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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Fazer a diferença. É esta a premissa que guia a conversa com Guy Villax, que há 22 anos lidera a Hovione, empresa química especializada em produtos farmacêuticos.

“Um em cada dois comprimidos para curar a hepatite C sai das nossas fábricas. Isso deixa-me muito orgulhoso, por fazer parte de um medicamento que faz a diferença”, refere o administrador delegado, acrescentado outros exemplos, como a participação da Hovione no desenvolvimento de fármacos para a fibrose quística, uma “doença genética horrorosa”, rara, que encurta muito a esperança média de vida dos doentes e que implica grande sofrimento. O projeto teve sucesso e foi feito em conjunto com uma companhia de Boston, nos EUA, geografia onde foi descoberto um outro medicamento inovador para a leucemia mie­loide aguda, para o qual também contribuiu a tecnologia portuguesa. “É uma indústria com um impacto brutal na vida das pessoas.”

 

O trabalho da Hovione situa-se entre a descoberta de uma nova molécula e o seu lançamento para o mercado. Cabe à multinacional portuguesa — que completa 60 anos em 2019 e que permanece nas mãos da família Villax — viabilizar as invenções farmacêuticas. Os seus clientes são, sobretudo, pequenas biotecnológicas e exporta 100% do que produz. “Somos quem está na retaguarda e desenvolve o processo [de fabrico], quem prepara quilos de documentação para a Food and Drug Administration [FDA, a agência norte-americana do medicamento] e quem fornece o produto no lançamento e na fase comercial”, explica Guy Villax, acrescentando que “é uma maratona de cinco a sete anos até à aprovação”. O caminho tem sido feito com o desenvolvimento de tecnologias pioneiras. “Conseguimos identificar áreas que os outros ainda não descobriram. Por exemplo, a engenharia de partículas era desconhecida há 15 anos”, menciona, revelando que a empresa já está a submeter ao regulador dossiês de registo de medicamentos com modelos matemáticos, naquilo que apelida de “uma total revolução”. Hoje, o produto mais caro da Hovione fica em €60 mil o quilo e é usado nas bombinhas de asma, mas é preciso ter em conta que cada administração do medicamento é de apenas 50 microgramas.

 

Guy Villax frisa que o negócio está “muito bem distribuído”, já que não há um “cliente que chegue a 10% das vendas”. Por isso, a Hovione trabalha em várias frentes de investigação ao mesmo tempo. “Este ano estamos a apoiar 150 moléculas que os nossos clientes têm em desenvolvimento clínico. Muitas vão ficar pelo caminho, mas contamos com mais quatro aprovações [pela FDA] em 2019.” São 10% dos 40 medicamentos novos que a FDA aprova por ano: “É uma quota de mercado elevada. Acho que os concorrentes não chegam lá”, e estes fármacos “que os nossos clientes lançam pelo mundo fora” têm no rótulo “made in Portugal”. A Hovione não descobre novos remédios, “porque a invenção pressupõe um entendimento da doença e de como é que vamos usar o medicamento no metabolismo, e nós não sabemos fazer isso”, mas trabalha para tornar “a invenção uma realidade possível e viável, porque sem um processo de produção eficaz não se consegue fazer as quantidades nem ter um produto a um custo suficientemente baixo para haver uma grande margem que pague a investigação”.

Guy Villax revela que uma das coisas que mais valoriza é “ter um almoço de domingo feliz com a minha família, por isso tem de haver um bom entendimento sobre os riscos que vamos correr, e a família dá-me um apoio enorme”. “A Hovione tem muita sorte, porque os acionistas procuram mais do que dividendos monetários, procuram fazer a coisa certa. Há um desejo de contribuir para que apareçam medicamentos com curas novas.” E frisa que, depois de o pai morrer, em 2003, uma das medidas que tomou foi criar um Conselho de Administração “forte”. “Temos um board com quatro administradores não executivos independentes e três pessoas da família que fazem um juízo sobre a condução da empresa e que questionam a estratégia.”

 

Nova fábrica no Seixal

Tem dado frutos. “O negócio cresce a 10% ao ano, temos um EBITDA [lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização] de 25%, em média, que nos permite um crescimento só na base do reinvestimento.” Em 2018, a operação nacional faturou €154 milhões, e a Hovione “é aproximadamente o dobro do que fazemos em Portugal”. Entretanto, a empresa está a iniciar um novo ciclo de investimento, com a construção de uma fábrica no Seixal, num terreno com 44 hectares — a capacidade da unidade fabril de Loures está esgotada e ali já não era possível expandir a atividade. “Nos últimos cinco anos investimos em Portugal €153 milhões e criámos 505 postos de trabalho e nos próximos três anos vamos investir €232 milhões”, revela o empresário, adiantando que deverão ser gerados 460 empregos.

 

A Hovione tem um total de 1730 trabalhadores, dos quais 1137 em Portugal (800 estão em Loures), estando os restantes espalhados pelos laboratórios e fábricas em Macau, EUA e Irlanda, bem como nos escritórios de Hong Kong, Índia, Japão e Suíça. Guy Villax diz que o aborrece já não saber o nome de todos os colaboradores. “O nosso negócio não é uma indústria de fazer tijolos, tem uma intensidade de ciência muito grande, as equipas que trabalham nos projetos são multidisciplinares, e o sucesso é da equipa. Por isso, é importante conhecermo-nos, estarmos alinhados”, sustenta.

 

Para se financiar, a Hovione vai usar capitais próprios: “Temos um balanço sem dívida e um excesso de liquidez para atender a estes investimentos.” Em 2017 foi vendido o negócio de agentes de contraste que a empresa tinha na China, e o dinheiro da operação “vai ser reinvestido no Seixal”. Antes do final de 2018, a Hovione fez uma emissão obrigacionista de 50 milhões de dólares a 15 anos.

 

PERFIL

Guy Villax, 58 anos, é filho de Ivan e de Diane Villax, fundadores da Hovione, que lidera desde 1997. Tem dois irmãos que também trabalham na empresa da família, Peter e Sofia. Estudou no Lycée Français Charles Lepierre, em Lisboa, e no Lycée Français de Londres e licenciou-se em Gestão e Contabilidade, pela University College at Buckingham. No início da década de 80 foi auditor na consultora Price Waterhouse (antes de ser PwC), em Londres, para integrar, depois, a Hovione em Hong Kong, no departamento de vendas. Numa entrevista recente a uma revista do sector da química, Diane Villax diz que Guy “foi atirado aos leões, com apenas 23 anos”. À época o pai pediu-lhe para construir uma fábrica em Macau e o filho conseguiu fazê-lo em 14 meses, recorda a mãe. Guy Villax tem uma vida associativa intensa com ênfase no combate à falsificação de medicamentos.

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