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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Depois da quebra de 2016 a fileira do vinho acabou o ano passado em grande. Aumentaram os volumes, a venda de vinho certificado, a facturação e o preço médio. Mas ainda há um mar de granel a obscurecer o horizonte do sector

Os produtores e as empresas da fileira do vinho português têm razões de sobra para brindarem aos sucessos do ano passado. Depois de, em 2016, as exportações terem recuado pela primeira vez em duas décadas, o ano que acabou inverteu a tendência e abriu portas a todos os recordes. As vendas ao exterior cresceram entre 8 e 10%, ficando acima dos 780 milhões de euros (números estimados pela ViniPortugal), as quantidades vendidas aumentaram, os vinhos com denominação de origem ou engarrafados, que produzem mais valor acrescentado, viram a sua quota subir, o preço médio melhorou e, para dar mais brilho aos festejos, as vendas no mercado interno deverão ter crescido cerca de 7% em valor. “Foi de facto um ano muito bom”, congratula-se Jorge Monteiro, presidente da ViniPortugal, a associação vocacionada para a promoção externa do vinho português. “Vai ser de novo o nosso maior ano de sempre”, diz Manuel Pinheiro, presidente da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes, que espera para este ano uma aceleração nas vendas ao exterior na ordem dos 10%.

 

Ao contrário do que aconteceu em 2016, quando uma queda abrupta das compras de Angola arrastou os números da exportação para o vermelho, no ano passado os dez principais mercados de destino do vinho nacional ou tiveram registos positivos, ou recuos ligeiros. A França, que continua a ser o principal comprador de vinho do Porto e lidera a procura externa. Os Estados Unidos, cujas compras cresceram 8,3% em valor e 7,6% em volume entre Janeiro e Setembro, mas também o Reino Unido, o Canadá e a Alemanha reforçaram os seus estatutos de mercados para o futuro. O Brasil registou um salto surpreendente e aumentou as suas compras em 55% em volume e em 60% no valor. E se Angola está ainda longe de ocupar o lugar de destaque de há uma década atrás, duplicou as suas compras em volume e em valor – é hoje o nono mais importante mercado do país.

 

Entre todos os destinos do vinho nacional, porém, os Estados Unidos são cada vez mais uma espécie de paraíso que nenhuma região nem nenhum produtor quer perder. Empurrado pelas críticas positivas de gurus como Robert Parker ou pelas revistas da especialidade como a Wine Spectator (e também pelo aumento de consumo que tornaram o país no maior importador de vinho do Mundo), as exportações do vinho nacional cresceram 45% em valor entre 2012 e 2016 e tudo indica que essa tendência se mantenha. “É uma das nossas prioridades para o futuro”, reconhece Jorge Monteiro. Até porque, para lá das quantidades, nos Estados Unidos conta muito o factor preço. Os norte-americanos compram vinho português por valores bastante acima da média. Até Setembro do ano passado, o litro era exportado para a América a 3.82 euros, quando a média mundial era de 2.51 euros.

 
Nesse enorme mercado em crescimento, parece haver lugar para todos. Para marcas especiais como a “Silk & Spice”, um tinto com elevado teor de açúcar criado pela Sogrape. Para os Porto Vintage. Para os tintos de nicho a preços acima dos 30 euros. Para os Vinhos Verdes que têm aqui o seu principal mercado. Mas também para pequenos produtores como a Caves Transmontanas, que produz e comercializa o espumante Vértice. “Nos Estados Unidos conseguimos colocar os nossos vinhos na gama de preços que definimos. O mercado é profissional e transparente e se os compradores reconhecerem a qualidade dos nossos produtos não regateiam preços. É por isso que nós temos lá espumantes a serem vendidos a 40 ou 45 dólares”, diz Celso Pereira, enólogo e administrador da empresa. Como foi isso possível? “Fazendo muitas visitas e muitas provas”, responde Celso Pereira. Mas, os 95 pontos dados por Robert Parker a um dos seus vinhos ajudou. Como ajuda o facto de o espumante feito com a casta Gouveio estar a ser servido a copo no restaurante Eleven Madison Park.

 

À procura de valor

 

O caminho de Celso Pereira não é original. Vários produtores do Douro, do Alentejo ou dos Vinhos Verdes (principalmente os que trabalham a casta Alvarinho) perceberam há muito que a única forma de um país que produz apenas 2% do vinho mundial sobreviver no mercado global é apostando no valor acrescentado. “Ao contrário dos países do Novo Mundo, na Europa a cultura da vinha é condicionada e não podemos acreditar que vamos ser capazes de aumentar muito a nossa produção”, lembra Jorge Monteiro, para logo depois acrescentar: “O caminho é, por isso, o valor acrescentado do que produzimos”. Os números do ano passado indicam que esse caminho está a ser percorrido. Enquanto os volumes de vendas de vinhos certificados (com as denominações de origem Douro ou Alentejo ou com indicações geográficas de proveniência do tipo Alentejano ou Terras Durirenses) cresceram entre 7 e 22% em volume (até Setembro), os vinhos indiferenciados aumentaram as suas vendas em apenas 1.9%.

