num país “com uma desvalorização cambial tão forte ninguém pede estar confortável", acrescenta o empresário.

Investir os lucros gerados

O sentimento dominante na comunidade empresarial é de manter as operações, sem reforçar a exposição. Mas, há exceções como o grupo da família Monte, da Póvoa do Varzim. Opera nos negócios do ambiente e do automóvel e está em modo de expansão.

Os lucros "gerados servem para financiar o programa de investimentos, dinamizando a economia", diz o administrador Tiago Patrício. Por isso, o grupo não sofre com a transferência de divisas. As "operações sobre salários de expatriados e importação de materiais estão em normalização", diz o gestor.

Exportações encolhem 280 milhões

Angola é o oitavo cliente de Portugal (2,5% de quota), superado por pequenos países como a Bélgica - em 2014 estava o quarto lugar, com uma quota de 6,6%. Mas, face aos restantes fornecedores de Angola, Portugal até reforça a quota (18%), superado apenas pela China.

Este ano as exportações estão em queda (16%) e deverão encolher 280 milhões de euros.

Ao invés, as importações, por causa do petróleo, triplicaram até ao fim de julho. O saldo da balança de bens (1,5 mil milhões em 2017) sofrerá, em 2018, uma severa redução.

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