 

Mas, é neste domínio em concreto que há ainda muito a fazer. Portugal é um médio produtor à escala mundial e a sua produtividade média por hectare é incomparável com a de outros países europeus, da Austrália ou dos Estados Unidos. Ainda assim, 38% dos vinhos nacionais exportados enquadram-se nas categorias dos vinhos não certificados. E entre Janeiro e Setembro Portugal vendeu 30 milhões de litros de vinho a granel a um preço médio de 53 cêntimos por litro (um quinto do preço médio da exportação), de acordo com a publicação especializada Wine by Numbers. Um valor acima do granel espanhol (39 cêntimos) ou do sul-africano, mas ainda assim incapaz de remunerar a produção – fontes ligadas ao sector afirmam que boa parte destes quantitativos são afinal reexportações, ou seja, granel comprado em Espanha e revendido para mercados como o de Angola.

 

Numa altura em que Portugal exporta quase metade do vinho que produz, os responsáveis pela fileira acreditam ter chegado a hora de acabar com este desperdício de valor que afecta praticamente todas as regiões nacionais. “Temos uma enorme margem de progressão para os vinhos certificados e engarrafados e é por aí que temos de ir”, diz Jorge Monteiro. Nos Vinhos Verdes, cujo perfil de exportação se pautava há apenas duas décadas atrás quase em exclusivo pelo volume, esse percurso está a ser seguido. “As nossas categorias especiais, principalmente os vinhos que apostam nas castas da região como a Loureiro ou a Alvarinho, já representam entre 17 a 18% do volume total e continuam a crescer acima da média. Essa é a imagem mais positiva do futuro que nós temos”, diz Manuel Pinheiro. Com o aumento da procura interna e externa, haverá cada vez menos espaço para vinhos indiferenciados.

 

Com uma quota no mercado mundial correspondente ao seu potencial produtivo (2% do total), o vinho de Portugal dificilmente poderá ser vendido aos preços dos franceses (4.7 euros por litro em média), mas o reforço da imagem dos vinhos nacionais na imprensa especializada, com destaque para os tintos do Douro, a singularidade de produções como a dos Vinhos Verdes, com vinhos menos alcoólicos e ajustados aos modernos perfis do consumo, ou a identidade que resulta de um património natural (as castas) único, tornam o futuro mais risonho.  

 

Alentejo e Verdes apostam no crescimento da vinha

 

Mercado nacional prefere o Alentejo, enquanto os mercados externos preferem vinhos da região do Douro, essencialmente por causa do vinho do Porto.

 

Portugal é o décimo primeiro produtor mundial de vinho. Nos últimos anos, o potencial nacional de produção situou-se entre os 600 e os 700 milhões de litros, um valor próximo dos 60 litros por cada português. Metade dessa produção tem por destino o mercado interno, no qual o vinho é vendido principalmente em garrafa (45%) ou no sistema “bag in box” (40%), de acordo com a consultora Nielsen. A outra metade é exportada para mais de 100 países em todo o mundo. Se ao nível nacional, a região preferida é o Alentejo (seguida pelos Vinhos Verdes), na exportação a região dominante é claramente o Douro, essencialmente por causa do vinho do Porto.

 

Um país produtor que exporta metade do que produz nos seus 192 mil hectares de vinha dispersos por 582 mil parcelas pode estar numa situação confortável. Mas essa ideia, que genericamente está correcta, pressupõe que haja uma uniformidade no desempenho produtivo e comercial das regiões nacionais. O que está longe de ser verdade. O Douro tem dezenas de vinhos tintos (ou Porto) pontuados acima dos 95 pontos nas revistas internacionais mas debate-se com um problema estrutural de sobreprodução; o Dão e a Bairrada são regiões de culto para consumidores de nicho mas tardam em afirmar a sua qualidade e perfil quer no mercado nacional, quer no externo. Setúbal afirma-se no mercado de quantidade e Lisboa e o Tejo ganham cada vez mais espaço na disputa regional. Os Vinhos Verdes ou o Alentejo acabam neste campeonato por mostrar muito mais estabilidade e consistência.

 

É por isso que na bolsa de licenças para novas plantações lançadas em 2016 e 2017 pelo Instituto da Vinha e do Vinho sejam estas duas regiões a apresentar o maior volume de candidaturas. Os produtores alentejanos foram responsáveis por 34% dos pedidos de licenças que abrangeram 6320 hectares, enquanto os produtores dos Vinhos Verdes disputaram quase 15% da área em questão. O sucesso comercial dos seus vinhos faz com que os preços na produção (45 a 50 cêntimos por quilo na última vindima no Minho) sejam mobilizadores do investimento. No Douro, a maior região vinhateira nacional em área plantada, o sistema de regulação garante preços superiores para o volume de produção autorizado para o vinho do Porto; as uvas que ficam de fora desta autorização administrativa são geralmente pagas abaixo do custo de produção estimado (pouco mais de 600 euros por cada pira de 550 litros).

 

Face a estes números divulgados pelo IVV, não se pode estranhar que a casta preferida para as novas plantações seja uma variedade mais associada ao Alentejo: a Alicante Bouschet, com 14.8% do total dos pedidos em termos de área. Segue-se a Touriga Nacional (10.3%), que sendo originária do Dão (ou do Douro) se expandiu a todo o país, a Aragonez/Tinta Roriz, a Syrah (uma casta francesa bem adaptada às vinhas do sul), e a Loureiro, uma casta tipicamente minhota e baluarte do Vinho Verde. Mas se nesta escolha há linhas de continuidade, há também sinais de evolução. A clássica Trincadeira está em regressão e não aparece nas primeiras dez castas mais procuradas. E quase um terço dos pedidos relaciona-se com variedades que entram na categoria “outras”. O que pode sinalizar o esforço dos produtores nacionais em conservarem a extraordinária biodiversidade da viticultura nacional.

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